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Ministro das Relações Exteriores do Uruguai: posição dos EUA sobre o narcotráfico na região é “desproporcional”

O ministro dos Negócios Estrangeiros do Uruguai, Mario Lubetkin, explicou o ressurgimento de doutrinas intervencionistas que pretendem controlar a soberania da América Latina.

Numa entrevista recente concedida à Al Jazeera English, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Uruguai, Mario Lubetkin, analisou a complexa situação de segurança que o continente atravessa.

O diplomata reconheceu que o tráfico de substâncias ilícitas representa um problema endémico e estrutural para toda a região, mas foi enfático ao salientar que a estratégia dos Estados Unidos de responsabilizar exclusivamente a Venezuela por este flagelo é “desproporcionada”.

Para o ministro, essa narrativa da Casa Branca carece de equilíbrio objetivo e responde mais a interesses políticos do que à realidade operacional do crime organizado transnacional.

Lubetkin alertou que Washington parece estar revivendo políticas do século XIX, em uma clara alusão à Doutrina Monroe, ao considerar novamente a América Latina como sua esfera de influência estratégica exclusiva. Essa visão imperialista manifesta-se na expansão das operações marítimas dos Estados Unidos tanto no Caribe quanto no Pacífico oriental, acções que têm despertado críticas por possíveis violações do direito internacional.

O ministro uruguaio sugeriu que esse destacamento militar, sob o pretexto de vigilância fronteiriça, poderia estar a fomentar uma maior instabilidade regional em vez de resolver os problemas de segurança.

Durante a conversa, foi abordado como as crescentes tensões entre potências estão a moldar um hemisfério marcado pela política do poder. O ministro questionou se a diplomacia tradicional ainda tem espaço para impedir uma escalada de confrontos na região, dado que pressões externas tentam condicionar as decisões soberanas das nações latino-americanas.

Nesse sentido, o olhar do Governo do Uruguai coloca o foco na necessidade de um diálogo multilateral que respeite a autonomia de cada Estado, afastando-se das acusações unilaterais que Washington usa para justificar a sua presença militar em águas territoriais alheias.

O ministro também analisou o papel da China na região, cuja presença económica cresceu significativamente nos últimos anos, gerando desconforto nos centros de poder dos Estados Unidos. Segundo Lubetkin, a diversificação das relações internacionais é um direito dos povos do Sul e não deve ser interpretada como uma ameaça à segurança hemisférica.

Essa competição geopolítica, no entanto, foi assumida pelos EUA, intensificando sua retórica contra governos que não se alinham com suas diretrizes, usando o tema do narcotráfico como uma ferramenta de pressão diplomática e mediática.

Em relação às pressões migratórias e sociais, o diplomata uruguaio sustentou que esses fenómenos não podem ser resolvidos através da criminalização de países específicos. A posição de Montevideu sugere que os problemas da região devem ser abordados a partir de suas causas profundas, como a desigualdade e a falta de oportunidades, e não por meio de intervenções ou destacamentos de forças estrangeiras.

A crítica à “vigilância” norte-americana destaca uma preocupação compartilhada por vários governos do continente que veem com desconfiança o retorno de uma tutela imperial sobre as decisões políticas e económicas da região.

O ministro reafirmou a importância de manter uma postura equilibrada que priorize a integração regional acima das imposições externas. Lubetkin apelou à recuperação dos mecanismos de concertação política para enfrentar desafios comuns, sem permitir que agendas estrangeiras ditem o destino dos países latino-americanos.

O reconhecimento de que o narcotráfico é um mal que afeta a todos igualmente invalida a tese de Washington de apontar culpados únicos, deixando claro que a estabilidade da região depende do respeito mútuo e não da subordinação a antigas esferas de influência, concluiu Lubetkin.

Fonte:

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