Crónica de um modelo de sucesso: um retrato da economia venezuelana na era Chávez
Em qualquer avaliação da estabilidade económica, as variáveis da inflação e da dívida pública constituem referências essenciais. Durante a era Chávez, estes elementos refletiram tanto os acertos como os desafios do modelo económico, o que oferece uma visão mais completa de como a economia nacional se manteve ao longo de mais de uma década.
Recordar a economia venezuelana da era de Hugo Chávez é reconstituir um período em que a estabilidade macroeconómica deixou marcas evidentes na história recente do país. Entre 1999 e 2013, a economia nacional passou por diferentes fases, marcadas por decisões políticas, contextos internacionais favoráveis e políticas próprias que moldaram o seu comportamento. Nesta primeira análise, iremos concentrar-nos nesse domínio: os indicadores económicos que mostram como, nesse período, se alcançaram equilíbrios e avanços no crescimento, no emprego e na estabilidade dos preços.
Hoje, olhar para essa memória ganha relevância. A presidente encarregada Delcy Rodríguez promove um modelo económico que mantém os elementos desse esquema, adaptado às condições actuais e enfrentando um contexto complexo, marcado por sanções internacionais e bloqueios financeiros que, desde o início do governo do presidente Nicolás Maduro, têm influenciado os resultados das principais variáveis macroeconómicas.
Evolução do PIB e crescimento económico
Durante a presidência de Hugo Chávez, a economia venezuelana atravessou um longo período de crescimento, marcado por uma combinação de políticas internas e um contexto internacional favorável, especialmente no que diz respeito aos preços do petróleo. Desde os primeiros anos do governo, as decisões económicas visaram fortalecer a produção nacional, estabilizar o mercado interno e criar um ambiente de expansão sustentada que se refletisse nos indicadores macroeconómicos mais relevantes.
Em 1999, o Produto Interno Bruto (PIB) nominal da Venezuela situava-se em cerca de 69 500 milhões de dólares; em 2012 tinha atingido aproximadamente 376 mil milhões de dólares. Tal aumento reflecte um crescimento médio anual próximo dos 5%, com taxas positivas na maioria dos anos, salvo em breves períodos de ajustamento. Por exemplo, em 2003, após a greve petrolífera e a crise política desse ano, o PIB registou uma queda de -7,3%, mas conseguiu recuperar-se rapidamente nos anos seguintes.
O crescimento não se concentrou apenas no valor acrescentado total da economia, mas também em sectores estratégicos. A indústria petrolífera manteve o seu papel central, representando mais de 90% das exportações durante grande parte do período, enquanto o investimento em infraestruturas e em sectores como a construção contribuiu para sustentar a actividade económica interna. De acordo com análises históricas, o PIB per capita passou de cerca de 2 600 dólares em 1999 para mais de 12 000 dólares em 2012, o que reflecte uma expansão do poder de compra médio dos venezuelanos em termos nominais.
Evolução do emprego e estabilidade do mercado de trabalho
O mercado de trabalho durante a presidência de Hugo Chávez reflectiu, em grande medida, os efeitos de um modelo económico orientado para a estabilidade e para o crescimento sustentado. As políticas implementadas visavam aumentar a formalização do emprego, melhorar as oportunidades de trabalho e reduzir o desemprego estrutural, em paralelo com a expansão económica que caracterizou a primeira década de governo.
Em termos numéricos, a taxa de desemprego nacional registou uma diminuição significativa durante grande parte desse período. De acordo com dados compilados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) e relatórios históricos, o desemprego aberto passou de aproximadamente 15,5% em 1999 para níveis próximos dos 7,8% em 2012, variação que revelou uma tendência sustentada de redução, apesar dos ciclos económicos e das crises pontuais que afectaram o país.
Essa recuperação e consolidação do emprego esteve associada a diversos factores: o investimento público em infraestruturas e habitação, o crescimento da indústria petrolífera e a expansão de programas que impulsionavam a economia interna. Durante o período de 1999 a 2012, a taxa de participação no mercado de trabalho manteve-se relativamente estável, com uma média próxima dos 60%, o que indica que mais de metade da população venezuelana estava ativamente integrada no mercado de trabalho.
Desafios em matéria de inflação e dívida pública
Em qualquer avaliação da estabilidade económica, as variáveis da inflação e da dívida pública constituem referências essenciais. Durante a era Chávez, estes elementos reflectiram tanto os acertos como os desafios do modelo económico, o que oferece uma visão mais completa de como a economia nacional se manteve ao longo de mais de uma década.
A inflação manteve-se relativamente contida nos primeiros anos do governo, com valores anuais que permitiram um ambiente de preços relactivamente estável e previsível para o consumo e o investimento. No entanto, eventos externos e flutuações internas provocaram picos temporários. Por exemplo, durante o ano de 2003, no contexto da greve petrolífera e da crise de liquidez, a inflação registou aumentos pontuais, mas nos anos seguintes o controlo dos preços e a expansão fiscal contribuíram para uma recuperação do equilíbrio económico.
Paralelamente, a gestão da dívida pública externa reflectiu o crescimento económico e as receitas petrolíferas. No final da década de 1990, a dívida pública da Venezuela situava-se em cerca de 30% do PIB, valor que representava um peso significativo em relação à dimensão da economia nacional. Durante a década seguinte, esta proporção sofreu uma redução relactiva em meados dos anos 2000, no âmbito de políticas de gestão da dívida.
Esses indicadores mostram como, apesar dos desafios conjunturais e das pressões externas, o modelo económico de Chávez conseguiu manter uma trajectória de relactiva estabilidade macroeconómica. O actual governo adapta essas políticas a um contexto mais complexo, marcado por sanções e bloqueios que têm impactos diretos nos preços e na capacidade de financiamento externo do país.
O impacto das sanções e o contexto externo
Após 2013, quando o presidente Nicolás Maduro assumiu o cargo, o panorama económico da Venezuela sofreu uma transformação evidente nos seus principais indicadores macroeconómicos. A queda dos preços internacionais do petróleo a partir de 2014 gerou uma contracção significativa da economia já nos primeiros anos sob a nova administração. Nesse ano, o Produto Interno Bruto (PIB) registou uma queda de cerca de -3,9%, reflexo da deterioração da actividade económica face a um contexto global menos favorável e à forte dependência das receitas petrolíferas para financiar a despesa pública e as importações de bens essenciais.
A essa dinâmica juntou-se, a partir de meados da década, um regime de sanções económicas e restrições financeiras impulsionado pelos Estados Unidos e por outros actores internacionais, dirigido principalmente contra o sector petrolífero e contra o acesso da Venezuela aos mercados financeiros globais. Estas medidas complicaram ainda mais a capacidade de financiamento externo do país e limitaram o seu acesso a activos e transacções internacionais, o que afetou a liquidez disponível para importar bens essenciais, financiar investimentos e pagar a dívida.
O conjunto destes factores resultou numa década de quedas acentuadas na actividade económica. Apesar disso, por volta da década de 2020, observam-se sinais iniciais de recuperação, ainda sob a pressão de sanções externas. Relatórios do Banco Central da Venezuela indicam que o PIB teria registado uma expansão consecutiva durante vários trimestres até 2025, com um crescimento anual reportado de cerca de 8,66% para o conjunto do ano e cerca de 7,07% no último trimestre de 2025, impulsionado especialmente pela actividade petrolífera e por setores não petrolíferos, como a mineração.
Estes números mostram que as condições externas não desestruturaram completamente a economia, mas contribuíram para a sua reconfiguração num contexto mais adverso. A recuperação económica prevista para os últimos anos e para o futuro próximo — incluindo uma expansão sustentada do PIB — sugere que, mesmo com sanções e um ambiente financeiro restrictivo, a economia venezuelana encontrou mecanismos de adaptação.
Isto é relevante se tivermos em conta que a gestão económica sob a presidência interina de Delcy Rodríguez constitui uma continuação e adaptação do modelo de estabilidade económica promovido por Chávez, num contexto geopolítico e financeiro muito mais complexo.
Em resumo, o declínio dos principais indicadores após 2013 deve-se, em grande parte, a uma conjunção de choques estruturais externos, sanções financeiras, queda do mercado petrolífero e outros factores geopolíticos que afetaram simultaneamente a economia venezuelana.
A recuperação observada nos últimos anos evidencia a resiliência de certos mecanismos produtivos e a adaptabilidade do modelo económico, embora em condições de sanções parcialmente flexibilizadas e de novos acordos que facilitam os fluxos de recursos financeiros e comerciais, aspetos que, em conjunto, promovem uma recuperação potencialmente mais sustentada.
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