Artigos de OpiniãoPaulo Da Silva

A Cuba do ar condicionado e a da lanterna: Quando a solidariedade tem classe

Há duas Cubas. Uma vive no conforto dos hotéis, com ar condicionado e gerador próprio, e fala dos apagões como quem comenta uma notícia distante. A outra acorda às três da manhã quando a energia volta, para pôr a roupa a lavar, carregar o telemóvel e cozinhar o que não pôde cozinhar durante o dia.

Este artigo não é sobre turismo. É sobre a diferença entre observar Cuba e viver Cuba. É sobre a solidariedade que se pratica à porta de casa, com o açúcar emprestado e o dominó à luz de velas. E é sobre o dever de quem está ao lado da Revolução: não se meter na política cubana, mas defender o povo cubano da agressão imperialista.

Porque a solidariedade não se mede em discursos. Mede-se naquilo que se partilha quando a luz falta.

Há duas Cubas. Uma fica nos lobbies dos hotéis, com ar condicionado, gerador próprio e pequeno-almoço servido à hora marcada. A outra acorda às três da manhã quando a energia volta.

A primeira é a Cuba que os turistas veem. A segunda é a Cuba que o povo vive.

E há, entre as duas, uma distância que não se mede em quilómetros — mede-se em experiência. Há quem a percorra todos os anos, pessoas fieis a um compromisso que se renova a cada viagem, e há quem nunca a atravesse, convencido de que conhece Cuba porque esteve em Cuba.

A Cuba dos hotéis

Há quem chegue a Cuba e fique num hotel. Não há mal nenhum nisso. Cada um viaja como pode, como quer, como lhe é possível.

O problema é outro: é quando essas pessoas — que nunca acordaram a meio da noite para pôr a roupa a lavar, que nunca cozinharam à luz de uma lanterna, que nunca esperaram 30 horas por um watt — se apresentam como testemunhas da realidade cubana.

Falam dos apagões com o ar condicionado ligado. Descrevem a escassez com o prato cheio. Repetem o que ouviram num jantar de hotel ou numa conversa de lobby, e vendem isso como vivência. Escrevem artigos, dão entrevistas, comentam a “crise energética da ilha” como quem comenta um documentário que viram no sofá.

Para esses, o apagão é um tema. Para o povo cubano, é uma rotina.

E pior ainda: algumas dessas pessoas questionam a Revolução, o seu funcionamento, a sua propaganda — como se uma estadia de uma semana lhes desse autoridade para julgar 67 anos de resistência. Como se o conforto do lobby lhes conferisse o direito de opinar sobre o que o povo cubano deve ou não fazer.

O ritual da madrugada

Quem vive Cuba de verdade conhece outro ritmo. Conhece o ritual silencioso que se repete em milhares de casas quando a luz regressa, depois de 12, 20, 30 horas de escuridão.

Não é só a lâmpada que acende. É toda uma casa que desperta.

Há quem se levante a meio da noite para pôr os telemóveis a carregar. Há quem ligue a máquina de lavar, porque a roupa se acumulou e a energia é uma janela que não se sabe quanto dura. Há quem cozinhe o que não pôde cozinhar durante o dia, porque o fogão elétrico não funcionava. Há quem recarregue a lanterna, o rádio, o power bank — os companheiros de todas as noites escuras.

É um ritual sem dramatismo. Há prática, há hábito, há a certeza de que a energia é uma visita breve que se deve aproveitar até ao último minuto.

Quem está num hotel com gerador nunca verá isto. Para esses, o apagão é um assunto. Para o povo cubano, é um relógio interno que se aprendeu a respeitar.

A solidariedade que não se explica

O que sustenta Cuba não são os geradores dos hotéis. É o que o povo partilha entre si.

É o açúcar emprestado para o café da manhã. É a chave suplente que a vizinha entrega sem hesitar quando uma se parte. É o dominó jogado à luz de velas, à porta do prédio, onde se ri e se conversa como se não faltasse nada. É a roupa lavada na casa de quem teve energia mais cedo. É o jantar improvisado com arroz, uma conserva e a sopa de tomate que sobejou do dia anterior. É a conversa à porta, o conselho útil, o cigarro partilhado, o rum que se passa de mão em mão.

Partilha-se o que se tem. Partilha-se o que não se tem.

Quando falta a um, falta a todos — mas quando um tem, também tem o outro. Esta é a solidariedade que não se escreve em comunicados, que não se aprende em manuais, que não se simula em artigos. Pratica-se, casa a casa, rua a rua, em cada apagão.

O dever de quem está ao lado

Quem está ao lado da Revolução Cubana tem um dever simples, mas fundamental: não se meter na política interna de Cuba.

A política cubana diz respeito ao povo cubano. É ele que decide, é ele que corrige, é ele que constrói. Não cabe a quem vem de fora — nem a quem fica num hotel, nem a quem se diz solidário — opinar sobre como os cubanos devem organizar-se, governar-se ou resolver os seus problemas.

O dever de quem está ao lado é outro: defender o povo cubano da agressão imperialista.

É denunciar o bloqueio. É expor o cerco energético. É dizer ao mundo que os apagões não são um acidente nem uma incompetência — são uma arma. É mostrar que o que se passa em Cuba não é uma crise interna, é um genocídio em câmara lenta. É estar do lado certo quando o império aperta o garrote.

Quem confunde isto — quem troca a defesa do povo pela crítica à Revolução — não está a ajudar. Está a fazer o trabalho do inimigo, ainda que com boas intenções. E as boas intenções, em política, nunca salvaram ninguém.

O que não se pode simular

Cuba não é um destino. É uma experiência que se vive ou não se vive.

Não se pode simular o cheiro de uma casa sem luz. Não se pode simular o som de uma família a jogar dominó no escuro. Não se pode simular a mão que estende o açúcar, a chave, o abraço.

Quem chega a Cuba e fica num hotel pode gostar da ilha. Pode denunciar o bloqueio. Pode ser solidário — e a solidariedade, em qualquer forma, é bem-vinda. Mas não pode confundir observar com testemunhar.

O testemunho paga-se com horas sem luz. Paga-se com noites acordadas. Paga-se com a partilha do pouco que há. Paga-se com a escolha, repetida ano após ano, de voltar e estar no chão, com o povo, em vez de passar ao lado.

É esse o preço da solidariedade. E o povo cubano paga-o todos os dias.

Aos que não se rendem

Há 67 anos que tentam quebrar Cuba. Já tentaram tudo: invasões, sabotagens, atentados, sanções, mentiras, bloqueios. Tentaram afogar a ilha em silêncio e em escuridão. E continuam a tentar.

E, no entanto, Cuba está de pé.

Não porque tenha recursos. Não porque tenha aliados poderosos. Não porque o mundo a tenha defendido como devia. Cuba está de pé porque o seu povo decidiu, há 67 anos, que preferia a dignidade à submissão.

Uma vitória de cada dia

Cada dia que passa sem que Cuba se renda é uma vitória. Cada apagão que o povo atravessa com dignidade é uma derrota para o império. Cada gesto de solidariedade é uma resposta à asfixia.

Eles querem que Cuba caia. Querem que o povo se canse, que se desespere, que se volte contra a sua própria Revolução. Mas o povo cubano não se cansa. Não se desespera. Não se volta.

Porque sabe o que perdeu. Porque sabe o que conquistou. Porque sabe que, se cair, volta a ser o que era antes de 1959 — e isso, nunca mais.

A minha Homenagem

A ti, povo cubano, que resistes quando te tiram a luz, a comida, o remédio e a esperança. Que resistes quando te mentem, quando te sancionam, quando te querem quebrar por dentro.

A ti, que acordas às três da manhã para aproveitar a energia que volta, como quem aproveita a vida que insiste em continuar.

A ti, que emprestas o açúcar, a chave, o abraço, mesmo quando te falta o essencial.

A ti, que não viras a cara à tua Revolução, mesmo quando o caminho é mais duro do que qualquer um devia suportar.

A ti, o meu respeito. A ti, a minha admiração. A ti, o meu compromisso.

Não é por Cuba que muitos lutamos apenas. É por tudo o que Cuba representa: a prova viva de que um povo pode dizer não ao império mais poderoso da história e continuar de pé.

Cuba resiste. E nós, do lado de fora, não desistimos.

Pátria ou Morte, Venceremos! 🇨🇺✊

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Paulo Da Silva

Um activista português que viu, cheirou e sentiu o bloqueio. Pela soberania de Cuba. Pelo fim do cerco. Pelos milhões que, em silêncio, já decidiram de que lado estão. Porque os princípios, como Fidel ensinou, não se negoceiam.

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