
A guerra híbrida e cognitiva contra Cuba
Cuba enfrenta há décadas uma agressão que não se limita ao bloqueio económico. Sobre a ilha desenha-se um cenário de guerra híbrida e cognitiva — uma combinação letal de asfixia material e manipulação da percepção, orquestrada por Washington com precisão cirúrgica.
O que é a guerra híbrida?
A guerra híbrida — também chamada de guerra de quarta geração ou guerra multidimensional, é a combinação de asfixia económica, financeira e comercial com a aposta na divisão do povo cubano. Não precisa de uma declaração formal de guerra, porque “opera por acumulação”: cada sanção, cada pressão sobre terceiros países, cada obstáculo à compra de combustível e medicamentos forma um mesmo design: tornar ingovernável a vida.
“Vencer sem combater, quebrar a vontade antes que os exércitos, isolar, confundir, desgastar e desmoralizar”, escreve a jornalista Rosa Miriam Elizalde. É uma guerra que não dispara directamente contra os corpos, mas que “organiza as condições para que fiquem doentes, esperem, se esgotem, emigrem, se desesperem ou se enfrentem entre si”.
A guerra cognitiva: A batalha pelo sentido
Paralelamente ao cerco material, o império desenha uma ofensiva semióptica destinada a criar erosão e a legitimidade do projecto revolucionário. Trata-se, como define o filósofo Fernando Buen Abad, de uma “maquinaria de des-semantização”, que opera “contra a capacidade de um povo para se narrar a si mesmo desde coordenadas soberanas”.
O objectivo é “fazer que ‘soberania’ signifique isolamento, que ‘socialismo’ signifique atraso, que ‘revolução’ signifique ditadura”. Esta guerra cognitiva não se limita aos titulares de imprensa: “infiltra as matrizes de percepção, os algoritmos da emoção, as estruturas do desejo”. Não dispara balas, “mas metáforas envenenadas. Não ocupa territórios, mas cérebros”.
A ofensiva cognitiva é uma das mais prolongadas, sofisticadas e sistemáticas da agressão ideológica. E é sustentada por uma constelação de actores: “industriais especialistas em produção de subjectividade, redes financeiras, plataformas tecnológicas, laboratórios académicos, indústrias culturais, agências de inteligência, conglomerados mediáticos”.
As técnicas do engano: Framing, agenda setting e gaslighting
Três técnicas são aplicadas com “precisão cirúrgica” contra Cuba:
Framing (enquadramento) — Quem define o quadro ganha o debate. A Ordem Executiva de janeiro de 2026, que declarou Cuba “ameaça inusual e extraordinária”, é uma operação de framing. Ao associar Cuba com Hamas, Hezbollah, China e Rússia, activa-se no imaginário ocidental o marco do “eixo do mal”. O propósito: “fabricar o consentimento para a agressão ao apresentar Cuba como um actor maligno”.
Agenda Setting — Decide-se do que se fala e do que não se fala. As dificuldades causadas pelo bloqueio são apresentadas como “fracasso do modelo”, omitindo a sua origem externa. A escassez induzida “necessita uma pedagogia de culpabilização”.
Gaslighting — O objectivo é “semear a dúvida. Induzir ansiedade colectiva”. A sobrecarga de informação, a criação de realidades paralelas e o uso de bots perseguem um único objectivo: “fazer com que os cidadãos deixem de acreditar nas suas próprias percepções”.
A Inteligência Artificial como arma de guerra
Recentemente, Washington deu um salto qualitativo com o uso massivo de Inteligência Artificial Generativa. As técnicas de deepfakes hiper-realistas e a microsegmentação de audiências são agora parte do arsenal.
Já não se trata de transmitir uma única mensagem para toda a ilha, mas de “desenhar narrativas específicas para a dona de casa em Havana, o jovem trabalhador do turismo em Varadero, ou o engenheiro em Holguín”. A IA gera milhares de versões da mesma mentira, adaptadas ao vocabulário, à dor e à frustração de cada grupo demográfico.
O elemento mais sinistro é o uso de IA predictiva para antecipar o descontentamento: algoritmos processam o sentimento nas redes sociais, detectam picos de exaustão emocional e activam campanhas de amplificação. O resultado é uma equação diabólica: “enquanto a população é asfixiada pela falta de electricidade e alimentos, o espaço digital é simultaneamente inundado com mensagens que culpam o governo cubano exclusivamente por esta escassez, omitindo a origem externa do sofrimento”.
O alvo: a vida quotidiana
O alvo desta agressão não é o governo cubano — é o povo cubano. O impacto não fica nos “despachos do poder. Desce à mesa, ao bairro, à escola, ao policlínico, à fila, ao transporte, à vida doméstica”.
A simultaneidade é o método: o bloqueio não actua sozinho. Combina-se com guerra comunicacional, perseguição financeira, cerco energético, operações de descrédito, ameaças diplomáticas e pressão sobre organismos internacionais. “Tudo acontece ao mesmo tempo. Essa simultaneidade não permite respirar”.
O cerco energético: Quando a guerra se mede em apagões
Em 2026, a administração Trump intensificou o bloqueio energético, declarando Cuba “ameaça inusual e extraordinária”. Entre março de 2025 e fevereiro de 2026, os danos causados pelo bloqueio atingiram o valor recorde de 8 mil milhões e 83 milhões de dólares. Desde que foi imposto, o bloqueio acumula perdas estimadas em 178,7 mil milhões de dólares.
A estratégia é clara: “sincronizar o momento de maior privação material com uma ofensiva digital imparável, que sobrecarregue a capacidade do Estado de responder”. A Inteligência Artificial faz o trabalho: “quando um bairro fica às escuras, os telemóveis (se tiverem bateria e dados) são inundados com mensagens fabricadas sobre ‘gestão incompetente’ e ‘privilégios oficiais’, sem nunca mencionar a guerra económica declarada”.
A resistência: A consciência histórica contra a Inteligência Artificial
Mas a Inteligência Artificial tem uma fraqueza: “a consciência histórica”. Face a esta máquina de desinformação hipertecnológica, Cuba responde com uma “contraofensiva cultural” que reclama o valor da informação verificada e da empatia.
Porque “uma guerra cognitiva ganha-se nas ruas, nos diálogos de bairro, na confiança construída cara a cara, onde a IA ainda não consegue chegar”.
O desafio para Cuba é titânico: “suportar a pressão de um bloqueio sufocante e, ao mesmo tempo, desarmar as bombas de fragmentação cibernéticas que explodem nos bolsos dos cidadãos”.
Conclusão: A guerra que não é noticia
A guerra híbrida e cognitiva contra Cuba é a prova de que Washington não precisa de invasões para destruir uma nação. Basta o bloqueio, a mentira e a manipulação — a tríade que transforma uma ilha num campo de batalha onde as armas são a fome, a dúvida e o medo.
É esta guerra que a imprensa portuguesa, no seu zelo propagandístico, se recusa a nomear. Prefere falar de “colapso”, de “infraestruturas obsoletas”, de “fracasso do modelo”. Nunca do cerco que as provoca.
Porque, como escreveu Fernando Buen Abad, “atacar Cuba é atacar a hipótese da liberdade consciente”. E essa hipótese, camarada, o império nunca conseguirá matar.
Pátria ou Morte, Venceremos! 🇨🇺✊
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Paulo Jorge da Silva | Um activista português que viu, cheirou e sentiu o bloqueio. Pela soberania de Cuba. Pelo fim do cerco. Pelos milhões que, em silêncio, já decidiram de que lado estão. Porque os princípios, como Fidel ensinou, não se negoceiam.
