Artigos de OpiniãoPaulo Da Silva

O Apagão da Distância

Lisboa, 21 de setembro de 2026

Há um apagão que dura 30 horas e deixa uma casa inteira às escuras. E há outro que dura semanas, meses, e deixa uma pessoa inteira às escuras. O primeiro impõe-se pelo bloqueio. O segundo impõe-se pela distância.

Ambos são formas de escuridão. Mas o segundo, ao contrário do primeiro, não se resolve quando a energia volta. Só se resolve quando se volta a Cuba.

O Corpo cá, a mente lá

Desde que regressei, vivo num curto-circuito permanente. O corpo move-se por Lisboa, cumpre rotinas, responde a compromissos. Mas a mente continua sentada à porta de um prédio em Centro Habana, a ouvir uma família a jogar dominó à luz de velas. Continua no Malecón, com uma cerveja na mão, a ver o sol desaparecer no mar. Continua nas ruas escuras que conheço como a palma da mão, a caminhar sem rumo, a ouvir música que sai das janelas.

Não sei se foi o corpo ou a mente que ficou em Cuba. Sei que uma parte de mim não voltou. E sei que é sempre assim — a cada visita, a cada regresso, a cada despedida.

O apagão em Cuba

Em Cuba, o apagão é uma realidade concreta. Vem sem avisar, dura 12, 20, 30, 40 horas. Obriga as casas a acordar a meio da noite quando a energia regressa — para pôr a roupa a lavar, carregar os telemóveis, cozinhar o que o dia não permitiu. Obriga as vizinhas a emprestar o açúcar, a chave, o abraço. Obriga o povo a inventar formas de viver que ninguém devia ter de inventar.

E não é um acidente. Não é uma falha técnica. Não é incompetência. É uma arma. É o bloqueio dos Estados Unidos a fazer o que sempre fez: asfixiar um povo para o obrigar a render-se.

Mas o povo não se rende.

O apagão da distância

Deste lado, há outro apagão. Não há luz que falte — há presença que falta. Falta o abraço do Paquito, a conversa com o vendedor, o riso das vizinhas, a música do rádio a pilhas, o cheiro do mar, o calor das noites sem luz.

A distância é uma forma de escuridão que ninguém vê. Não se mede em horas, mede-se em saudade. E não se resolve com um gerador. Resolve-se com um voo.

A ternura que encurta a distância

Mas há uma forma de iluminar este apagão: as amizades.

Troco palavras com um camarada cubano e, por um instante, a luz acende. Cada mensagem que chega, cada voz que se ouve, cada palavra que atravessa o oceano, é uma forma de estar perto, mesmo estando longe.

As amizades são a ternura que faz a distância parecer mais curta. Não apagam a saudade, mas tornam-na suportável. Não encurtam o oceano, mas fazem com que ele pese menos. Porque há palavras que chegam como um abraço — e há abraços que atravessam o mar sem precisar de barco.

As duas trincheiras

Um dia, um grande amigo cubano disse-me algo que nunca esqueci: “És mais útil em Portugal do que aqui. Aqui somos um povo a defender a Revolução. Em Portugal, lutas contra o bloqueio e denuncias o que nos fazem.”

Não foi um consolo. Foi uma missão.

Há duas trincheiras nesta guerra. A de quem resiste dentro da ilha — a quem tiram a luz, a comida, o medicamento, mas que não se verga. E a de quem denuncia fora dela — que escreve, que entrevista, que organiza, que leva medicamentos, que mostra ao mundo o que o bloqueio faz.

Eu escolhi — ou fui escolhido — para a segunda. E é por isso que voltar não é abandonar. É mudar de trincheira.

A família que não conheço

Tenho saudades de todos os cubanos. Não apenas dos que conheço — do Paquito, das vizinhas, do vendedor do Malecón. Tenho saudades de toda a minha família cubana. A que conheço. E a que nunca conhecerei.

Tenho saudades de estar em Cuba, a lutar com eles contra o bloqueio. Mas o que me toca é estar deste lado, a denunciar o genocídio em câmara lenta. O genocídio silencioso. Aquele que não aparece nas manchetes, mas que se sente na pele de cada cubano que acorda sem luz.

A saudade

A saudade nunca se apaga. Mas também desaparece quando volto a Cuba.

É uma contradição que só quem ama a ilha entende: a saudade não morre — cala-se. Não se cura — adormece. E, no dia em que o avião descola e o Malecón aparece no horizonte, ela simplesmente deixa de ter razão para existir.

Até esse dia, o apagão continua. Mas não é um apagão de luz. É um apagão de distância. E a distância, como tudo o resto, também se vence.

Uma breve dedicatória ao povo cubano

E agora, uma palavra final — não para ti, leitor, mas para eles.

A ti, povo cubano, que acordas às três da manhã quando a luz regressa, para pôr a roupa a lavar, carregar o telemóvel, cozinhar o que o dia não permitiu. Que não te queixas, não te vergas, não te rendes.

A ti, que emprestas o açúcar à vizinha, a chave ao amigo, o abraço a quem precisa — mesmo quando te falta o essencial. Que fazes da escassez uma escola de partilha e da escuridão uma sala de convívio.

A ti, que jogas dominó à luz de velas, que ouves música num rádio a pilhas, que danças na rua como se não faltasse nada. Que transformas a resistência numa forma de viver, e a vida numa forma de resistir.

A ti, que enfrentas o bloqueio mais longo da história — não há 67 dias, não há 67 meses, mas 67 anos — e continuas de pé. Que sabes o que perdeste antes de 1959 e o que conquistaste depois. Que preferes afogar-te com a ilha do que ajoelhar perante o império.

A ti, médico que operas sem luz. Professor que ensinas à luz de uma lanterna. Cientista que crias vacinas com o pouco que há. Trabalhador que te levantas todos os dias para construir o que outros tentam destruir.

A ti, mãe que divides o prato. Pai que inventa soluções. Avó que dança ao som de uma música que se ouve por cá a toda a hora. Criança que aprende, desde cedo, que a dignidade não se negoceia.

A ti, meu irmão Paquito, que me trouxeste uns ténis de Cojímar quando viste que os meus estavam destruídos. Que me chamaste para conversar e carregar o telemóvel. Que me ofereceste um livro e um lugar à tua mesa.

A ti, vendedor do Malecón, que sabes de cor os dias em que não entra um barco com petróleo. Que me guardas uma cerveja e uma conversa. Que me ensinaste mais sobre Cuba do que qualquer livro.

A ti, senhora de 62 anos, que me disseste que preferias afogar-te com a ilha do que ajoelhar. Que me mostraste que a memória é a arma mais poderosa que um povo pode ter.

A ti, família cubana que conheço e a que nunca conhecerei. A que me abraçou e a que me espera. A que me chama irmão sem nunca me ter visto.

A ti, Cuba.

Não é por acaso que voltamos. Não é por acaso que a saudade não se apaga. Não é por acaso que, mesmo longe, continuamos a denunciar o bloqueio, a gritar ao mundo o que te fazem, a levar medicamentos na mala e solidariedade no coração.

É porque tu, povo cubano, és a prova viva de que um povo pode dizer não ao império mais poderoso da história — e continuar de pé.

E enquanto houver um cubano de pé, enquanto houver uma vela acesa num apagão, enquanto houver um abraço partilhado à porta de casa, a Revolução não se apaga.

O apagão da distância pode durar. Mas a luz de Cuba nunca se extingue.

Pátria ou Morte, Venceremos! 🇨🇺✊

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Paulo Da Silva

Um activista português que viu, cheirou e sentiu o bloqueio. Pela soberania de Cuba. Pelo fim do cerco. Pelos milhões que, em silêncio, já decidiram de que lado estão. Porque os princípios, como Fidel ensinou, não se negoceiam.

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