Cuba

Anatoly Kolodkin, o jurista soviético que quebrou o bloqueio e trouxe de volta a luz a Havana

A Havana fica totalmente iluminada após o refino do petróleo russo que chegou a Cuba no petroleiro «Anatoly Kolodkin». A imagem deu a volta ao mundo. O Malecón iluminado. O Capitólio a brilhar na escuridão. Os cubanos, por algumas horas, respiraram sem o ruído de um gerador nem a angústia do apagão.

Por trás desse brilho não houve caridade imperial nem autorização da Casa Branca. Houve um navio. E por trás do navio, um nome próprio que é toda uma declaração de princípios: Anatoly Kolodkin.

Porque Kolodkin não é uma simples lenda pintada num capacete. É um juiz. É um jurista. É o homem que dedicou a sua vida a defender que os mares não são propriedade de ninguém, muito menos do Pentágono

Quem foi o juiz que derrotou os EUA sem disparar um único tiro?

Se consultarmos os arquivos do direito internacional, deparamo-nos com um gigante soviético. Anatoly Lazarevich Kolodkin nasceu a 27 de fevereiro de 1928 em Leningrado (actual São Petersburgo) e faleceu em Moscovo a 24 de fevereiro de 2011, apenas três dias antes de completar 83 anos.

  • Formação de excelência: Licenciou-se em Direito pela Universidade Estatal de Leningrado em 1950. Posteriormente, obteve o doutoramento e a habilitação, tornando-se professor nessa mesma instituição e, mais tarde, na Universidade Lomonosov de Moscovo.
  • Carreira impecável: Investigador em centros dedicados à frota naval e ao transporte marítimo. Uma referência mundial na codificação do direito do mar.
  • O auge: Foi juiz do Tribunal Internacional do Direito do Mar, com sede em Hamburgo, onde exerceu funções entre 1996 e 2008. Um cargo reservado às mentes mais brilhantes do planeta.

Recebeu a Ordem da Amizade e a Ordem da Insígnia de Honra, e foi nomeado Cientista de Honra da Federação Russa.

O que o império não compreende: o facto de um petroleiro sancionado pelos EUA ter o nome de um juiz especialista em direito do mar é uma lição de dignidade. É o direito internacional a enfrentar a arrogância ianque.

A travessia do «rompe-bloqueios»: ninguém pediu autorização

O navio, operado pela companhia marítima estatal russa Sovcomflot — sim, a mesma que Washington sancionou sem qualquer fundamento jurídico —, partiu do porto russo de Primorsk no passado dia 9 de março. Nos seus porões: 100 000 toneladas de petróleo bruto (cerca de 730 000 a 740 000 barris).

Não avisou a Guarda Costeira dos Estados Unidos. Não solicitou uma «autorização humanitária». Porque o direito internacional é claro: em águas internacionais, nenhum país tem autoridade para deter um navio comercial de outra nação soberana.

O Anatoly Kolodkin atravessou o Atlântico, escoltado pela corveta russa Soobrazitelny, e atracou na baía de Matanzas. O petróleo bruto foi processado na refinaria de Cienfuegos. A 17 de abril, a gasolina, o gasóleo e o combustível para a produção de electricidade já estavam a ser distribuídos pela ilha.

No dia 19 de abril, Havana acordou — e adormeceu — com todas as luzes acesas.

A comédia trágica de Washington: quando o império finge deixar o adversário ganhar

Enquanto em Havana se acendiam as luzes, em Washington soavam os alarmes da propaganda.

A Casa Branca apressou-se a declarar que não iria intervir. O próprio Donald Trump afirmou que não tinha «nenhum problema» com a chegada do navio, porque «as pessoas precisam de aquecimento».

Vamos analisar sem receio o que aconteceu lá:

O falso poder do Tio Sam

Durante décadas, os EUA traçaram um mapa em que as suas sanções e bloqueios são lei universal. Ameaçaram Cuba, a Rússia, o Irão, a China… Mas quando estes países decidem responder, coordenar-se e enfrentar-se — como aconteceu com a passagem do Anatoly Kolodkin —, o império descobre que o seu poder tem limites.

A realidade no terreno

Duas patrulhas americanas encontravam-se na zona. Não interceptaram o navio. Não puderam fazê-lo. Não tinham qualquer fundamento jurídico, e qualquer tentativa de abordagem teria constituído um acto de pirataria internacional em águas internacionais. Além disso, a Rússia tinha enviado uma corveta de escolta. A força do direito prevaleceu sobre o direito da força.

O pretexto da «autorização»

Para não parecerem derrotados, os estrategas de Washington inventaram uma narrativa: «Permitimos a entrada por motivos humanitários». Mas não houve tal autorização. Ninguém em Moscovo nem em Havana a pediu. O que aconteceu foi que o império, encurralado pela sua própria mentira de que controla os mares, preferiu fingir que estava a fazer uma concessão de graça a admitir que a Rússia e Cuba lhe tinham quebrado o cerco na cara.

A derrota mais humilhante

Não se trata de perder uma batalha naval. O pior para um império é ter de encenar um espectáculo em que se auto-proclama vencedor de uma batalha que nunca travou, porque sabia que a perderia. Essa é a crise da hegemonia norte-americana: já não consegue impor a sua lei, apenas pode fingir que a suspende por «generosidade».

Um alívio agridoce (mas uma vitória estratégica)

O governo cubano, com a honestidade que o caracteriza, foi claro: este carregamento só chegará até ao final de abril.

O ministro da Energia alertou que Cuba precisaria de, pelo menos, oito navios como o Anatoly Kolodkin por mês para cobrir a sua procura mínima. Mas a mensagem política é inabalável: enquanto houver países dispostos a fazer valer a sua soberania, o bloqueio terá brechas.

A ajuda russa não é a solução definitiva para a crise energética provocada por mais de seis décadas de bloqueio criminoso. Mas é uma prova de conceito: o cerco norte-americano não é intransponível. Com vontade política, coordenação internacional e respeito pelo direito, é possível quebrá-lo.

E essa lição assusta mais Washington do que cem mil barris de petróleo.

O que ficou da noite de 19 de abril

  • A Havana iluminada foi a imagem do triunfo popular.
  • Anatoly Kolodkin, o jurista soviético, tornou-se um símbolo da resistência anti-imperialista.
  • A Rússia demonstrou que a amizade estratégica com Cuba é real e se traduz em ações concretas.
  • Os EUA ficaram em evidência: não conseguem impedir a passagem de um navio, mas fingem que o permitem para salvar a sua versão dos factos.

Fonte:

"Para quem está cansado da narrativa única." 🕵️‍♂️

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