A Cuba do ar condicionado e a da lanterna: Quando a solidariedade tem classe
Há duas Cubas. Uma vive no conforto dos hotéis, com ar condicionado e gerador próprio, e fala dos apagões como quem comenta uma notícia distante. A outra acorda às três da manhã quando a energia volta, para pôr a roupa a lavar, carregar o telemóvel e cozinhar o que não pôde cozinhar durante o dia.
Este artigo não é sobre turismo. É sobre a diferença entre observar Cuba e viver Cuba. É sobre a solidariedade que se pratica à porta de casa, com o açúcar emprestado e o dominó à luz de velas. E é sobre o dever de quem está ao lado da Revolução: não se meter na política cubana, mas defender o povo cubano da agressão imperialista.
Porque a solidariedade não se mede em discursos. Mede-se naquilo que se partilha quando a luz falta.
Há duas Cubas. Uma fica nos lobbies dos hotéis, com ar condicionado, gerador próprio e pequeno-almoço servido à hora marcada. A outra acorda às três da manhã quando a energia volta.
A primeira é a Cuba que os turistas veem. A segunda é a Cuba que o povo vive.
E há, entre as duas, uma distância que não se mede em quilómetros — mede-se em experiência. Há quem a percorra todos os anos, pessoas fieis a um compromisso que se renova a cada viagem, e há quem nunca a atravesse, convencido de que conhece Cuba porque esteve em Cuba.
A Cuba dos hotéis
Há quem chegue a Cuba e fique num hotel. Não há mal nenhum nisso. Cada um viaja como pode, como quer, como lhe é possível.
O problema é outro: é quando essas pessoas — que nunca acordaram a meio da noite para pôr a roupa a lavar, que nunca cozinharam à luz de uma lanterna, que nunca esperaram 30 horas por um watt — se apresentam como testemunhas da realidade cubana.
Falam dos apagões com o ar condicionado ligado. Descrevem a escassez com o prato cheio. Repetem o que ouviram num jantar de hotel ou numa conversa de lobby, e vendem isso como vivência. Escrevem artigos, dão entrevistas, comentam a “crise energética da ilha” como quem comenta um documentário que viram no sofá.
Para esses, o apagão é um tema. Para o povo cubano, é uma rotina.
E pior ainda: algumas dessas pessoas questionam a Revolução, o seu funcionamento, a sua propaganda — como se uma estadia de uma semana lhes desse autoridade para julgar 67 anos de resistência. Como se o conforto do lobby lhes conferisse o direito de opinar sobre o que o povo cubano deve ou não fazer.
O ritual da madrugada
Quem vive Cuba de verdade conhece outro ritmo. Conhece o ritual silencioso que se repete em milhares de casas quando a luz regressa, depois de 12, 20, 30 horas de escuridão.
Não é só a lâmpada que acende. É toda uma casa que desperta.
Há quem se levante a meio da noite para pôr os telemóveis a carregar. Há quem ligue a máquina de lavar, porque a roupa se acumulou e a energia é uma janela que não se sabe quanto dura. Há quem cozinhe o que não pôde cozinhar durante o dia, porque o fogão elétrico não funcionava. Há quem recarregue a lanterna, o rádio, o power bank — os companheiros de todas as noites escuras.
É um ritual sem dramatismo. Há prática, há hábito, há a certeza de que a energia é uma visita breve que se deve aproveitar até ao último minuto.
Quem está num hotel com gerador nunca verá isto. Para esses, o apagão é um assunto. Para o povo cubano, é um relógio interno que se aprendeu a respeitar.
A solidariedade que não se explica
O que sustenta Cuba não são os geradores dos hotéis. É o que o povo partilha entre si.
É o açúcar emprestado para o café da manhã. É a chave suplente que a vizinha entrega sem hesitar quando uma se parte. É o dominó jogado à luz de velas, à porta do prédio, onde se ri e se conversa como se não faltasse nada. É a roupa lavada na casa de quem teve energia mais cedo. É o jantar improvisado com arroz, uma conserva e a sopa de tomate que sobejou do dia anterior. É a conversa à porta, o conselho útil, o cigarro partilhado, o rum que se passa de mão em mão.
Partilha-se o que se tem. Partilha-se o que não se tem.
Quando falta a um, falta a todos — mas quando um tem, também tem o outro. Esta é a solidariedade que não se escreve em comunicados, que não se aprende em manuais, que não se simula em artigos. Pratica-se, casa a casa, rua a rua, em cada apagão.
O dever de quem está ao lado
Quem está ao lado da Revolução Cubana tem um dever simples, mas fundamental: não se meter na política interna de Cuba.
A política cubana diz respeito ao povo cubano. É ele que decide, é ele que corrige, é ele que constrói. Não cabe a quem vem de fora — nem a quem fica num hotel, nem a quem se diz solidário — opinar sobre como os cubanos devem organizar-se, governar-se ou resolver os seus problemas.
O dever de quem está ao lado é outro: defender o povo cubano da agressão imperialista.
É denunciar o bloqueio. É expor o cerco energético. É dizer ao mundo que os apagões não são um acidente nem uma incompetência — são uma arma. É mostrar que o que se passa em Cuba não é uma crise interna, é um genocídio em câmara lenta. É estar do lado certo quando o império aperta o garrote.
Quem confunde isto — quem troca a defesa do povo pela crítica à Revolução — não está a ajudar. Está a fazer o trabalho do inimigo, ainda que com boas intenções. E as boas intenções, em política, nunca salvaram ninguém.
O que não se pode simular
Cuba não é um destino. É uma experiência que se vive ou não se vive.
Não se pode simular o cheiro de uma casa sem luz. Não se pode simular o som de uma família a jogar dominó no escuro. Não se pode simular a mão que estende o açúcar, a chave, o abraço.
Quem chega a Cuba e fica num hotel pode gostar da ilha. Pode denunciar o bloqueio. Pode ser solidário — e a solidariedade, em qualquer forma, é bem-vinda. Mas não pode confundir observar com testemunhar.
O testemunho paga-se com horas sem luz. Paga-se com noites acordadas. Paga-se com a partilha do pouco que há. Paga-se com a escolha, repetida ano após ano, de voltar e estar no chão, com o povo, em vez de passar ao lado.
É esse o preço da solidariedade. E o povo cubano paga-o todos os dias.
Aos que não se rendem
Há 67 anos que tentam quebrar Cuba. Já tentaram tudo: invasões, sabotagens, atentados, sanções, mentiras, bloqueios. Tentaram afogar a ilha em silêncio e em escuridão. E continuam a tentar.
E, no entanto, Cuba está de pé.
Não porque tenha recursos. Não porque tenha aliados poderosos. Não porque o mundo a tenha defendido como devia. Cuba está de pé porque o seu povo decidiu, há 67 anos, que preferia a dignidade à submissão.
Uma vitória de cada dia
Cada dia que passa sem que Cuba se renda é uma vitória. Cada apagão que o povo atravessa com dignidade é uma derrota para o império. Cada gesto de solidariedade é uma resposta à asfixia.
Eles querem que Cuba caia. Querem que o povo se canse, que se desespere, que se volte contra a sua própria Revolução. Mas o povo cubano não se cansa. Não se desespera. Não se volta.
Porque sabe o que perdeu. Porque sabe o que conquistou. Porque sabe que, se cair, volta a ser o que era antes de 1959 — e isso, nunca mais.
A minha Homenagem
A ti, povo cubano, que resistes quando te tiram a luz, a comida, o remédio e a esperança. Que resistes quando te mentem, quando te sancionam, quando te querem quebrar por dentro.
A ti, que acordas às três da manhã para aproveitar a energia que volta, como quem aproveita a vida que insiste em continuar.
A ti, que emprestas o açúcar, a chave, o abraço, mesmo quando te falta o essencial.
A ti, que não viras a cara à tua Revolução, mesmo quando o caminho é mais duro do que qualquer um devia suportar.
A ti, o meu respeito. A ti, a minha admiração. A ti, o meu compromisso.
Não é por Cuba que muitos lutamos apenas. É por tudo o que Cuba representa: a prova viva de que um povo pode dizer não ao império mais poderoso da história e continuar de pé.
Cuba resiste. E nós, do lado de fora, não desistimos.
Pátria ou Morte, Venceremos! 🇨🇺✊
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