Artigos de OpiniãoPaulo Da Silva

Nos Bastidores do Rugido: O IV Encontro Europa por Cuba pelos Olhos de uma Formiga

O Berço da Formiga

Antes do café de Sevilha, antes de qualquer análise, houve um berço. A minha primeira trincheira não foi internacional; foi doméstica. Foi o cheiro a papel de jornal Avante! e a tabaco do meu pai, um comunista que me levava, criança ainda, pelos corredores de reuniões que eu não compreendia, mas cuja seriedade absorvia. Foram as suas mãos que me ergueram para ver, nos meus parcos anos, a maré humana a gritar “25 de Abril Sempre! Fascismo Nunca Mais!” .

A necessidade visceral de justiça, a certeza de que um outro mundo não só é possível como é uma obrigação de luta, não nasceu de livros. Foi plantada pelo comunismo do meu pai e regada pelo amor resistente da minha mãe. Eles são os únicos e verdadeiros responsáveis,  por considerar a solidariedade internacional um dever respiratório e por entender a luta de classes como a única geografia moral que interessa.

Tudo o que se segue — os abraços, os discursos, as estradas — é a continuação desse primeiro e decisivo levantar de voz que me foi legado. Sou, antes de mais, um filho da sua luta. E é a partir desse lugar sagrado que todo o resto faz sentido.

“Cheirava a café, a chuva iminente e a história. Em Sevilha, no fim de Janeiro, o ar condensava-se em conversas em espanhol, português e nas línguas da resistência de uma vintena de países. Era o IV Encontro Europa por Cuba, e eu ai estava, novamente, não para ouvir discursos, mas para me reencontrar com a textura da luta: o abraço apertado de velhos camaradas, a seriedade de uma análise partilhada, o sabor de uma paella em Marinaleda e o frio cortante da chuva numa marcha pela Palestina. Esta é a crónica de como a solidariedade, afinal, tem cheiro, sabor e temperatura.”

A expectativa de voltar a um encontro do Europa por Cuba é sempre grande. O Evento veste-se da sua importância, o encontro da batalha de ideias por Cuba, O reencontrar velhos amigos de luta, conhecer camaradas novos pelo que nos une — que nunca é só Cuba, mas a luta anti-imperialista pela liberdade de todos os povos do mundo. O abraço apertado do José, as primeiras conversas com gente do México, da Bolívia, de tantos cantos, horas antes de começar, já são o combustível. É a confirmação de uma rede viva. E encontrar-me com Carlos Aznárez, alguém que admiro há anos, num café de Sevilha, foi encher a alma antes mesmo da batalha começar.

Sexta-feira: O Palco das Ideias e o Grito Único

O primeiro dia colocou-nos frente a frente com a história viva. Aleida Guevara. Em outros momentos tive a oportunidade de a ouvir em Havana, mas vê-la e ouvi-la no centro do furacão do bloqueio mais desumano é um impacto que nunca se atenua. A sua presença é um testemunho. Ao seu lado, Carlos Aznáres trouxe a análise cortante, o alerta urgente: a necessidade de uma esquerda unida, na Europa e no mundo.

E assim foi. Intervenção após intervenção, o grito era um só: Por Cuba. Pela libertação imediata de Nicolás Maduro e de Cilia Flores. Pela denúncia do ataque terrorista à Venezuela. Estar no meio de gente que antes só se conhecia pelas redes, admirando a sua escrita, e partilhar esse espaço físico, não tem preço. O Europa por Cuba é isso: a solidariedade entre pessoas, associações e partidos feita de carne e voz. Quem não o vê assim, esse tem um problema de quem se acha dono dos outros.

Sábado: A Viagem a Marinaleda, a Utopia que se Toca

Um autocarro cheio, eu a dormir, mas a sorrir por dentro ao ouvir camaradas a cantar. A energia no ar era já a antecipação. Marinaleda não é uma utopia num livro; é a verdade, no meio da Andaluzia, de que o socialismo pode vencer.

O almoço foi uma trincheira de conversa. Ao meu lado, a Cônsul da Venezuela em Bilbau, já uma conhecida de lutas passadas, explicou a nova lei dos hidrocarbonetos, falou de Maduro, de Cilia, de Delcy, e esclareceu o que realmente se passa na nossa querida Venezuela. Era a diplomacia dos povos, o esclarecimento directo contra a mentira mediática.

Depois, o anfiteatro, cheio como um ovo. As palavras sobre o projecto de Marinaleda ecoavam, não como um sonho, mas como um relatório de vitória. A solidariedade ali parecia uma orquestra perfeitamente afinada. São nestes momentos que se percebe: a nossa luta, a luta de classes, faz a diferença. E o carinho das pessoas de Marinaleda — “espero-te aqui”, “liga quando estiveres perto” — é a prova material de que a luta constrói família.

(A grande noite de sexta, com o seu espetáculo de Flamenco, foi o aviso: a solidariedade também nos leva por portas de cultura e amizade que desconhecíamos).

Domingo: De Martí à Palestina, a Chuva que Abençoa a Luta

O último dia não podia ser de despedida, mas de culminância. Em frente ao busto de José Martí, na Plaza de Cuba em Sevilha, cada um de nós prestou a sua homenagem sob uma chuva fina. A coroa de flores, a bandeira do Europa por Cuba… era o reconhecimento colectivo de mais uma etapa.

E a luta não parou. Partimos para uma manifestação pela Palestina. Mal demos o primeiro passo, a primeira gota de chuva caiu. E não parou. Foi um dilúvio que abençoou a marcha. Ninguém se vergou, ninguém abandonou. Entre gritos de guerra e palavras de solidariedade, no final, uma camarada colombiana tomou a palavra e exigiu, com a força de quem sabe o que é a ingerência: “¡Libertad a Nicolás Maduro y a Cilia Flores!”. Aí estava: a luta é uma só. Por Cuba, pela Palestina, pela Venezuela. Pelos povos do mundo.

A Trincheira Mais Íntima: Os Laços que Sustentam a Luta

Nenhuma batalha se trava sozinho. E este encontro encheu-me o coração por me ter permitido estar acompanhado pelos camaradas da minha trincheira mais próxima. A Irene, que foi minha responsável durante anos, e que continua a ser o meu farol de sabedoria e conselho sólido, tanto nos momentos menos bons como nos melhores numa caminhada de anos . O João, seu companheiro, sempre presente com um abraço fraterno e um cigarro para partilhar em longas conversas de luta; um camarada com quem já partilhei dias inesquecíveis em Cuba. E, claro, a minha companheira, o pilar que sustenta toda a estrutura. Mulher de armas, com quem partilho cada derrota e cada vitória nesta longa guerra. Não faço comparações históricas — não sou Raúl e ela não é Vilma —, mas ela é, na sua própria e poderosa singularidade, a força que torna possível estar em todas as outras frentes.

Foi com esta rede a meu lado que tudo ganhou um significado mais profundo. A luta não é um acto abstracto; é isso: o abraço da Irene, o cigarro do João, a mão da minha companheira. É a partir destas trincheiras pessoais, feitas de lealdade e amor revolucionário, que conseguimos erguer a voz no palco do mundo.

Conclusão: Este Encontro Foi o Centro do Mundo Multipolar

Uma vez mais, pela quarta vez, o encontro Europa por Cuba foi, durante três dias, o centro do mundo. O centro do mundo multipolar em construção. À equipa do José e da Patrícia, o meu agradecimento. Será sempre um prazer e um dever estar presente.

Aos que pensam diferente, que ficaram para trás nas suas querelas, fica o registo do que aqui se viveu: a frente ampla, a análise séria, a emoção partilhada e a certeza de que a nossa trincheira é a do mundo que está a nascer.

¡Hasta la victoria siempre!

Da equipa da Cuba Soberana, terão sempre aliados dispostos a ajudar.

Um fraterno abraço, camaradas. A luta continua.

¡Patria o Muerte! ¡Venceremos!

Paulo Jorge da Silva | A voz de uma formiga no palco do mundo. Um comunista português que encontra mais camaradas em Havana do que em Lisboa. Pelo fim do bloqueio, pela vitória dos povos.

"Para quem está cansado da narrativa única." 🕵️‍♂️

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