O acordo entre os EUA e a UE sobre tarifas: vassalagem europeia perante um império decadente
Devemos lutar pela nossa soberania. Por uma Europa que não seja colónia. Por um país que não seja vassalo. Por um futuro em que sejam as classes populares, e não os impérios, que decidam o seu destino. O império quer sair do buraco afundando a Europa na miséria. Não sejamos cúmplices da nossa própria destruição. Vamos acordar. Vamos resistir. Vamos reclamar o que é nosso.
O recente acordo entre os Estados Unidos e a União Europeia sobre tarifas não é um pacto comercial, nem mesmo uma negociação. É uma imposição. Um ultimato disfarçado de tratado, um novo capítulo na longa história de humilhação geopolítica que a Europa vem a sofrer há décadas às mãos do seu suposto “aliado”. Este acordo não nasce do diálogo, nem do equilíbrio de forças, muito menos de uma vontade comum de cooperação. Nasce da chantagem, da fraqueza estrutural da UE e da submissão ideológica das suas elites perante o império norte-americano.
O que Washington exigiu não foi uma troca justa, mas uma rendição. E Bruxelas, como sempre, dobrou o joelho sem sequer fingir resistência. Onde ficou a soberania europeia? Onde está essa UE que se autoproclama potência económica, actor global, defensora do multilateralismo? Agora, quando mais se precisa dela, desmorona-se como um castelo de cartas perante a primeira pressão de Washington. Porque a verdade incómoda é esta: a União Europeia não tem soberania real. É um fantoche. Um aparelho burocrático ao serviço de interesses alheios, concebido para administrar a submissão do continente.
E este acordo é mais uma prova disso. Obriga a Europa a abrir os seus mercados aos hidrocarbonetos norte-americanos — especialmente gás liquefeito — a preços inflacionados, enquanto as nossas indústrias transformadoras se afogam sob o peso da concorrência desleal e da falta de matérias-primas acessíveis. Que benefício obtém a empresa europeia com isso? Nenhum. Pelo contrário: afunda-se. As PME, já abaladas por anos de austeridade, inflação e externalização, verão os seus custos energéticos dispararem, os seus produtos perderem competitividade e os seus trabalhadores perderem os empregos. Enquanto isso, no Texas ou na Pensilvânia, as refinarias norte-americanas aumentam a sua produção, os seus bolsos enchem-se e as suas bolsas de valores disparam.
Este acordo não é comércio. É pilhagem.
É um mecanismo para transferir riqueza europeia para os Estados Unidos, sob o pretexto da “segurança energética” ou da “cooperação estratégica”. Mas não se trata de cooperação: trata-se de extracção. Dinheiro europeu que sai das nossas contas para financiar a recuperação económica norte-americana, empregos que são criados em Ohio e não na Andaluzia, investimentos que são feitos em Houston e não em Hamburgo. Entretanto, aqui, o desemprego aumentará, a indústria será deslocalizada e o cidadão comum pagará a conta: a inflação voltará a subir, como um imposto oculto para os mais pobres, tal como acontecerá com as restantes taxas. Porque quando o custo da energia sobe, quando os produtos manufacturados ficam mais caros, são as classes populares que sofrem. Não os banqueiros de Frankfurt, nem os lobistas de Bruxelas. Nós, que vivemos do salário, que enchemos o carrinho no supermercado, que pagamos a luz todos os meses.
E não nos esqueçamos que este novo golpe surge após anos de autodestruição económica imposta a partir do exterior. As sanções à Rússia, ditadas por Washington e assumidas sem questionar por Bruxelas, já deixaram a sua marca: perda de competitividade industrial, aumento brutal do preço da energia, desaparecimento de empregos em sectores chave como a química, o aço ou a cerâmica. Foram as classes populares europeias que pagaram o preço dessa obediência cega. E agora, com este novo acordo, exige-se que voltem a carregar o fardo: mais inflação, menos indústria, menos futuro.
A metrópole imperial exige vassalagem às suas colónias para retardar a sua queda.
Os Estados Unidos, com o seu défice crescente, a sua dolarização forçada e a sua necessidade de manter o controlo sobre os mercados energéticos e tecnológicos, precisam de sangrar os seus aliados para se manterem à tona. A Europa é, neste esquema, uma periferia útil: um mercado cativo, um escudo militar, um financiador de guerras que não são suas. E, entretanto, o império recompõe-se, reindustrializa-se, protege a sua economia com subsídios massivos — como os da Lei de Redução da Inflação — e vende à Europa os produtos que ela própria já não consegue produzir.
A Europa não sairá do buraco enquanto se submeter à vontade norte-americana. Enquanto continuar a depender do gás do Texas, do trigo de Iowa, do silício do Arizona. Enquanto delegar a sua defesa a uma OTAN que obedece a Washington, enquanto permitir que as suas decisões estratégicas sejam tomadas na Sala Oval e não em Bruxelas, Madrid ou Atenas. Não há saída para o impasse sem soberania. E não há soberania sem ruptura.
E tudo isto para quê? O que ganha a Europa em troca desta humilhação? Muito pouco: a promessa de que os Estados Unidos continuarão a apoiar a Ucrânia na sua guerra. Mas não por razões éticas, nem pela defesa da democracia, como querem fazer-nos acreditar. Não. Fazem-no por negócios. Por dinheiro. Por interesses estratégicos. Trump — sim, o mesmo que prometeu acabar com as guerras infinitas, que falava de “América primeiro” — é hoje um dos principais impulsionadores da prolongação do conflito na Ucrânia. Porquê? Porque há dinheiro na guerra. Muito dinheiro.
Nas terras raras de que a Europa precisa e que os Estados Unidos controlam. Na venda de armamento a Kiev, que enriquece as grandes corporações militares do complexo militar-industrial. Na venda de gás a preços estratosféricos, que transforma a tragédia ucraniana numa mina de ouro para as petrolíferas norte-americanas. A guerra tornou-se um negócio lucrativo, e a Europa é o cliente cativo. Pagamos com os nossos impostos, com a nossa indústria, com a nossa estabilidade, para que o império continue a financiar a sua maquinaria bélica e económica.
Esta mudança de estratégia de Trump não é casual. É cínica, calculada, fria. Ele deixou para trás a sua retórica isolacionista porque descobriu que, em tempos de guerra, há mais benefícios em intervir do que em retirar-se. E a Europa, como sempre, é o banco onde se cobra. Não temos política externa própria, não temos defesa autónoma, não temos voz nem voto. Só temos dívidas, compromissos e submissão.
E o que podemos fazer?
Primeiro, reconhecer a verdade: a UE, tal como está configurada, é um instrumento de dominação, não de libertação. As suas instituições são concebidas para servir os interesses do capital transnacional e o poder imperial dos Estados Unidos. Não é um espaço de soberania, mas de dependência. Os governos europeus deveriam ter a coragem de questionar estes acordos, de se retirar deles, de defender os seus próprios interesses. E se a UE não permitir isso, então devemos considerar até mesmo sair. Porque não há dignidade em continuar sendo uma colónia.
No caso do Estado espanhol, existem ferramentas reais de pressão. Acreditamos realmente que os Estados Unidos não precisam das nossas bases? As de Rota e Morón são estratégicas. São fundamentais para a sua projecção militar no Mediterrâneo, no Médio Oriente, em África, no sul da Europa. É claro que poderíamos — e deveríamos — usar esse peso geopolítico. Poderíamos ameaçar rever a presença militar norte-americana no nosso território. Poderíamos até considerar uma saída condicional da OTAN, não por ingenuidade pacifista, mas como ferramenta de negociação. Porque enquanto continuarmos a mostrar-nos dóceis, enquanto continuarmos a pedir permissão para existir, continuaremos a ser pisados.
Não, não somos fracos. Temos com que negociar. Mas para isso é necessária vontade política. E essa vontade não existe enquanto os governos estiverem ocupados por tecnocratas ao serviço de Bruxelas e Washington. Enquanto continuarem a dar prioridade ao “consenso europeu” sobre o interesse nacional, enquanto preferirem a estabilidade do sistema à justiça social, continuaremos a ser carne de canhão económica.
O acordo EUA-UE sobre tarifas não é mais um golpe duro. É um sintoma. O sintoma de um sistema que funciona contra nós. De uma ordem global que beneficia poucos enquanto empobrece milhões. De uma Europa irrelevante. E se não rompermos com ele, se não construirmos alternativas reais de soberania, de independência energética, de autodefesa, de economia popular, o colapso será inevitável.
Devemos lutar pela nossa soberania. Por uma Europa que não seja colónia. Por um país que não seja vassalo. Por um futuro onde sejam as classes populares, e não os impérios, que decidam o seu destino. O império quer sair do buraco afundando a Europa na miséria. Não sejamos cúmplices da nossa própria destruição. Acordemos. Resistamos. Reivindicemos o que é nosso.
Fonte:
Autor:
Juanlu González
Juanlu González, Colaborador geopolítico de meios de comunicação públicos internacionais de várias ditaduras, países do Eixo do Mal e da Frente de Resistência, bem como de vários sítios de informação alternativa em espanhol em Espanha, no Médio Oriente e na América Latina.

