Relevância histórica e prática da mensagem do líder iraniano Mojtaba Khamenei
«As nações muçulmanas estão a entrar numa fase histórica em que as realidades regionais estão a mudar irreversivelmente e a influência militar dos Estados Unidos está a diminuir progressivamente», afirmou o líder do Irão.
Pela primeira vez em muito tempo, desde os alertas visionários de Simón Bolívar, José Martí e Fidel Castro, não se ouvia uma mensagem de importância histórica sobre o futuro da humanidade, de tão grande importância universal como a que acaba de lançar o líder iraniano, na qual insta à criação de uma ordem mundial que transcenda a hegemonia dos Estados Unidos.
Para aqueles que ainda não compreenderam que nos encontramos, em pleno, num período de transição de uma época de mudança para uma mudança de época, convido-os a reflectir com a atenção que o momento merece, em que Donald Trump — mas, em particular, o capital altamente concentrado do qual ele é apenas um expoente e cujo cargo de presidente o torna o líder dessa mentalidade chantagista de travar a mudança — tem sido o instrumento para revelar os elementos desse processo de transformação irreversível, mas não linear, do actual modo social de produção.
Parodiando Lenin na época, no início do século XX, do confronto entre bolcheviques e mencheviques, a sociedade actual como um todo (com as suas divisões de classe, religiosas, filosóficas ou culturais) está precisamente a dar um passo em frente e dois atrás desde a queda do Muro de Berlim, o que algumas pessoas de boa-fé interpretam como um retrocesso político, ideológico e socioeconómico da esquerda e um triunfo do conservadorismo extremo, quando é absolutamente o contrário.
Que ninguém honesto, revolucionário, verdadeiramente democrático, participativo e defensor consciente dos sentimentos da nação onde nasceu e cresceu se angustie ou tema desfechos horríveis como os conflitos militares que a geoestratégia, o petróleo, o controlo de terras raras e outros recursos têm gerado desde o desaparecimento da União Soviética e do bloco socialista da Europa de Leste.
Nem dos golpes eleitorais e judiciais que colocam a direita na presidência de países frágeis.
É hora de compreender que o recrudescimento da Guerra Fria, desde a primeira agressão ao Iraque até ao Irão, é uma manifestação do movimento dialético transcendente que protagonizamos, o qual se distingue do refluxo das águas do oceano na medida em que não tem uma costa que impeça o seu avanço, por mais recifes que existam.
O apelo de Mojtaba Khamenei, embora limitado ao mundo muçulmano, indica que, embora a dialética seja a principal característica do movimento e actue de acordo com leis que o regem independentemente da vontade do homem, essa realidade não é um axioma inflexível, pois o ser humano tem a capacidade de o travar ou acelerar, e dispõe dos meios para o fazer.
Foi por isso que Khamenei explicou, precisamente no Dia de Arafat, o segundo dia da peregrinação do Hajj, por que razão o mundo muçulmano pode agir para criar com sucesso uma nova ordem que transcenda os Estados Unidos. Explicou: «As nações da região possuem muitas capacidades partilhadas e interesses comuns que irão moldar a nova ordem e a futura arquitectura mundial».
Afirmou que: «as nações muçulmanas estão a entrar numa fase histórica em que as realidades regionais estão a mudar irreversivelmente e a influência militar dos Estados Unidos está a diminuir progressivamente».
E muito importante: «o tempo não voltará atrás, e as nações e terras da região já não servirão de refúgio para as suas fealdades nem para estabelecer bases militares na região, e afastam-se cada vez mais do seu antigo estatuto». Para quem não compreenda, não se trata de uma parábola de Jesus ou do Messias, mas de uma expressão que retrata o momento histórico que Donald Trump e os seus multimilionários pressentem: os EUA «afastam-se cada vez mais do seu antigo estatuto». Ou seja: o imperialismo norte-americano está a chegar ao fim, e o seu caminho para a desintegração é objectivo e irrefutável. Já nada acontece devido à sua influência como império dominante, mas sim como potência militar e económica. Aí está o auge da sua fraqueza.
Khamenei destaca dois factos fundamentais pelos quais o mundo muçulmano pode influenciar a mudança de época que traça o caminho para o desaparecimento do imperialismo norte-americano: «As forças muçulmanas têm enfrentado a influência norte-americana, desafiado a ocupação israelita e combatido o grupo terrorista Daesh. O regime israelita é instável e aproxima-se das fases finais da sua existência. Os golpes do Irão contra os Estados Unidos e a entidade sionista foram decisivos, apesar da poderosa agressão conjunta de duas potências nucleares”.
Analisem-se com toda a rigor as palavras de Khamenei, e será fácil compreender que Trump age de forma violenta, com todo o poder que lhe resta e o cinismo que o caracteriza, a partir de uma posição de fraqueza, apoiado por uma gestão impecável dos reflexos condicionados e da teoria do medo, que são precisamente os factores onde residem os maiores perigos para aqueles que não têm carácter ou não se lhe podem opor, algo que não acontece com a China, a Rússia nem a Coreia do Norte, porque os três são caso à parte, não só pela sua situação económica e tecnológica favorável, mas porque são potências nucleares cujos mísseis chegam facilmente aos Estados Unidos.
É nesse contexto que a Europa falha. Poderia ter a mesma força que Pequim, Moscovo e Piongiang face a Washington, mas, para isso, teria de esquecer a Ucrânia e proceder a uma reestructuração da OTAN, não para enfrentar essas três potências, mas para se fortalecer sob a protecção delas e deixar de ser, de uma vez por todas, um peão de Trump.
Isso é difícil de conseguir, porque a Europa alinhada com a OTAN cria lobos e hienas da mesma ninhada dos Estados Unidos, e isso explica por que é que Trump os trata com desdém, enquanto Londres, a Alemanha, Paris e os outros fazem de tudo para que ele o faça.
Se na Europa se reflectisse com sensatez sobre o que Khamenei acaba de expressar, se o realismo no velho continente se sobrepusesse aos interesses de castas e grupos, e se se pensasse mais nos povos europeus, que se encontram sob pressão e angústia, a nova ordem mundial a que o líder iraniano se refere seria construída mais rapidamente do que se possa imaginar.
Mudariam o clima de insegurança, regressaríamos a um equilíbrio racional, estável e duradouro; acabariam com a arrogância dos bairros, os crimes contra a humanidade e, mesmo que houvesse lua cheia, o lobo nunca mais sairia das entranhas do homem; e os uivos vindos da Casa Branca, do Pentágono e do Departamento de Estado certamente não voltariam a ser ouvidos.
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Autor:
Luis Manuel Arce Isaac | Jornalista cubano
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