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Famílias brasileiras ocupam terreno da fracassada “Cidade da Copa” em Pernambuco

“Esta zona próxima à Arena tornou-se um cemitério de edifícios. É mais do que justo que o Estado transforme este terreno num local que ofereça refúgio”, afirmou a deputada estadual Rosa Amorim.

Cerca de 200 famílias ocuparam um terreno público estadual próximo ao estádio Arena Pernambuco, em São Lourenço da Mata, Brasil, para exigir moradia digna diante da iminente temporada de chuvas. Esta a,cção, organizada por movimentos sociais, destaca a «Cidade da Copa«em Pernambuco e o abandono de projectos como a «Cidade da Copa«.

O terreno está localizado às margens da rodovia PE-408, no município de São Lourenço da Mata, região metropolitana de Recife. Pertence ao Estado de Pernambuco e fazia parte do projecto «Cidade da Copa», anunciado em 2009 pelo então governador Eduardo Campos, com a primeira fase prevista para 2014 e conclusão em 2025, que nunca se concretizou.

As famílias, na sua maioria mulheres com crianças, são provenientes de bairros periféricos de São Lourenço da Mata, Camaragibe, Jaboatão dos Guararapes e Recife, são beneficiárias do programa Bolsa Família e vivem como hóspedes ou pagam alugueres excessivos em zonas vulneráveis a deslizamentos e inundações.

Muitas dessas famílias foram afectadas pelas chuvas de 2022, que causaram mais de 100 mortes na região metropolitana e deslocamentos em massa, sem inclusão em projetos habitacionais, segundo Adalberto da Silva, líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).​

A ocupação, no acampamento, é denominada Ocupação Gildo Guerra, em homenagem a um líder sem terra falecido em 2025, e é coordenada pelo MST, pelo Movimento de Luta Popular (MLP) e pelo Movimento Urbano dos Trabalhadores Rurais Sem Teto (MUST).

Enquanto isso, Maria do Carmo, ativista do MLP, explicou: “Elas não têm onde ficar, algumas vivem na margem do rio. Queremos chamar a atenção do prefeito Vinícius Labanca (PSB), da governadora Raquel Lyra (PSD) e do Ministério Público”, acrescentou ela. “E este espaço estava abandonado, era usado para desmontar carros [roubados], mas nem o prefeito nem o governador estão a fazer nada”.

Por sua vez, Da Silva registou 1.600 famílias em situação semelhante em São Lourenço da Mata, criticando a ausência de um Departamento de Habitação municipal e a falta de implementação do programa «Minha Casa Minha Vida». «Vinícius Labanca nunca construiu uma casa, nem mesmo um banheiro para a população», afirmou.

Os líderes procuram iniciar um diálogo com as autoridades para resolver o défice habitacional de 152 000 unidades em Pernambuco, segundo da Silva, embora dados da Fundação João Pinheiro indiquem 221.000 habitações no início de 2023 (6,7% das famílias). «Viemos com a intenção de pressionar o governo de Pernambuco. Queremos negociar. Caso contrário, teremos que ocupar mais áreas urbanas”, declarou Adalberto.

A região metropolitana de Recife concentra 44% da demanda, com 97.000 habitações deficitárias, 90% delas em áreas urbanas. A nível nacional, o Brasil tem um déficit de 6,2 milhões de habitações (8,3% das famílias), devido à coabitação, precariedade e falta de moradia, de acordo com um estudo de 2022 publicado em 2025.

Anunciado em 2009 após a escolha de Pernambuco como sede da Copa do Mundo de 2014, o projecto previa 7.000 moradias, escolas, universidade, hotéis e muito mais em 240 hectares, com um investimento de R$ 2 bilões (R$ 4,92 biliões ajustados).

A construtora Odebrecht (agora Novonor), vencedora da licitação, abandonou o projecto por «inviabilidade económica», deixando apenas o estádio, administrado pelo Estado após a Operação Lava Jato. A área tornou-se uma «cidade fantasma», usada para desmontar carros roubados, segundo líderes.

A deputada estadual Rosa Amorim (PT), ligada ao MST, visitou a ocupação no primeiro dia: “Esta zona próxima à Arena tornou-se um cemitério de prédios. É mais do que justo que o Estado transforme este terreno em um local que ofereça abrigo”.

Arena Pernambuco. Foto @ge_pernambuco

Em 5 de março de 2026, veículos policiais bloquearam os acessos, impedindo o regresso dos ocupantes. «Deixaram-nos sair, mas não nos deixaram voltar. Não aceitamos que a polícia tente incriminar e reprimir», protestou da Silva.

A chegada de Amorim dissipou as tensões; ela dialogou com os polícias: «Aqui não há criminosos, apenas pessoas que lutam para viver com dignidade». As famílias cantaram: «Queremos casa e pão, a polícia é para os ladrões». Amorim solicitou a cooperação policial para evitar conflitos, destacando a presença de crianças, e recebeu uma resposta positiva.

Um estudo da Fundação João Pinheiro, em colaboração com o Ministério das Cidades, revelou que o Brasil regista um déficit de 6,2 milhões de habitações, o equivalente a 8,3% dos quase 80 milhões de famílias brasileiras. A pesquisa, desenvolvida em 2022 e publicada em 2025 sob o título “Déficit de Moradia no Brasil”, precisa que o número resulta da soma de 3,24 milhões de famílias sem teto, 1,68 milhão em moradias precárias e 1,29 milhão que compartilham moradia. O relatório indica que os altos custos de aluguer constituem o principal obstáculo para o acesso a uma moradia digna no país.

No estado de Pernambuco, o déficit habitacional atingiu, no início de 2023, 221 mil moradias, o que representa 6,7% das famílias. Dessas, 143 mil correspondem a pessoas sem-teto, 50 mil a moradias compartilhadas e 26,5 mil a moradias precárias. A região metropolitana do Recife concentra 44% da demanda, com um déficit de 97.000 moradias, o equivalente a 6,8% das famílias, das quais 72.000 são pessoas sem teto.

90% do défice pernambucano é urbano; os altos custos de aluguer são o principal obstáculo nacional. Pernambuco enfrenta um défice de 326 mil unidades, de acordo com dados recentes do governo estadual. O estudo alerta que a situação em Pernambuco reflete a pressão urbana e a necessidade de políticas públicas que garantam o acesso à moradia adequada.

A Arena Pernambuco, inaugurada em 2013 por R$ 479 milhões, gera prejuízos anuais de R$ 5,6 milhões para o Estado. O projecto «Cidade da Copa» prometia desenvolvimento económico, mas frustrou as expectativas locais, deixando mato e entulho na área circundante.

Ocupações semelhantes em Pernambuco, como 10 novas em 2025 pelo MST, buscam lutar por moradia digna em áreas de risco.

Fonte:

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