O Presidente Progressista que Aceitou o Rapto: Lula e a Morte da Solidariedade Anti-Imperialista
O Teste de Fogo
Perante o rapto de um presidente soberano rasgam-se as máscaras. Em 3 de Janeiro de 2026, os Estados Unidos sequestraram Nicolás Maduro. Em Fevereiro, Luiz Inácio Lula da Silva declarou que a libertação do presidente sequestrado “não é prioridade”. Entre estes dois momentos, desenha-se um percurso que não é de diplomacia falhada, mas de traição política consumada. É a crónica de como a “esquerda responsável” prefere a ordem imperial à revolução dos povos.

Da Condenação Obrigatória ao Abandono Cínico
Nos dias seguintes ao sequestro, Lula emitiu a condenação protocolar. Era o mínimo para salvar a fachada de líder do Sul Global. Mas a rectórica não se traduziu em acção: não houve convocatória urgente dos BRICS, nem mobilização da UNASUL, nem ultimatos diplomáticos. Foi fogo de vista.
A fase final veio com a declaração de que a libertação de Maduro “não é prioridade”. Este não é um lapso. É a legalização diplomática do crime. É dizer ao império: “Podem ficar com o espólio. Nós adaptamo-nos.” Enquanto Lula se adapta, o povo venezuelano tem uma só prioridade: a libertação do seu presidente. Esta contradição não é um desvio; é a essência de dois projectos políticos incompatíveis.
O Discurso da Ingerência: “Democracia” como Arma Neo-Colonial
Para justificar o abandono, Lula agarrou-se a um mantra: a “democracia venezuelana”. Fala da democracia venezuelana, do processo interno. Mas Lula não é imperador, rei, nem presidente da Venezuela. A sua obsessão com os assuntos internos de um país soberano é a expressão do complexo de dono do subimperialismo brasileiro.
Este discurso opera uma inversão criminosa: foca-se num alegado “déficit democrático” para desviar a atenção do crime real – o sequestro de Estado e o rasgar da Carta da ONU. Transforma a vítima em réu e o agressor em potencial “restaurador da ordem”. É a mesma lógica da CIA, agora falada em português com sotaque de esquerda institucional.
A Raiz da Traição: Lula, o Gerente do Subimperialismo
Este comportamento não é um acidente de percurso. É a conclusão lógica do projecto histórico do PT no poder. O Brasil, desde a sua independência como “assinatura de papéis” entre elites, sempre foi o estaleiro da Doutrina Monroe na América Latina – o sócio menor que gere a estabilidade regional para o capital internacional.
Lula é o ápice desta tradição: o gerente de esquerda perfeito. O seu objectivo nunca foi a revolução, mas a conciliação de classes a nível global. O seu projecto é gerir a integração subordinada do Brasil no capitalismo mundial. Defender Maduro com unhas e dentes, mobilizando os BRICS e enfrentando os EUA, arruinaria essa gestão. Por isso, Maduro foi sacrificado no altar da “responsabilidade” e da “realpolitik”.
A Lição Final: A Frente Única é Contra os que Desertam
O caso Lula-Maduro é um caso de estudo para a esquerda revolucionária mundial. Ele ensina que:
A verdadeira linha de frente não separa a esquerda da direita institucionais. Separa quem aceita a lógica imperial e quem a combate.
A “esquerda responsável” é, na hora da verdade, a ala esquerda do imperialismo. A sua função é administrar o declínio, não liderar a ruptura.
A única solidariedade válida é a incondicional, baseada no princípio intransigente da soberania e da autodeterminação dos povos.
Conclusão: Com a Espada de Bolívar na Mão, Não na Parede
A Venezuela fez a sua revolução com a espada de Bolívar. O Brasil, sob Lula, contenta-se em polir as antigas correntes coloniais. A escolha é clara: entre a coragem revolucionária que desafia o império e o conformismo gestionário que o serve.
Aprendamos com a lição. O próximo alvo do imperialismo só estará seguro se nós, hoje, fizermos da libertação de Maduro a nossa prioridade absoluta. A luta pela Venezuela é a luta pelo mundo multipolar. É a luta pela simples ideia de que um presidente não pode ser raptado.
Quem se cala, consente. E quem consente com o sequestro de um presidente, já escolheu o seu lado na história.
La lucha és una. Asta la victória, siempre.

Paulo Jorge da Silva | Um militante português com o coração dividido entre duas trincheiras. Pela soberania de Cuba, da Venezuela e de todos os povos. Pelo fim do bloqueio. Pela humanidade que resiste.

