Artigos de OpiniãoPaulo Da Silva

A guerra híbrida e cognitiva contra Cuba

Cuba enfrenta há décadas uma agressão que não se limita ao bloqueio económico. Sobre a ilha desenha-se um cenário de guerra híbrida e cognitiva — uma combinação letal de asfixia material e manipulação da percepção, orquestrada por Washington com precisão cirúrgica.

O que é a guerra híbrida?

A guerra híbrida — também chamada de guerra de quarta geração ou guerra multidimensional, é a combinação de asfixia económica, financeira e comercial com a aposta na divisão do povo cubano. Não precisa de uma declaração formal de guerra, porque “opera por acumulação”: cada sanção, cada pressão sobre terceiros países, cada obstáculo à compra de combustível e medicamentos forma um mesmo design: tornar ingovernável a vida.

“Vencer sem combater, quebrar a vontade antes que os exércitos, isolar, confundir, desgastar e desmoralizar”, escreve a jornalista Rosa Miriam Elizalde. É uma guerra que não dispara directamente contra os corpos, mas que “organiza as condições para que fiquem doentes, esperem, se esgotem, emigrem, se desesperem ou se enfrentem entre si”.

A guerra cognitiva: A batalha pelo sentido

Paralelamente ao cerco material, o império desenha uma ofensiva semióptica destinada a criar erosão e a legitimidade do projecto revolucionário. Trata-se, como define o filósofo Fernando Buen Abad, de uma “maquinaria de des-semantização”, que opera “contra a capacidade de um povo para se narrar a si mesmo desde coordenadas soberanas”.

O objectivo é “fazer que ‘soberania’ signifique isolamento, que ‘socialismo’ signifique atraso, que ‘revolução’ signifique ditadura”. Esta guerra cognitiva não se limita aos titulares de imprensa: “infiltra as matrizes de percepção, os algoritmos da emoção, as estruturas do desejo”. Não dispara balas, “mas metáforas envenenadas. Não ocupa territórios, mas cérebros”.

A ofensiva cognitiva é uma das mais prolongadas, sofisticadas e sistemáticas da agressão ideológica. E é sustentada por uma constelação de actores: “industriais especialistas em produção de subjectividade, redes financeiras, plataformas tecnológicas, laboratórios académicos, indústrias culturais, agências de inteligência, conglomerados mediáticos”.

As técnicas do engano: Framing, agenda setting e gaslighting

Três técnicas são aplicadas com “precisão cirúrgica” contra Cuba:

  1. Framing (enquadramento) — Quem define o quadro ganha o debate. A Ordem Executiva de janeiro de 2026, que declarou Cuba “ameaça inusual e extraordinária”, é uma operação de framing. Ao associar Cuba com Hamas, Hezbollah, China e Rússia, activa-se no imaginário ocidental o marco do “eixo do mal”. O propósito: “fabricar o consentimento para a agressão ao apresentar Cuba como um actor maligno”.

  2. Agenda Setting — Decide-se do que se fala e do que não se fala. As dificuldades causadas pelo bloqueio são apresentadas como “fracasso do modelo”, omitindo a sua origem externa. A escassez induzida “necessita uma pedagogia de culpabilização”.

  3. Gaslighting — O objectivo é “semear a dúvida. Induzir ansiedade colectiva”. A sobrecarga de informação, a criação de realidades paralelas e o uso de bots perseguem um único objectivo: “fazer com que os cidadãos deixem de acreditar nas suas próprias percepções”.

A Inteligência Artificial como arma de guerra

Recentemente, Washington deu um salto qualitativo com o uso massivo de Inteligência Artificial Generativa. As técnicas de deepfakes hiper-realistas e a microsegmentação de audiências são agora parte do arsenal.

Já não se trata de transmitir uma única mensagem para toda a ilha, mas de “desenhar narrativas específicas para a dona de casa em Havana, o jovem trabalhador do turismo em Varadero, ou o engenheiro em Holguín”. A IA gera milhares de versões da mesma mentira, adaptadas ao vocabulário, à dor e à frustração de cada grupo demográfico.

O elemento mais sinistro é o uso de IA predictiva para antecipar o descontentamento: algoritmos processam o sentimento nas redes sociais, detectam picos de exaustão emocional e activam campanhas de amplificação. O resultado é uma equação diabólica: “enquanto a população é asfixiada pela falta de electricidade e alimentos, o espaço digital é simultaneamente inundado com mensagens que culpam o governo cubano exclusivamente por esta escassez, omitindo a origem externa do sofrimento”.

O alvo: a vida quotidiana

O alvo desta agressão não é o governo cubano — é o povo cubano. O impacto não fica nos “despachos do poder. Desce à mesa, ao bairro, à escola, ao policlínico, à fila, ao transporte, à vida doméstica”.

A simultaneidade é o método: o bloqueio não actua sozinho. Combina-se com guerra comunicacional, perseguição financeira, cerco energético, operações de descrédito, ameaças diplomáticas e pressão sobre organismos internacionais. “Tudo acontece ao mesmo tempo. Essa simultaneidade não permite respirar”.

O cerco energético: Quando a guerra se mede em apagões

Em 2026, a administração Trump intensificou o bloqueio energético, declarando Cuba “ameaça inusual e extraordinária”. Entre março de 2025 e fevereiro de 2026, os danos causados pelo bloqueio atingiram o valor recorde de 8 mil milhões e 83 milhões de dólares. Desde que foi imposto, o bloqueio acumula perdas estimadas em 178,7 mil milhões de dólares.

A estratégia é clara: “sincronizar o momento de maior privação material com uma ofensiva digital imparável, que sobrecarregue a capacidade do Estado de responder”. A Inteligência Artificial faz o trabalho: “quando um bairro fica às escuras, os telemóveis (se tiverem bateria e dados) são inundados com mensagens fabricadas sobre ‘gestão incompetente’ e ‘privilégios oficiais’, sem nunca mencionar a guerra económica declarada”.

A resistência: A consciência histórica contra a Inteligência Artificial

Mas a Inteligência Artificial tem uma fraqueza: “a consciência histórica”. Face a esta máquina de desinformação hipertecnológica, Cuba responde com uma “contraofensiva cultural” que reclama o valor da informação verificada e da empatia.

Porque “uma guerra cognitiva ganha-se nas ruas, nos diálogos de bairro, na confiança construída cara a cara, onde a IA ainda não consegue chegar”.

O desafio para Cuba é titânico: “suportar a pressão de um bloqueio sufocante e, ao mesmo tempo, desarmar as bombas de fragmentação cibernéticas que explodem nos bolsos dos cidadãos”.

Conclusão: A guerra que não é noticia

A guerra híbrida e cognitiva contra Cuba é a prova de que Washington não precisa de invasões para destruir uma nação. Basta o bloqueio, a mentira e a manipulação — a tríade que transforma uma ilha num campo de batalha onde as armas são a fome, a dúvida e o medo.

É esta guerra que a imprensa portuguesa, no seu zelo propagandístico, se recusa a nomear. Prefere falar de “colapso”, de “infraestruturas obsoletas”, de “fracasso do modelo”. Nunca do cerco que as provoca.

Porque, como escreveu Fernando Buen Abad, “atacar Cuba é atacar a hipótese da liberdade consciente”. E essa hipótese, camarada, o império nunca conseguirá matar.

Pátria ou Morte, Venceremos! 🇨🇺✊

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Paulo Jorge da Silva | Um activista português que viu, cheirou e sentiu o bloqueio. Pela soberania de Cuba. Pelo fim do cerco. Pelos milhões que, em silêncio, já decidiram de que lado estão. Porque os princípios, como Fidel ensinou, não se negoceiam.

"Para quem está cansado da narrativa única." 🕵️‍♂️

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