Argentina: O Congresso acelera a investigação sobre a $LIBRA
A comissão especial foi reactivada com citações de alto impacto político. Alejandro Melik, chefe do Gabinete Anticorrupção, recusou-se a receber a intimação que o obrigava a comparecer. A oposição continuará avançando com questionamentos.
O governo de Javier Milei continua a acumular problemas. À agitação eleitoral do último domingo na província de Buenos Aires e ao escândalo por subornos na Agência Nacional de Deficiência, soma-se agora a reactivação da investigação pelo Criptogate, que tem o presidente e sua irmã como protagonistas. A comissão investigadora, que o governo tentou paralisar, entrou em acção e decidiu avançar com uma medida de alto impacto político: intimar a secretária-geral da Presidência, Karina Milei. As datas propostas para recebê-la são 23 e 30 de setembro. Se ela não comparecer, o órgão poderá recorrer à Justiça para que sua comparência seja imposta pela força pública. O governo continua sem colaborar: os dois funcionários convocados na primeira rodada de depoimentos não compareceram. A oposição alertou que os intimados buscam apoio na Justiça para se eximir de sua obrigação de depor. Alejandro Melik, chefe do Escritório Anticorrupção, recusou-se a receber a intimação que o obrigava a comparecer, e o oficial que foi notificá-lo teve que colar a nota na porta do seu escritório.
Após o não comparecimento dos dois funcionários, a Comissão Investigadora do Criptoescândalo decidiu intimar a irmã do presidente. Uma medida que meses atrás gerou resistência dentro do próprio Congresso entre alguns deputados que alertaram que levá-la a depor poderia ser interpretado como um gesto “destituidor”. Agora, a intimação foi marcada para 23 ou 30 de setembro. Como sinal de boa vontade, os legisladores definiram duas datas possíveis e até contemplaram a alternativa de transferir a comissão para a Casa Rosada para ouvir Karina Milei. Caso ela não compareça, o presidente da comissão, Maximiliano Ferraro, poderá emitir uma nova intimação e, se a ausência se repetir, o órgão estará habilitado a solicitar a assistência da Justiça e garantir a sua comparência pela força pública.
Juan Marino, secretário da comissão, foi o primeiro a reclamar que a intimação fosse marcada com antecedência: “Se ela não puder comparecer nessas duas datas, que nos faça uma contraproposta”, pediu o deputado da União pela Pátria. Por sua vez, Mónica Frade propôs que “as autoridades da comissão se reunissem na Casa Rosada e tomassem o depoimento dela no dia e hora em que ela pudesse”. Visivelmente irritada com as demoras, a deputada Sabrina Selva acrescentou: “Adoraríamos ir buscar com uma viatura a secretária-geral da Presidência para que ela finalmente apareça e dê explicações, mas não é uma faculdade que estamos a arrogar-nos”. E voltou a insistir nas citações a Melik e a María Florencia Zicavo, ex-titular da unidade criada pelo próprio governo para se autoinvestigar, mas que nunca entregou o relatório final, apesar dos pedidos da oposição.
O partido do governo e os seus aliados voltaram a ausentar-se. Nem o PRO nem a UCR participaram. Chamou a atenção a presença da salteña Yolanda Vega, da Innovación Federal, apenas um dia depois de o governador Gustavo Sáenz ter questionado duramente o governo nacional.
Paralelamente, a oposição avançou com um pedido formal ao ministro da Justiça, Mariano Cúneo Libarona, para que instrua os funcionários citados a comparecerem na próxima reunião da comissão. Caso isso não aconteça, os legisladores anteciparam que poderiam recorrer ao mesmo mecanismo previsto para Karina Milei: solicitar o auxílio da força pública.
Karina Milei é acusada de ter coordenado reuniões entre o presidente e os promotores do esquema de criptomoedas. Os deputados suspeitam que ela possa ter recebido dinheiro em troca da publicação do token que seu irmão divulgou em sua conta no X em 14 de fevereiro passado. Após o estouro do escândalo, a irmã do presidente enfrentou denúncias públicas de empresários que a acusaram de cobrar uma “taxa” para facilitar o acesso ao presidente.
Os ausentes
A comissão convocou na primeira rodada Alejandro Melik, titular da OA; María Florencia Zicavo, ex-titular da UTI Libra; Luis Villanueva, ex-subsecretário de Planeamento de Políticas de Transparência da OA; e José Mazzoni, primeiro titular da OA. O único que compareceu foi Villanueva.
Melik recusou-se directamente a receber a notificação que o obrigava a comparecer. O funcionário que levou a notificação acabou colando-a na porta do seu escritório. Diante dessa manobra, a deputada Sabrina Selva revelou que os legisladores estão a avaliar recorrer à Justiça para que sejam dispensados da obrigação de comparecer: “É inaudito que os primeiros funcionários citados e que se recusam a comparecer sejam justamente aqueles que estavam encarregados da investigação do caso LIBRA”, denunciou.
A deputada Julia Estrada explicou a relevância desses funcionários: “Eles definiram uma investigação na qual colocaram o braço direito de Cúneo Libarona à frente da unidade criada por decreto para se autoinvestigar”. Essa unidade, lembrou ela, foi criada em 19 de fevereiro e dissolvida em 5 de junho. “Decidiram absolver o presidente e Sergio Morales e nunca pudemos conhecer as conclusões”, sublinhou.
Tanto Melik como Zicavo enviaram notas ao Congresso para justificar a sua ausência, mas a comissão considerou que ambos os escritos “não reúnem os requisitos legais necessários”. Na sua defesa, Melik alegou que o objectivo da comissão coincide com o do processo penal, o que implicaria “duplicar a investigação”. Ele também sustentou que o regulamento do órgão “excede amplamente as faculdades investigativas previstas constitucionalmente” e que seu papel à frente da OA o obriga a manter uma confidencialidade “que, se violada, poderia gerar responsabilidades penais”.
Os argumentos foram rejeitados pela deputada Frade, que insistiu que “o direito de defesa está garantido” e lembrou que os citados podem comparecer com assistência jurídica. Em seguida, ela criticou duramente Melik: “Ele não deveria permanecer nem mais um minuto no cargo de chefe do Gabinete Anticorrupção enquanto encobre um suposto ato de corrupção”.
O papel da OA e de Milei
O único testemunho que pôde ser ouvido foi o de Luis Francisco Villanueva, ex-subsecretário de Integração e Transparência da OA. Categórico, ele afirmou que “o papel da OA não foi o que deveria ter sido”. Segundo ele, o órgão “não analisou questões que eram muito claras” e “não tomou um único depoimento, quando a OA tem poderes para fazê-lo”.
Villanueva também se referiu à divulgação do contrato da criptofraude pelo presidente. Ele apontou que a mensagem nas redes sociais com a qual Milei anunciou o lançamento da criptomoeda foi “uma acção de promoção, não de divulgação” e alertou que “há provas de uma negociação incompatível com a função pública”. Em seguida, aprofundou: “Ele poderia não ter colocado o link. O problema é que ele tem informações que ninguém mais tinha, e a maneira como ele expressou isso. Se ele não tivesse colocado os dados para fazer o negócio, seria mais defensável”.
José Mazzoni, criador e primeiro titular da OA, não pôde comparecer por motivos de saúde, mas enviou um documento no qual questionava a ação do presidente: “Ele não agiu como pessoa privada, mas como presidente da República, o que o tornou indubitavelmente público e com consequências penais. Não há qualificativo para a confusão entre o público e o privado em quem ocupa a mais alta hierarquia do Estado”.
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