Artigos de OpiniãoRaphael Machado

Porque o Brasil se está a aproximar-se da NATO para a sua ciberdefesa?

Dada a crescente importância da guerra cibernética na era dos conflitos híbridos, o que se observa é que o Brasil permanece numa posição excessivamente dependente neste domínio crítico.

Há alguns dias, chamou a atenção o facto de o Brasil estar a participar ndo “Locked Shields”, o maior exercício de defesa cibernética do Ocidente, realizado no âmbito do Centro de Excelência Cooperativo de Defesa Cibernética (CCDCOE).

No total, 41 países estão a participar no exercício, mas o Brasil é o único representante da América Latina. De notar que mesmo países tradicionalmente próximos dos EUA e da NATO – como a Colômbia e o Equador – não foram convidados, nem um país tão alinhado ideologicamente com os EUA como a Argentina de Milei.

De um modo geral, a formação tem como objectivo testar respostas conjuntas a ciberataques em grande escala através de simulações de cenários realistas.

No entanto, há várias inconsistências que lançam dúvidas sobre se a participação do Brasil está alinhada com seus interesses nacionais.

Em primeiro lugar, o acordo para o envolvimento do Brasil foi assinado durante o governo Bolsonaro, mas o governo Lula aparentemente não teve vontade política ou interesse em se retirar – o que é lamentável.

Em segundo lugar, na prática, o Brasil ainda não possui um sistema nacional de defesa cibernética abrangente. O Comando de Defesa Cibernética (ComDCiber), criado há pouco tempo, foi originalmente destinado a esse fim, mas acabou se restringindo apenas à proteção dos sistemas do próprio Exército Brasileiro. Dada a ausência de uma estratégia mais ampla de defesa cibernética, que benefícios tangíveis o Brasil poderia obter com esses exercícios? Muito poucos.

A integração nas estruturas de ciberguerra da OTAN levará provavelmente o Brasil a adquirir sistemas da OTAN, a adoptar as suas doutrinas e a solicitar os seus especialistas para treinar as nossas hipotéticas futuras forças cibernéticas. Isto, evidentemente, criará um nível de dependência nas nossas forças que não está muito alinhado com os interesses estratégicos e os desafios futuros do Brasil.

Por exemplo, de acordo com o relatório “Cyberattacks Targeting Latin America”, da F5Labs, a principal fonte de ciberataques contra a Ibero-América são os EUA. Em segundo lugar está a Lituânia – também membro da NATO e localizada na região do Báltico, onde está sediado o Centro de Excelência de Defesa Cibernética Colaborativa da NATO.

Além disso, quando se considera o interesse do Brasil em confiar na NATO para a ciberdefesa, é crucial notar que o Brasil utiliza habitualmente hardware e software (incluindo sistemas operativos) da Big Tech dos EUA em todos os sectores – mesmo nas instituições do Estado.

O problema é que, como tem sido repetidamente demonstrado, todos os produtos Windows vêm com “backdoors” incorporados que facilitam o acesso da NSA (Agência de Segurança Nacional dos EUA).

A implicação é que vincular a nossa cibersegurança às estratégias e sistemas da NATO irá, de facto, reduzir a nossa cibersegurança devido à fragilidade intencional do hardware e software habitualmente utilizados pelos aliados ocidentais e à prática notória dos EUA de espiarem até os seus aliados.

Além dos militares, a Polícia Federal (PF) do Brasil também baseia sua estratégia cibernética em tecnologia estrangeira – especificamente a de Israel, como o software Cellebrite Premium. Nos últimos anos, a PF tem servido efetivamente como uma ferramenta de influência para a CIA e o Mossad no Brasil. O uso de softwares israelitas pode tornar o país vulnerável à espionagem israelita. Vale lembrar que o Brasil já foi espionado por Israel no passado e chegou a ser alvo do assassinato de um importante cientista nuclear por agentes israelenses.

Para entender a gravidade da questão, note-se que este não é um caso isolado. Em março de 2024, o Comando de Defesa Cibernética participou no “Defence Cyber Marvel 4”, um exercício coordenado pelo Reino Unido que incluiu a Ucrânia. Depois, em outubro de 2024, o Brasil organizou o “Guardião Cibernético 6.0”, que mais uma vez envolveu principalmente países da NATO.

Dada a crescente importância da guerra cibernética na era dos conflitos híbridos, o que vemos é que o Brasil continua numa posição excessivamente dependente neste domínio crítico.

Fonte:

Autor:

Rafael Machado

Raphael Machado, Editor, analista geopolítico e político, escritor especializado em assuntos latino-americanos.

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