Artigos de OpiniãoPaulo Da SilvaVenezuela

Venezuela 2026: O Dia em que o Imperialismo Rasgou a Carta da ONU

A Madrugada que Confirmou os Piores Presságios

Madrugada de Sábado 3 de Janeiro em Portugal,  as primeiras notícias caíram como bombas sobre os ecrãs. Para muitos, foi um choque. Para quem, como eu, teve o privilégio e a responsabilidade de ser alertado e preparado em encontros de solidariedade em Cuba, foi a confirmação trágica de um cenário há muito temido: a guerra híbrida escalou para uma agressão militar directa. Os EUA, sob a administração Trump, sequestraram não apenas um presidente, Nicolás Maduro, mas a própria soberania de uma nação e os últimos frágeis fios da ordem internacional.

Um Padrão, Não um Incidente: Da Palestina à Venezuela

Este acto vil e traiçoeiro não é um incidente isolado. É a mesma lógica colonial e genocida que o mundo assiste, impávido e sereno, na Palestina. É o mesmo desprezo pela soberania, a mesma desumanização do ‘inimigo’, a mesma impunidade garantida pela cumplicidade dos poderosos. Se a Europa e os seus organismos nada fizeram perante o massacre em Gaza, por que agiriam perante Caracas? O silêncio de hoje perante a Venezuela é a moeda de troca pela subordinação de ontem à agenda imperial.

A Hipocrisia Selectiva do Ocidente: Soberania só para Alguns

A reacção do governo português, países membros da NATO e da UE ao ataque à Venezuela desmascara a farsa moral em que se baseia a sua ordem internacional. Estes mesmos governos que, com justa razão no seu enquadramento, condenaram veementemente a Operação Militar Especial russa na Ucrânia como uma violação da soberania, festejam hoje ou silenciam-se cúmplices perante o bombardeamento e o sequestro do presidente de um país soberano na América Latina.

Esta duplicidade não é um acaso. Revela que a suposta defesa dos ‘valores’ e da ‘lei internacional’ é, na verdade, uma defesa da hierarquia imperial. A soberania é um direito reservado aos países que se alinham com Washington e Bruxelas. Para os outros — para os que, como a Venezuela, ousam ser independentes e gerir os seus próprios recursos —, a soberania é um conceito a ser violado por bombas e comandos especiais. O que é mais revelador — e mais triste — é ver como esta lógica dupla foi internalizada por uma parte significativa da população. Muitos dos mesmos cidadãos portugueses e europeus que, com genuína solidariedade, hastearam a bandeira da Ucrânia, riem hoje do sequestro de Maduro ou acham-no justo. Esta é a verdadeira decadência moral e intelectual do ocidente: a crença inconsciente numa superioridade civilizacional que legitima a violência contra alguns povos, enquanto a condena para outros. A sua luta não é contra ‘quem invade’, mas contra quem não se submete.

O Precedente Global: Amanhã Pode Ser Qualquer País

Ao rasgar a Carta das Nações Unidas, os EUA não declararam guerra apenas à Venezuela. Proclamaram uma nova e aterradora norma: a lei internacional só se aplica aos fracos. O sequestro de Maduro é um sinal de fumo para todos os presidentes e movimentos que ousem desafiar o domínio de Washington: “Amanhã, podes ser tú.” Isto não é política externa; é a lei da selva elevada a doutrina de Estado. Durante os ataques, foram atingidos alvos civis. Para o ocidente colectivo, talvez isto não seja terrorismo de estado, mas sim “mortes necessárias” para impor a sua democracia.

Durante meses, a justificação para a guerra híbrida e a pressão máxima contra a Venezuela foi o combate ao narcotráfico, com Donald Trump a acusar publicamente Nicolás Maduro de liderar o ‘Cartel de los Soles’. No entanto, a máscara caiu por completo neste sábado de agressão. Nas suas declarações após o ataque, Trump deixou claro que o alvo nunca foram as drogas, mas sim o petróleo. Ao anunciar que os EUA iriam ‘controlar o petróleo da Venezuela’ e ‘controlar a Venezuela’, o presidente norte-americano despiu a agressão de qualquer pretensão legal ou moral, revelando-a pelo que sempre foi: um acto de pirataria e rapina do século XXI. A pergunta que fica não é se Trump se declarará ‘imperador’ — é que ele já agiu como tal, sequestrando um presidente e reivindicando a posse dos recursos de um país soberano como se fossem um espólio de guerra.

A Resposta: Legitimidade Contra a Força Bruta

Enquanto o mundo se mobiliza nas ruas, a própria Venezuela dá uma resposta institucional esmagadora à agressão. Perante a ausência forçada e material do Presidente Nicolás Maduro, o Supremo Tribunal da Venezuela, à luz da Constituição da  República Bolivariana da Venezuela, declarou a Vice-Presidente Delcy Rodríguez como Presidente interina da República. Este acto não é um simples protocolo; é um golpe de legitimidade contra a ilegalidade do sequestro. Demonstra que, por mais que o imperialismo tente decapitar a liderança, a cadeia de comando constitucional e a soberania do Estado venezuelano permanecem intactas e em funcionamento. Enquanto Trump tenta exibir um prisioneiro, a Venezuela apresenta ao mundo uma Presidente legítima, no comando da resistência nacional. É a Constituição contra a pirataria, a lei contra o caos.

A Resposta Global vs. a Paralisia Local: O Julgamento do Mundo

É de saudar a pronta e massiva solidariedade que brotou no mesmo dia, das ruas de Caracas, da Cidade do México, Paris, Istambul, Munique, de Nova Iorque, de Barcelona, Valência, de Atenas, entre tantas outras cidades do Mundo. Vi o povo cubano juntar-se aos milhares na Tribuna Anti-imperialista em Havana. Esta é a verdadeira internacional dos povos em acção.

É essa mobilização espontânea que envergonha a desmobilização calculista e tardia de sectores da esquerda institucional em países como Portugal. Este descompasso é humilhante. Enquanto escrevo, recebo informações de que manifestações de solidariedade estão marcadas para hoje, Domingo, em várias capitais do mundo. E a pergunta queima: porque é que em Portugal a convocatória é apenas para Segunda-feira? Que mensagem passa esta demora? Que a solidariedade com um povo bombardeado e um presidente sequestrado pode esperar pelo fim-de-semana e pelo arranque da semana laboral? É esta a normalização da agressãoOntem já era tarde. Hoje é tarde demais. Segunda-feira é uma capitulação ao ritmo do agressor.

A verdadeira resposta ao crime não virá dos gabinetes da UE. Virá da firmeza do povo venezuelano, da resposta estratégica de outras nações, e da solidariedade transnacional que vemos nas ruas. O verdadeiro julgamento histórico está a ser escrito agora.

A luta continua. A nossa memória e a nossa voz são parte dela.

¡Patria o Muerte! ¡Venceremos!

Um militante português em solidariedade com a Venezuela Soberana.

A Dignidade que as Algemas não Podem Prender

"As palavras podem descrever, mas apenas as imagens podem provar a serenidade desafiadora de um líder sob sequestro. O vídeo abaixo, que circula nas redes, mostra o Presidente Nicolás Maduro, algemado e escoltado por agentes da DEA, a desejar 'Feliz Ano Novo' aos que o capturaram. É o retrato vivo do homem que o imperialismo não conseguiu quebrar."

"Para quem está cansado da narrativa única." 🕵️‍♂️

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