Venezuela presta homenagem a Alí Primera com a tradicional Marcha dos Cravos
Quarenta e um anos após a morte do cantor e compositor venezuelano, artistas, escritores, promotores sociais e outros cidadãos reafirmam o compromisso de Alí Primera com as lutas sociais e o seu trabalho de denúncia contra as injustiças.
Nesta segunda-feira, 16 de fevereiro, em Caracas, capital venezuelana, e em outros estados do país sul-americano, realizou-se a tradicional Marcha dos Cravos, uma mobilização cultural que presta homenagem ao cantor, compositor, músico, poeta e ativista político venezuelano Alí Primera, após 41 anos da sua morte.
A actividade, organizada pela Companhia Nacional de Música e Missão Cultura sob a coordenação do Ministério do Poder Popular para a Cultura, reuniu cidadãos e diversos movimentos sociais para homenagear a memória do «Cantor do Povo», conhecido assim por seu compromisso com causas justas.
O dia na capital teve o seu ponto de encontro às 10h da manhã na Casa da Liberdade e Cultura Alí Primera, localizada no Quartel San Carlos. A partir deste local histórico, os participantes iniciaram um percurso pelo centro da cidade com destino à Plaza Bolívar, numa caminhada definida pelos organizadores como um ato de amor e esperança que busca manter viva a mensagem social do cantor e compositor.


A obra de Alí Primera continua a ser um pilar fundamental da cultura venezuelana. Fotos: teleSUR.
A homenagem é marcada pelo envio de cravos vermelhos e pela interpretação colectiva de temas emblemáticos como Techos de cartón, Tin Marín, La Patria es el Hombre e Los que mueren por la vida. Através destas letras, cultores, escritores, artistas, promotores culturais e outros participantes reafirmam o compromisso de Primera com as lutas sociais e o seu trabalho de denúncia contra as injustiças, elementos que definiram a sua trajectória profissional.
Os organizadores destacam que a obra do compositor continua a ser um pilar fundamental da cultura venezuelana, unindo diferentes gerações sob o canto do seu legado revolucionário.
Ely Rafael Primera Rossell, nascido em Coro (estado de Falcón) em 31 de outubro de 1941, foi apelidado por seus familiares de «Alí» devido à origem árabe de seus avós. Apesar de ter perdido acidentalmente o seu pai, Antonio Primera, quando tinha apenas três anos, Alí construiu um caminho de resiliência ao lado da sua mãe, Carmen Adela Rossell.
Das salas de aula à «Canção Necessária»
Em 1960, a sua chegada a Caracas marcou o início da sua formação académica e política. Depois de se formar no Liceo Caracas, ingressou em 1964 na Universidade Central da Venezuela (UCV) para estudar Química. Foi nos corredores da universidade que a sua voz começou a ressoar, transformando o que começou como um passatempo na sua missão de vida. Temas como «Humanidade» e «Não basta rezar» tornaram-se os seus primeiros hinos de protesto.
A sua formação continuou na Europa entre 1969 e 1973, onde estudou Tecnologia do Petróleo graças a uma bolsa do Partido Comunista da Venezuela (PCV). No entanto, ao regressar à Venezuela, o seu diploma profissional ficou em segundo plano: a sua verdadeira vocação era a música e a militância política.
A discografia de Alí Primera tornou-o uma referência da «Canção Necessária» latino-americana. Com 18 álbuns, entre os quais se destacam Abrebrecha, La patria es el hombre e Entre la rabia y la ternura, consolidou um estilo que misturava poesia com denúncia social.
Primeira participou em vários festivais musicais na América Latina e apresentou-se várias vezes no Aula Magna da UCV; mas também levou a sua mensagem para onde estava a luta: fábricas, liceus, sindicatos e bairros populares. Politicamente, após sua passagem pelo PCV, apoiou a causa de José Vicente Rangel no partido Movimento ao Socialismo (MAS) durante a campanha de 1973.
Partida e transcendência
Em 16 de fevereiro de 1985, um acidente de carro na Autoestrada Valle-Coche, em Caracas, tirou a sua vida após um dia de gravações. No entanto, sua morte não silenciou sua obra. Décadas após sua partida, as letras de Alí Primera continuam lembrando que suas canções não eram apenas música, mas o reflexo dos sentimentos e das esperanças da maioria da população da América Latina.
Precisamente para continuar a honrá-lo, no domingo, 22 de fevereiro, o estado de Falcón será palco da Marcha dos Cravos Vermelhos. Esta mobilização em Punto Fijo partirá às 10h da Casa Museu Alí Primera, em Paraguaná, seguindo a rota histórica até o Cemitério de Santa Elena. A homenagem, onde repousam os seus restos mortais, busca reafirmar o seu legado como guia da pátria.
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