Artigos de Opinião

Pôr fim ao cerco a Cuba

A aquiescência à agressão trumpista não significa apenas virar as costas a milhões de vítimas; aumenta também o risco de outros povos serem condenados à fome por não se submeterem aos desejos de Washington.

O Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, instou os Estados Unidos a levantar imediatamente as sanções que vêm sendo impostas a Cuba desde janeiro, ao considerar que «regimes de sanções tão severos (…), indiscriminados e extremamente onerosos para a população são incompatíveis com os princípios fundamentais do direito internacional dos direitos humanos»

Türk referiu alguns dados que ilustram a devastação causada por medidas como a ameaça de impor sanções punitivas aos países que fornecem petróleo à ilha: desde a imposição das restrições ao combustível, a mortalidade infantil duplicou, atingindo 9,9 mortes por cada mil nascimentos, enquanto a taxa de sobrevivência das crianças com cancro passou de 85% para 65%.

Com os factos em mãos, o alto comissário mostrou ao mundo a infâmia do bloqueio e dissipou qualquer dúvida de que a posição face à ofensiva de Washington não é uma questão política nem ideológica, mas sim jurídica e humanitária. Da mesma forma, confirmou que a crise em que o povo cubano se encontra mergulhado é o resultado de uma intenção de infligir sofrimento por parte da superpotência, e não de forças naturais nem da gestão do governo cubano.

Na batalha pela narrativa, o depoimento do funcionário tem o mérito de desmentir a versão propagada pelos Estados Unidos e amplificada pelos seus aliados e meios de comunicação afins, segundo a qual a crise energética e a consequente saída de todas as empresas estrangeiras com investimentos na ilha são culpa de uma elite militar corrupta e incompetente que condena o povo à pobreza, enquanto ela própria vive na abundância e no esbanjamento. A deterioração automática das condições de vida após a nova ronda de sanções prova que, mesmo que tal versão fosse verdadeira, as punições coletivas não afectam a liderança, mas sim os civis comuns.

Neste sentido, o trumpismo distingue-se das restantes administrações norte-americanas ao tornar transparentes tanto as suas intenções como os métodos com que se propõe concretizá-las. Ao impor o embargo petrolífero em janeiro passado, Donald Trump garantiu que Cuba não conseguiria sobreviver às sanções; há um mês, afirmou que, quando os seus porta-aviões regressassem da guerra contra o Irão, assumiriam o controlo da ilha «quase imediatamente» e, a 20 de maio, sustentou que não é necessária uma escalada nas suas agressões porque Cuba já está a desmoronar-se. Também admitiu abertamente o papel de Washington na sementeira do descontentamento e nas operações para enfraquecer o país a partir de dentro, ao afirmar: «temos muita gente em Cuba; temos a CIA lá».

O discurso do Alto Comissário Türk reforça a mensagem do ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez, que denunciou perante o Conselho de Segurança da ONU as medidas da Casa Branca como «uma agressão unilateral sem precedentes e sem qualquer justificação», com as quais Trump pretende obrigar todos os Estados a participar «contra a sua vontade nas suas políticas atrozes contra Cuba». A comunidade internacional deve atender ao apelo do ministro Rodríguez para se mobilizar a fim de evitar uma catástrofe humanitária gerada por um bloqueio manifestamente criminoso. A aquiescência à agressão trumpista não significa apenas virar as costas a milhões de vítimas; aumenta também o risco de outros povos serem condenados à fome por não se submeterem aos desejos de Washington.

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Fonte:

"Para quem está cansado da narrativa única." 🕵️‍♂️

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