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Milei prepara seu ataque aos direitos laborais

Tal como em governos liberais anteriores, Milei pretende desmembrar leis como a do Contrato de Trabalho e Convenções Coletivas em benefício das empresas e do capital financeiro.

Como se fosse uma renovação dos primeiros 100 dias de um governo, Javier Milei quer aproveitar o remetente que lhe deu os votos deste último domingo, para avançar em diferentes reformas que ele considera essenciais para a segunda parte de seu governo. Nessa linha, o Presidente salientou que pretende implementar uma reforma tributária (que inclui a redução de cerca de 20 impostos). Mas primeiro, advertiu, “deve haver uma modernização do trabalho”. Um eufemismo para não dizer que o que ele procura é uma nova facilidade de trabalho a que ele anexa uma promessa – cor orach para os anos de existência – e é que “não implica uma perda de direitos”. Toda essa falácia que a disfarça de reformas de segunda geração representa, como Matías Cremonte afirmou à Página/12, uma nova tentativa de “atacar e/ou destruir a barreira representada pela legislação trabalhista e, claro, o movimento operário” ao desenvolvimento total do atual programa económico que tem como único beneficiário o grande capital empresarial e financeiro. Tal reforma exige uma estratégia de resistência a nível legislativo e também da união. Por enquanto a CGT expressou a sua rejeição a este anúncio através de um dos membros do triunvirato de condução. Héctor Daer de Sanidad indicou que o centro operário preparou um cardápio tático que inclui “a primeira acção política, depois judicial, e se necessário, greves e mobilizações”.

A proposta, que se baseia em um projecto já apresentado no ano passado e que tem como autor o vice Romina Diez a assinatura do deputado Romina Diez e que tem o acompanhamento, entre outros, de Lilia Lemoine e o amigo do traficante Fred Machado, José Luis Espert, para os trabalhadores o fim dos direitos trabalhistas. Não há nenhum benefício para o empregado em toda a sua articulação.

Cremonte, ao presidente da Associação Latino-Americana de Advogados Trabalhistas, preocupa-se em desmantelar algumas falácias que chegam da Casa Rosada. Ele adverte, no caso, que é falso que uma reforma trabalhista tenha impacto na economia real porque “o que define a dinâmica económica é a política económica que se aplica que pode ser mais protecionista ou libertária”.

Ademais, ressalta que o fechamento de empresas, a queda no consumo, a renda e o colapso das vendas de produtos domésticos decorrentes da abertura indiscriminada, já ameaçam a contratação de novos trabalhadores. Mas, além disso, indica que tudo isso deve ser acompanhado por algo que sistematicamente fazem governos liberais e é a estigmatização de sindicatos, advogados trabalhistas e, portanto, o andaime legal que protege os empregados e também a justiça da jurisdição trabalhista.

Mauricio Macri, durante seu governo, procurou avançar contra as leis trabalhistas e, especialmente os advogados trabalhistas. Ele até sindicava, sem qualquer prova, o então vice e experiente advogado trabalhista, Héctor Recalde, como o suposto líder de uma máfia da indústria de julgamento. Em qualquer caso, Recalde foi um guia e inspiração para advogados que litigam no local de trabalho.

O experimento que agora impulsiona Milei não é novo. Já tentou a ditadura militar, o menemismo, até a Aliança que usou a lei Banelco e o governo de Macri. Em todos esses casos, a destruição dos direitos dos trabalhadores visa desenvolver um programa econômico que beneficie os empregadores e o capital financeiro. É por isso que, como afirma Cremonte, é uma prioridade para esses governos, como o de Milei, “atacar e / ou destruir a barreira que representa a legislação trabalhista e, claro, o movimento operário”.

A voz das guildas

Dois foram os líderes sindicais que se manifestaram contra a reforma trabalhista. Um deles foi Mario “Paco” Manrique dos sindicatos da mecânica, o Smata. “Todas as reformas trabalhistas foram levantadas em tempos de crise, porque tudo o que eles queriam fazer é diminuir as demissões”, disse o deputado nacional. Além disso, ele advertiu que “o triunfo de Milei vai acelerar todo um processo que foi planeado antes das eleições, com a reforma do trabalho e muitas questões que afetam a vida diária dos trabalhadores, e diante disso a CGT não pode olhar para o lado, ou virar um ouvido surdo”.

Daer, líder de saúde e triunvir da CGT, também se referiu a este projeto promovido pelo governo e que quer adicioná-lo à sessão extraordinária do Congresso quando a nova conformação das câmaras parlamentares já está funcionando.

“Se for para recuar, não vamos negociar. Até agora não há indicação de qual projecto o governo pretende ser”, disse Daer durante entrevista de rádio. A este respeito, ele ressaltou que as reformas propostas podem envolver uma transferência dos direitos dos trabalhadores para os setores empresariais. Além disso, recordou que com a existência das leis vigentes com as regras vigentes, “ter um trabalhador formal ou informal faz o mesmo; as multas não existem mais e busca gerar um mercado de capitais com os fundos de compensação”.

A partir desse projecto renovado do partido no poder é que Daer antecipava que a sede dos trabalhadores planeja realizar uma estratégia combinada que inclua ação política para garantir maiorias parlamentares que detêm esses projetos, medidas judiciais contra as acções inconstitucionais e sindicais, que incluem greves e mobilizações. Isso, de certa medida, é o que a CGT fez no início da gestão de Milei quando conseguiu parar o capítulo trabalhista do decreto 70/2023, mas que ao longo dos meses abandonou essa estratégia.

Por enquanto, Milei insiste que a reforma trabalhista é o passo anterior e necessário para, em seguida, realizar a reforma tributária que “inclui baixar 20 impostos agora, ampliando a base tributária, para que, ao baixar as alíquotas, a evasão não faça sentido. Por isso, as pessoas não querem ser informais.” Nada, nenhuma das propostas de Milei inclui o menor benefício para os trabalhadores.

Curiosamente na década de 1990, o programa de comédia Cha Cha Chá foi transmitido pela televisão. Houve um esboço onde o ator Rodolfo Samsó, mais conhecido como Alacrán, recebeu uma ligação da empresa onde trabalhava e de forma muito educada ficou grato por sua demissão lhe ter comunicado. Ao lado dele estava sua esposa e ele lhe disse que para “o novo sistema” ele teve que compensar a fábrica por todos os anos que lhe foi pago o salário. É mais ou menos disso que se espera que a La Libertad avance com seu projeto de reforma trabalhista.

Fonte:

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