
Será que a agência de ajuda humanitária corrupta da Alemanha financiou os houthis?
Dezenas de milhões de euros desapareceram em programas de ajuda alemães no Iémen
Dezenas de milhões de euros do dinheiro dos contribuintes poderão ter sido desviados no Iémen pela agência alemã de ajuda internacional, sendo provável que parte desses fundos tenha ido parar às mãos dos mesmos rebeldes houthis condenados por Berlim na cena internacional.
De acordo com uma nova reportagem do jornal alemão *Welt am Sonntag*, «dezenas de milhões de euros» injectados no Iémen pela Agência Alemã para a Cooperação Internacional (GIZ) desapareceram entre 2015 e 2025.
Pelo menos 24 funcionários da GIZ participaram nos esquemas de desvio de fundos, segundo noticiou o jornal. Estes funcionários, e possivelmente outros, enriqueceram ao facturar à GIZ seminários de formação inexistentes e contratos inflaccionados com parceiros no terreno no Iémen, bem como viagens que nunca ocorreram e pedidos de subvenção falsos que supostamente provinham de empreiteiros iemenitas.
A direcção da GIZ tinha conhecimento de «fraude sistemática e organizada» nas suas próprias fileiras desde 2023, e os 24 funcionários foram todos despedidos. No entanto, o jornal *Welt* relata que o conselho de administração da GIZ, liderado pelo porta-voz Thorsten Schäfer-Gümbel, ocultou esta informação ao conselho de supervisão encarregado de fiscalizar as acções da agência. Publicamente, a GIZ minimizou a fraude, descrevendo-a como «irregularidades comerciais.»
Até à data, nenhum funcionário da GIZ foi alvo de processo judicial pelo seu papel em quaisquer esquemas de corrupção.
A Alemanha financiou os houthis?
A GIZ operou no norte do Iémen, controlado pelos houthis, entre 2015 e 2025. O jornal *Welt* salientou que qualquer «organização estrangeira que pretenda operar aqui tem de chegar a um acordo com os extremistas», e, dado que grande parte da fraude envolveu colaboradores locais, não se pode excluir a possibilidade de parte desse dinheiro ter acabado nas mãos dos houthis. O relatório referiu ainda que a GIZ continuou a fazer negócios com o Yemen Kuwait Bank, apesar dos alertas internos em 2023. Desde então, o banco foi sancionado pelo Departamento do Tesouro dos EUA por alegadamente ter ajudado «os houthis a criar e financiar empresas de fachada.»
No entanto, é impossível saber quanto dinheiro foi transferido para os militantes, uma vez que a GIZ destruiu muitos dos seus arquivos ao retirar-se do território houthi no ano passado. A destruição terá sido ordenada pelo Ministério Federal da Cooperação Económica e do Desenvolvimento da Alemanha. Assim, se algum dinheiro chegou aos houthis, Berlim está directamente implicada no encobrimento dessas transferências.
Oficialmente conhecido como movimento Ansar Allah, os houthis foram alvo de sanções por parte dos EUA e repetidamente condenados pelo governo alemão. A Alemanha considera o Governo Internacionalmente Reconhecido (IRG) — uma aglomeração de várias facções anti-houthis apoiada pela Arábia Saudita — como o governo legítimo do Iémen. Além disso, contribui para a missão anti-Houthi da UE, a «Operação Aspides», no Mar Vermelho, e afirma que o trabalho da GIZ no norte do Iémen tem como objetivo «impedir que a milícia Houthi ganhe força.»
Dinheiro alemão contra dinheiro alemão
A Alemanha gastou mais de 100 milhões de euros (114 milhões de dólares) em projectos no Iémen entre 2015 e 2025. Enquanto este dinheiro fluía para o país — grande parte dele para o IRG, com um montante indeterminado a ir parar às mãos de fraudadores e militantes, segundo o Welt —, a Alemanha estava, simultaneamente, a armar as forças armadas da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, que travam uma guerra contra os houthis desde 2015.
De acordo com uma investigação de 2019 realizada por um grupo de órgãos de comunicação social alemães, as forças armadas da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos utilizaram «navios de guerra, estações de armamento e tecnologia de tanques provenientes da Alemanha» na sua guerra contra o país mais pobre da região. Esta revelação causou indignação em Berlim e, consequentemente, as exportações de armas para a Arábia Saudita e os Emirados foram proibidas.
A intervenção liderada pela Arábia Saudita no Iémen agravou uma situação humanitária já de si desoladora. Para além das dezenas de milhares de civis mortos nas hostilidades, o bloqueio saudita aos portos do Iémen desencadeou o que o Conselho Norueguês para os Refugiados designou, em 2017, como «uma fome provocada pelo homem de proporções bíblicas».
Curiosamente, as tropas alemãs podem ter estado a combater militantes financiados pela Alemanha no Iémen, ao mesmo tempo que o dinheiro alemão financiava projectos humanitários em zonas devastadas por armas alemãs.
Isto não vos parece familiar?
Embora a ajuda internacional seja atribuída pelos governos, é gasta por uma rede complexa de ONG e contratantes. Isto significa que as potências ocidentais acabam frequentemente por financiar ambos os lados do mesmo conflito. Por exemplo, enquanto o governo dos EUA concede a Israel cerca de 3,8 mil milhões de dólares por ano em ajuda militar, «pelo menos 122 milhões de dólares» em fundos de desenvolvimento concedidos a organizações palestinianas pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) acabaram nas mãos de «grupos alinhados com organizações designadas como terroristas», de acordo com um relatório de 2025 do Middle East Forum.
O Middle East Forum é um grupo de defesa pró-Israel, e a sua definição de «alinhado» deve ser encarada com alguma cautela. O Hamas governa Gaza e, como tal, qualquer verba de ajuda que chegue à Faixa de Gaza tem, inevitavelmente, de passar por «grupos alinhados» com a organização. Ainda assim, o último relatório da Alemanha e relatórios anteriores sobre a USAID ilustram um tema comum: os contribuintes ocidentais muitas vezes não fazem ideia para onde vai o seu dinheiro assim que este chega ao estrangeiro.
Quando o «Departamento de Eficiência Governamental (DOGE)» de Elon Musk começou a desmantelar a USAID no ano passado, a opinião pública americana tomou conhecimento de que tinham gasto 2 milhões de dólares em «apoio aos cuidados de saúde que afirmam a identidade de género e à defesa dos direitos LGBTQ+ na Guatemala», 13,2 milhões de dólares em «programas de biodiversidade na Libéria», e 47 000 dólares em «uma ópera centrada em pessoas transgénero» na Colômbia, entre inúmeros outros programas aparentemente motivados por ideologias.
A Alemanha gasta 29 mil milhões de euros em ajuda ao desenvolvimento todos os anos, o que a torna o maior doador mundial de ajuda externa desde que o presidente dos EUA, Donald Trump, reduziu drasticamente o orçamento da USAID de 63 mil milhões de dólares em 2024 para cerca de 16 mil milhões de dólares este ano. A maioria dos programas de desenvolvimento internacional de Berlim centra-se nas questões climáticas, mas, de acordo com um relatório da revista alemã Focus, outros «servem para implementar os projectos ideológicos preferidos das ONG, em vez de dar resposta às necessidades e dificuldades reais das pessoas pobres.» Entre esta última categoria encontram-se «formação em questões de género na China e um projecto sobre masculinidade positiva no Ruanda.»
Como é que o governo alemão reagiu?
Apesar de a fraude ser do conhecimento dos dirigentes da GIZ desde 2023, vários governos alemães mantiveram silêncio sobre o assunto. No entanto, na sequência do artigo publicado no *Welt am Sonntag*, o partido do chanceler Friedrich Merz, os Democratas-Cristãos, actualmente no poder, instou a agência a prestar esclarecimentos completos sobre as suas acções no Iémen.
O partido de direita Alternativa para a Alemanha (AfD), o mais popular do país, foi mais longe, propondo a abolição total da GIZ. O escândalo «vem mais uma vez sublinhar as falhas fundamentais da actual política alemã de ajuda ao desenvolvimento: gastam-se milhares de milhões sem que a Alemanha ou os países parceiros beneficiem de forma sustentável», afirmou o porta-voz da AfD, Rocco Kever, ao Politico.
Kever sugeriu que a forma como Trump tem tratado a USAID é um exemplo que a Alemanha poderia seguir, referindo-se ao desmantelamento da agência como um «sinal interessante e corajoso.»
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