Venezuela

Solidariedade perante a catástrofe: análise psicológica da resposta social após os sismos na Venezuela

Segundo a psicóloga Isaliv Matheus, no meio da tragédia, o povo venezuelano voltou a demonstrar as características que definem o seu povo: a solidariedade, a empatia e a ajuda ao próximo.

A psicóloga e professora da Universidade Central da Venezuela (UCV), Isaliv Matheus, analisou o cenário emocional complexo que a sociedade venezuelana atravessa após os devastadores terramotos de magnitude 7,2 e 7,5 registados na passada quarta-feira, 24 de junho. A especialista classificou a situação actual como um processo «catastrófico» e alertou que é perfeitamente normal que a população se sinta abalada, magoada, assustada e ansiosa perante um cenário desta magnitude.

Durante uma entrevista à teleSUR, Matheus salientou que, no meio da tragédia, o povo venezuelano, juntamente com organizações públicas e privadas, voltou a demonstrar as características fundamentais do seu povo: a solidariedade, a empatia e a necessidade de apoiar o próximo. Afirmou que a saída em massa dos cidadãos para as ruas para colaborar de forma espontânea — levando água, café ou preparando comida — é um sinal evidente da vitalidade e da saúde do povo.

Explicou que, face ao medo colectivo, que costuma gerar paralisia, fuga ou enfrentamento, a história da Venezuela demonstra uma tendência para o enfrentamento e o combate activo às dificuldades, o que, nesta ocasião, foi complementado com a devida organização «tanto no território como a nível governamental e a nível das instituições privadas».

Ao abordar a situação dos cidadãos que se encontram em acampamentos temporários, onde enfrentam a perda de privacidade e autonomia, a especialista salientou que a recomendação fundamental é permitir que sejam agentes activos dos seus próprios cuidados. Matheus referiu que é um erro comum tentar sobreproteger as pessoas em situação de vulnerabilidade, uma vez que os afectados precisam de ser protagonistas da sua realidade.

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Por isso, apelou a que os integrassem nos processos de logística e organização dos acampamentos, reforçando constantemente a ideia de que se trata de uma situação transitória e mantendo a confiança nas instituições de socorro que têm dado prioridade à salvação de vidas humanas em detrimento dos bens materiais.

Além disso, quando questionada sobre como apoiar quem está a passar por um luto devido à perda de entes queridos ou do seu património material, a psicóloga concordou com o risco de invalidar as emoções com frases que minimizam o impacto da perda de uma habitação.

Face à ideia de que os lares representam anos de esforço, a especialista recomendou evitar comentários que pretendam substituir a dor e, em vez disso, recomendou praticar uma escuta empática e um acompanhamento genuíno que permita a expressão do choro e do sofrimento sem angústia. Defendeu que está comprovado que a dor partilhada é processada e gerida de forma mais natural, gerando uma menor carga de angústia posterior.

Por fim, com vista ao futuro e face ao longo caminho de reconstrução que o país tem pela frente, a professora Matheus apelou à gestão das energias e ao auto-cuidado. Afirmou que a fase crítica e aguda da catástrofe ainda se mantém, pelo que é vital que as pessoas se permitam sentir e partilhar os seus medos e incertezas com as suas famílias.

Concluiu recomendando paciência, a manutenção de uma coordenação organizada com os organismos responsáveis e o apoio nas áreas em que cada um se sinta capacitado, preparando-se para o processo subsequente de reavaliar, reorganizar e reconstruir a realidade nacional.

Perante a adversidade, os venezuelanos organizam-se e apoiam-se uns aos outros. Fotos: EFE

Os movimentos sísmicos no território venezuelano ocorreram a uma profundidade de 13,2 quilómetros, gerando uma força destrutiva sobre Caracas, a capital da Venezuela, e o estado de La Guaira, o mais afectado pelos fenómenos geológicos. Além disso, registaram-se danos em Miranda, Carabobo e outras regiões do país.

Sete dias após a ocorrência do duplo sismo, registam-se, até ao momento, 1 943 mortos e 10 571 feridos, segundo informou esta terça-feira, 30 de junho, o presidente da Assembleia Nacional,  Jorge Rodríguez, que informou que conseguiram resgatar 6.461 pessoas desde o dia da tragédia.

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