Artigos de OpiniãoPepe Escobar

Exclusivo: Irão – Paquistão, o que se passa realmente na frente diplomática

O estreito de Bab al-Mandab não está fechado. Está congestionado.

No início desta semana, o ministro do Interior iraniano, Eskandar Momeni, chegou a Islamabad à frente de uma delegação numerosa. Na terça-feira, já se tinha reunido com o primeiro-ministro Shehbaz Sharif, o marechal de campo Asim Munir e o seu homólogo paquistanês, Mohsin Naqvi.

Esta visita esteve longe de ser uma visita de rotina relacionada com a fronteira e a segurança entre dois países vizinhos. O ponto-chave foi a presença do presidente da Companhia Nacional de Petróleo do Irão (NIOC): isso significa que a energia — nomeadamente a possível construção, finalmente, do gasoduto Irão-Paquistão (IP) —, as sanções e o comércio transfronteiriço foram temas cruciais na agenda.

E agora, o ponto decisivo. Momeni trazia uma mensagem especial da liderança iraniana sobre a guerra. Os paquistaneses fizeram questão de afirmar publicamente que a delegação iraniana tinha chegado com «boas notícias».

A questão é saber como é que estas «boas notícias» foram apresentadas.

Antes de Momeni aterrar em Islamabad, os dirigentes do Paquistão — civis e militares — foram informados de que ele trazia consigo uma carta do líder Mojtaba Khamenei.

No entanto, após a sua chegada, Momeni informou os paquistaneses de que não trazia consigo uma carta propriamente dita; mas trouxe uma mensagem de Mojtaba para os dirigentes paquistaneses, que contava com o total apoio do Presidente Pezeshkian e do Ministro dos Negócios Estrangeiros Araghchi.

A mensagem abordou várias questões fundamentais das relações entre o Irão e o Paquistão, bem como a mediação do Paquistão entre Teerão e a presidência de Trump.

De acordo com a mensagem, o Irão estaria disposto a aceitar uma pausa de 10 dias na actual escalada de tensões. Mas, para que isso aconteça, Trump tem de começar a cumprir as suas promessas no momento em que o Irão aceitar a pausa de 10 dias em todos  (itálico meu) os aspetos do Memorando de Entendimento (MoU) de 14 pontos.

Tradução: não haverá novas negociações. Aliás, esta é também a posição da China. O único aspecto que importa é voltar ao Memorando de Entendimento original e cumprir os compromissos nele previstos.

Como era de esperar, Trump rejeitou o conteúdo da mensagem, e o Irão foi informado pelo Paquistão da recusa de Trump em aproveitar a única saída disponível. E isto, segundo os mediadores, depois de o narcisista megalomaníaco ter incomodado Asim Munir com chamadas telefónicas diárias, implorando-lhe que encontrasse precisamente essa saída.

Houve alguma mensagem? E como é que foi transmitida?

Passemos agora aos factores que complicam a situação. Fontes de alto nível em Teerão são categóricas quanto a três pontos.

  1. O líder Mojtaba Khamenei não enviou qualquer mensagem ao Paquistão, nem mantém contacto com ninguém no Paquistão, incluindo Asim Munir.
  2. Se ele tivesse enviado uma mensagem, não o teria feito através de um ministro. Normalmente, isso é feito através do Presidente (Pezeshkian), do presidente do Parlamento (Ghalibaf) ou do secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional (Zolghadr), tal como aconteceu anteriormente com a China e a Rússia.
  3. Esta informação sobre uma pausa de 10 dias, seguida de mais 60 a 90 dias, é falsa e irrealista. O Irão não negocia nem irá negociar esta questão.

Bem, é um facto que o Irão tem muitas estruturas de poder concorrentes a actuar em Teerão. Por isso, podem surgir divergências quanto aos procedimentos, constantemente. E quanto ao que deve ser admitido publicamente. A questão é que os paquistaneses não teriam qualquer incentivo para inventar tais informações, sabendo que seriam imediatamente desmascaradas pelos iranianos.

Devemos analisar os factos. O presidente Pezeshkian deixou publicamente claro, em várias ocasiões, que Mojtaba é a autoridade máxima no Irão; que as principais medidas estão a ser tomadas sob a sua orientação; e que os dirigentes pretendem pôr fim à actual e perigosa situação, «nem guerra nem paz».

Por isso, é plausível considerar que a mensagem tenha vindo do mais alto nível do Estado iraniano e que contasse com a autoridade e a aprovação de Mojtaba. Mas deveria ter permanecido na sombra. O facto de Trump a ter rejeitado torna isso ainda mais plausível.

Mais uma vez: mesmo enquanto o Irão ganha tempo, os seus dirigentes estão também perfeitamente cientes de que o tempo está a esgotar-se para Trump. É consenso em Teerão que o país pode continuar a absorver uma enorme pressão económica e militar, ao mesmo tempo que aumenta o custo global da guerra através do seu controlo do Estreito de Ormuz — e agora com mais um fator a entrar em cena: o bloqueio naval iemenita à Arábia Saudita no Mar Vermelho.

O raciocínio de Teerão é muito claro. Com a escalada em curso,

A pressão político-económica já se está a alastrar como fogo pela Ásia Ocidental, pelas rotas marítimas e pelos mercados energéticos globais.

Assim, a mensagem do Irão a Trump, transmitida indiretamente pelos paquistaneses, continua, na verdade, a ser a mesma: aplicar na íntegra e sem renegociação o Memorando de Entendimento original de 14 pontos; ou preparar-se para uma guerra prolongada e para perturbações contínuas no abastecimento energético e no trânsito marítimo, com consequências devastadoras.

A forma como a mensagem foi transmitida a Trump, através de Islamabad, não é a questão principal. O pormenor mais subtil é que as discussões sobre comércio, oleodutos e fronteiras foram utilizadas como um pretexto diplomático discreto para transmitir as condições de Teerão para pôr fim à guerra.

E o ponto fundamental continua a ser o mesmo: para Teerão – tal como para Pequim –, o memorando de entendimento é o acordo definitivo. Um acordo concluído. Washington tem de o aplicar. Porque não haverá mais nenhuma ronda de negociações.

As consequências de o Irão deter total poder de influência

O drama entre a Arábia Saudita e o Iémen continua em suspenso. Os mediadores paquistaneses são categóricos: Islamabad pediu a Riade que se mantivesse à margem, porque a última coisa de que precisa neste momento é ser forçada a entrar na guerra como participante, e não como mediadora.

Não há nenhuma «instrução» que Sana’a esteja a aguardar para avançar no que diz respeito a Bab al-Mandab. Isso é o típico blá-blá-blá das agências de notícias ocidentais. O que o Ansarallah fez foi contrariar o bloqueio saudita ao Iémen, que já dura há mais de 11 anos. O princípio é «um cerco por um cerco». E este cerco aplica-se apenas à Arábia Saudita. O estreito de Bab al-Mandab só será bloqueado de forma definitiva, para todos, se e quando os EUA atacarem a rede eléctrica e as infraestruturas energéticas do Irão.

Portanto, o Bab al-Mandab não está fechado. Está congestionado.

A realidade estratégica mais ampla é indiscutível. O Irão detém agora um poder de influência total sobre dois dos pontos de estrangulamento energético mais importantes do mundo.

Entretanto, o Irão está a obrigar metodicamente o Império da Pirataria a tornar-se surdo, mudo e cego em toda a região do Golfo Pérsico, destruindo baterias Patriot, instalações de radar, estações de reabastecimento e diversas infraestruturas militares no Kuwait, no Bahrein, na Jordânia, no Catar e em Omã.

O Kuwait está a tentar desesperadamente chegar a um acordo de defesa com o Paquistão, inspirado no modelo já existente com a Arábia Saudita. Tal acordo implicaria, potencialmente, a presença de tropas, aeronaves, drones e meios de defesa aérea paquistaneses, em troca de energia e, claro, de muito dinheiro. A Arábia Saudita está a encorajar o Kuwait a avançar com esta iniciativa.

Há até discussões sérias sobre um quadro mais alargado de defesa mútua entre a Turquia, o Paquistão e a Arábia Saudita. Será uma tarefa sisífica convencer Teerão de que isto não será mais uma manobra contra o Irão.

Ainda assim, a verdade é que uma parte significativa do Golfo Pérsico está a começar a afastar-se da dependência exclusiva em matéria de segurança em relação ao «Império da Pirataria», procurando uma garantia de segurança não americana. O Paquistão encontra-se agora na posição de decidir até onde está disposto a ir, sem sacrificar as boas relações – construídas com grande esforço e encorajadas pela China – com o vizinho Irão.

Pode partilhar esta história nas redes sociais:

Fonte:

"Para quem está cansado da narrativa única." 🕵️‍♂️

A cobertura mediática sobre Cuba e a América Latina é dominada por um só lado. Nós mostramos o outro. Receba análises geopolíticas que fogem do mainstream ocidental.

Não enviamos spam! Leia a nossa política de privacidade para obter mais informações.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *