
O regime de sanções de Washington chega ao seu ponto de ruptura
A crescente campanha de sanções de Trump contra o Irão corre o risco de ser contraproducente, enfraquecendo a influência económica dos Estados Unidos e acelerando uma mudança global que se afasta do sistema financeiro centrado no dólar.
A tentativa desesperada de Trump para esmagar a economia iraniana sem uma escalada militar coloca em risco existencial o regime de sanções dos Estados Unidos contra o Irão, a Rússia, a China e todos os seus outros adversários.
Até agora, 2026 tem sido o ano mais revelador da memória recente para a auto-imagem dos Estados Unidos. Depois de ter finalmente conseguido a guerra contra Teerão que ansiava desde 1979, a classe dirigente de Washington enfrenta não o colapso da República Islâmica, mas sim a sua consolidação.
Longe de recuperar o seu domínio indiscutível sobre a região do Golfo, os Estados Unidos têm agora de aceitar que Teerão controle perpectuamente a rota marítima mais importante do planeta, ou, caso contrário, enfrentarão uma calamidade económica mundial. Em vez de enfraquecer a influência iraniana, a agressão norte-americana-israelita ampliou-a exponencialmente, conferindo-lhe desnecessariamente um nível de poder e influência global inimaginável nos mais de cinco séculos de domínio ocidental.
Enquanto a administração se debate entre as eleições intercalares e o esgotamento iminente da Reserva Estratégica de Petróleo — que atenuou a verdadeira magnitude da crise energética —, em breve testemunhará como outro instrumento do seu poder, até agora indiscutível, se desmorona juntamente com as suas reservas de munições cada vez mais escassas. Esse instrumento é a sua política de sanções económicas.
Esta semana foi lançada a chamada «Operação Marginalização Económica», através da qual Washington pretende cortar todas as vias de contacto económico entre o Irão e o resto do mundo. Anunciada pelo infeliz secretário do Tesouro, Scott Bessent, que, para além da sua perplexidade perante o aumento do preço do petróleo em resposta às ações norte-americanas, também se depara com o fracasso do bloqueio naval da costa sul do Irão, que ainda não provocou nem o colapso nem a capitulação de Teerão. Ao retomar as tácticas de coacção económica directa, a administração Trump assinalou uma escalada sem precedentes na intensidade da sua política de sanções secundárias, segundo a qual qualquer empresa ou Estado que realize qualquer tipo de actividade económica com o Irão será excluído do sistema económico e financeiro baseado no dólar norte-americano.
Esta ameaça, além de se dirigir contra os parceiros económicos regionais e as pequenas e médias empresas da República Islâmica, visa também explicitamente a China e a Rússia. No seu desespero para forçar a submissão iraniana, Washington está a intensificar a guerra até a transformar numa chantagem económica global, mesmo contra a sua única economia de nível semelhante e potencial rival. O próprio Bessent admitiu que a imposição efectiva de tais sanções «destruiria» o sistema financeiro global.
Para além de ameaçar qualquer Estado que tenha algum tipo de relação com a economia iraniana, a administração Trump, incentivada por «Israel», também tem considerado a possibilidade de impor um bloqueio terrestre total. Tal exigiria pressionar actores regionais de importância sistémica, como a Turquia, o Iraque e o Paquistão, para que sacrificassem as suas próprias relações económicas naturais com os seus vizinhos, com o objectivo de alcançar os objectivos da mesma potência estrangeira que mergulhou o seu presente e futuro económico no caos.
Ainda antes do lançamento do chamado «Dia D económico», Pequim desafiou Trump e Bessent, garantindo que qualquer sanção norte-americana contra entidades que facilitassem o intercâmbio sino-iraniano desencadearia «todas as medidas necessárias» em resposta. Os efeitos da crescente desconexão entre a China e os Estados Unidos, o veneno acumulado da guerra de direitos aduaneiros dos EUA contra o resto do mundo e, agora, o aparente colapso do bloco económico norte-americano (anteriormente NAFTA), colocam Washington numa posição desfavorável para assumir os verdadeiros custos de tais retaliações, muito menos as contra-sancões simultâneas de países como a Rússia, a Turquia, a Índia, o Paquistão e qualquer outro país que dependa mais da reabertura do Estreito de Ormuz do que do comércio com os Estados Unidos.
Os iranianos também não carecem de armas económicas próprias, sobretudo se compararmos com o estrangulamento económico imposto pela primeira administração Trump. Teerão interpretou, com razão, a campanha económica norte-americana como a aposta desesperada que é, e respondeu com um ultimato: qualquer Estado que participe neste cerco económico será tratado como um inimigo.
É possível que Trump acredite que a exposição relactivamente menor dos Estados Unidos ao estreito lhe confira uma certa vantagem. De facto, para a maioria dos países do mundo cujas economias dependem total ou parcialmente dos 20 por cento do petróleo e do gás natural, dos 30 por cento do hélio industrial, dos 40 por cento do enxofre e dos 50 por cento dos fertilizantes que transitam anualmente pelo Estreito de Ormuz, esta realidade dá-lhes muito mais razões para se mostrarem conciliadores com a República Islâmica do que para se juntarem às tentativas de Washington e de «Tel Aviv» de a subjugar.
Este espantoso nível de arrogância económica, caso venha a ser levado a cabo, fracassará e demonstrará os limites económicos do poder norte-americano, a par dos do seu exército, ou terá sucesso e dividirá o mundo em sistemas económicos globais separados. Tal como quase todas as manobras desta presidência desequilibrada, o sucesso seria mais prejudicial do que o fracasso. Washington terá alienado tanto até mesmo os seus parceiros mais próximos que o que restar da «economia global» centrada no dólar será muito menos «global» no seu alcance, em comparação com a economia mundial paralela que a sua hostilidade terá gerado por pura teimosia.
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Autor:
Samuel Geddes | Jornalista
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