Venezuela

Como uma bolha imobiliária rebentou o mito do Trem de Arágua

Da guerra contra as drogas à campanha do TdA, o mesmo padrão repete-se com nomes diferentes: construção de inimigos, amplificação de crises, criação de pretextos legais e implantação de uma política de asfixia contra um Estado que não se submete aos interesses de Washington.

A extensa reportagem publicada pela The American Prospect sobre o Trem de Aragua (TdA) oferece uma crónica em que, entre episódios de violência urbana, acusações cruzadas e manobras políticas, surge um dado fundamental: a forma como certos actos criminosos são moldados para alimentar narrativas geopolíticas que transcendem a sua origem local, o que evidencia que por trás deste caso não há apenas gangues ou crimes de rua, mas uma máquina mediática com objetivos políticos mais amplos.

Embora o texto não tenha uma posição favorável à Venezuela, a sua própria documentação de factos, actores e contextos permite vislumbrar como a narrativa construída pelo TdA se encaixa num padrão já conhecido: a fabricação de ameaças externas que, ampliadas por campanhas mediáticas e discursos oficiais, legitimam políticas de agressão contra o país. Tal como acontece com supostas ligações ao narcotráfico ou com acusações de terrorismo, o TdA torna-se uma desculpa para justificar sanções, operações irregulares e a criminalização da diáspora venezuelana nos Estados Unidos.

Do Sucesso local a inimigo transnacional

O artigo de Maureen Tkacik parte de um facto específico — o vídeo viral de um tiroteio num complexo de apartamentos em Aurora, Colorado, e o testemunho de Cindy Romero — para mostrar como episódios isolados são absorvidos por uma máquina midiática e política que os transforma em prova de uma ameaça existencial. Em questão de dias, Romero passou de vizinha anónima a aparecer em programas nacionais, ser convidada para comícios políticos e ser usada como rosto visível da suposta “invasão” de gangues venezuelanas.

Mas este não foi o primeiro nem, muito menos, o único crime amplificado pela mídia para uso político. Tkacik escreve:

O que estava, no entanto, extremamente bem organizado e coordenado era a campanha de relações públicas através da qual o Tren de Aragua passou de uma obsessão obscura de entusiastas do crime organizado a uma ameaça existencial ao estilo de vida americano.

O caso Romero, então, é outro exemplo ilustrativo de um processo maior: a criação intencional de um discurso em que crimes isolados são articulados como uma “evidência” que apresenta a Venezuela e os migrantes venezuelanos como uma ameaça transnacional. Empresas de lobby como a Red Banyan, meios de comunicação alinhados com a direita e actores políticos locais e nacionais agiram de forma coordenada para que cada fato alimentasse a ideia de um inimigo externo que justificasse medidas excepcionais.

Por trás do caos: Raízes económicas e políticas

Se há algo que o artigo da The American Prospect deixa claro é que a suposta “invasão” do TdA em cidades como Aurora é, na verdade, o resultado de decisões políticas, económicas e urbanísticas dentro dos Estados Unidos, combinadas com as sanções ilegais que Washington impôs à Venezuela.

Por um lado, a autora lembra que, em 2017, “a administração Trump começou a sancionar os países que vendiam agentes de refinação de petróleo à Venezuela”, o que asfixiou a economia venezuelana, ao mesmo tempo que alimentava uma propaganda para incentivar a migração. Não se tratou, portanto, de algo espontâneo: foi em grande parte consequência de uma política deliberada de estrangulamento económico que, paradoxalmente, foi depois usada para criminalizar os mesmos migrantes que essas sanções ajudaram a produzir.

Por outro lado, o artigo detalha o colapso do mercado imobiliário nos EUA: proprietários como a CBZ a comprar prédios baratos, a despejar inquilinos, triplicando os alugueres e, em seguida, abandonando as propriedades quando a bolha financeira estourou. “A bolha multifamiliar disparou para 335 mil milhões de dólares em 2021… mas quando as taxas de juro começaram a subir, os proprietários praticamente desistiram desses edifícios”, diz o texto. O resultado foi uma cadeia de edifícios convertidos em “apartamentos zombies”, onde a criminalidade comum encontrou terreno fértil, mas cuja existência pouco tem a ver com a Venezuela e muito com a especulação imobiliária e a desregulamentação urbana nos Estados Unidos.

A este panorama sobrepôs-se uma gestão migratória errática, pela qual as cidades-santuário recebiam ondas de autocarros enviados por governadores hostis como Greg Abbott, enquanto os programas federais concediam autorizações de trabalho a alguns migrantes e deixavam outros na ilegalidade, alimentando tensões e precariedade. As autoridades locais, sobrecarregadas e sem recursos, limitavam-se a improvisar soluções temporárias, enquanto os proprietários abandonavam edifícios inteiros à sua sorte. O artigo descreve que estas dinâmicas transformaram bairros inteiros em territórios cinzentos, espaços sem lei onde a negligência empresarial, o oportunismo político e a indiferença institucional se combinaram para produzir o caos que mais tarde seria atribuído às “gangues venezuelanas”.

Red Banyan na cruzada contra a Venezuela

Por trás da cobertura mediática e política em torno do TdA, actuavam actores especializados em moldar a opinião pública. Um dos mais influentes foi a empresa Red Banyan, contratada pelos proprietários dos complexos habitacionais onde ocorreram alguns dos episódios atribuídos ao TdA. Segundo Maureen Tkacik, a estratégia consistiu em apresentar os acontecimentos locais como parte de uma ameaça transnacional, o que amplificou o alarme público e político.

A Red Banyan é formada por veteranos do lobby pró-Israel e de redes de mídia de direita nos Estados Unidos. O seu fundador, Evan Nierman, passou mais de sete anos no Comitê de Assuntos Públicos Estados Unidos-Israel (Aipac, na sigla em inglês), o grupo de pressão mais influente na política externa americana sobre a Ásia Ocidental. Outros altos cargos da empresa provêm da Liga Antidifamação, StandWithUs, Fundação para a Defesa das Democracias e Coalizão Judaica Republicana, organizações com vasta experiência em campanhas de opinião pública sobre segurança, terrorismo e política internacional.

Com este perfil, a empresa não se limitou a denunciar as condições dos edifícios da CBZ ou a pedir segurança para os seus inquilinos. Nas suas comunicações com os meios de comunicação e as autoridades, descrevia os proprietários como vítimas de uma invasão estrangeira e as cidades como incapazes de controlar uma “ameaça transnacional”, o que instalava a ideia de que não se tratava de criminalidade comum, mas sim de um inimigo externo ligado à Venezuela.

Esse discurso foi rapidamente replicado por políticos locais, meios de comunicação conservadores e, como reconhece a autora, por figuras do extremismo oposicionista venezuelano. María Corina Machado chegou a afirmar que Nicolás Maduro era “o líder do Trem de Aragua” e que havia promovido a migração para facilitar uma invasão criminosa aos Estados Unidos. Com essas palavras, a líder da oposição endossa uma narrativa funcional às sanções, deportações e operações irregulares de Washington contra a Venezuela.

Vozes críticas e resistência local

Embora o artigo documente detalhadamente a campanha mediática e política que transformou o TdA num inimigo transnacional, ele também reúne vozes que questionam essa narrativa e trazem perspectivas muito diferentes sobre o que aconteceu em lugares como Aurora.

Uma delas é Natasha Bar Shalom, activista pelos direitos dos sem-abrigo em Denver, que descreve a precariedade em que vivem milhares de pessoas — migrantes e norte-americanos — em edifícios abandonados e com serviços básicos colapsados.”«O teto da minha casa de banho está a desmoronar-se, saem ratos do teto, o meu cão está completamente coberto de picadas… O discurso está errado: os venezuelanos não são gangsters, são proprietários de bairros marginais”, declarou numa audiência da Câmara Municipal, num momento em que a opinião pública já estava saturada de manchetes que falavam de uma invasão criminosa.

Outras organizações comunitárias e grupos de defesa do direito à habitação também questionaram a versão oficial. Denunciaram que o encerramento de edifícios como o Edge at Lowry e o Aspen Grove desalojou centenas de famílias sem resolver os problemas estruturais de habitação e abandono urbano. Para muitos destes ativistas, o discurso sobre o TdA ocultava a responsabilidade das autoridades locais e dos grandes proprietários na deterioração urbana.

Padrões que revelam a estratégia de Washington

Os discursos sobre o TdA e o narcotráfico funcionam como eixos complementares numa estratégia mais ampla com vista a criminalizar a Venezuela. Através de campanhas mediáticas, declarações políticas e operações judiciais, constrói-se a imagem de um país transformado numa ameaça hemisférica, o que permite sanções económicas, deportações em massa e possíveis ações militares sob o argumento da segurança regional.

Até mesmo um meio de comunicação como o New York Times, que está longe de simpatizar com Miraflores, revela como esses pretextos são fabricados. Após o anúncio do governo norte-americano, que afirmou ter atacado um navio acusado de partir da Venezuela e de estar ligado ao narcotráfico, o jornal cita analistas que dizem que “o governo (norte-americano) poderia usar o envio de navios e o ataque ao navio para justificar o uso da lei… especialmente se a Venezuela retaliar. ‘Então, é plausível que digam: Ah, temos este conflito em curso com a Venezuela'”, e assim estabelecer a estrutura retórica para permitir decisões mais agressivas no plano jurídico, migratório e militar.

Da guerra contra as drogas à campanha do TdA, o mesmo padrão repete-se com nomes diferentes: construção de inimigos, amplificação de crises, criação de pretextos legais e implantação de uma política de asfixia contra um Estado que não se curva aos interesses de Washington.

Fonte:

"Para quem está cansado da narrativa única." 🕵️‍♂️

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