Cuba não é um resort da caridade burguesa
Cuba sem revolução é apenas um resort
Há quem sonhe com uma Cuba sem Fidel, sem internacionalismo, sem bloqueio para denunciar. Uma Cuba limpinha, arrumadinha, onde os pobres não atrapalham a fotografia na praia. Essa Cuba existe – nos folhetos turísticos, nos cruzeiros que atracam em Varadero, na imagéns dos “renovadores” que querem salvar a ilha… da própria revolução.
Mas Cuba real não é um resort. É um país sitiado, um povo de pé, uma trincheira de mais de 60 anos. Quem não entende isto, não entende Cuba. E quem não defende a revolução, não defende Cuba – defende apenas a sua própria consciência burguesa, à beira-mar.
Nem mais uma esmola ideológica
Há quem descubra Cuba de vez em quando. Geralmente é quando a agenda mediática permite. Aparecem com um ar de superioridade moral, fazem uma ou duas declarações contra o bloqueio e julgam-se solidários.
Mas a forma como o fazem é venenosa. Porque não nasce de uma defesa intransigente da Revolução Cubana. Nasce da pose piedosa de quem gosta de Cuba… mas apenas da Cuba de Varadero. Da Cuba sem filas, sem racionamento, sem cicatrizes. Uma Cuba de resort, limpinha, onde o sofrimento não entra no enquadramento fotográfico.
É a velha táctica da fragmentação: desmontar a revolução em peças soltas, para depois escolher qual delas merece ser “salva”. Uns gostam do sistema de saúde, outros da educação, outros das praias. Mas da revolução como um todo, dessa coisa incómoda chamada socialismo, desses, poucos gostam.
Esses renovadores de ocasião inscrevem-se na longa tradição de progressistas de café que confundem solidariedade com paternalismo. Gostam de Cuba, sim, mas de uma Cuba sem revolução, sem Fidel, sem internacionalismo. Uma Cuba que cabe num folheto turístico, não numa trincheira.
Oferecem “ajuda humanitária”? Cuidado. A mesma mão que estende um medicamento é a mesma que exige “abertura política”. A mesma boca que denuncia o bloqueio é a mesma que chama “ditadura” ao governo cubano. Isto não é solidariedade. É chantagem.
Para esses progressistas, Cuba é um problema a resolver, uma causa exótica a que se pode pegar ou largar conforme a conveniência. Hoje denunciam o bloqueio; amanhã aplaudem a NATO; ontem silenciavam sobre os ataques Nazis de Kiev à Rússia.
Isto não é solidariedade. É esmola ideológica.
E Cuba não precisa de esmolas. Precisa de combatentes que a defendam sem condições, sem “mas”, sem “embora seja uma ditadura”. Porque a verdade é uma só: o bloqueio dos EUA a Cuba é um crime de lesa-humanidade, e qualquer pessoa decente deve exigi-lo sem reservas, independentemente de simpatizar ou não com o governo cubano.
Há os comunistas e os progressistas. Uma que combate o bloqueio na rua, em artigos, nas madrugadas de tradução, entrevistas e partilha. Outra que fala em “embargo”… num artigo de opinião, entre um almoço por Cuba e um comentário contra o “embargo”. Uma constrói. A outra comenta. Uma resiste. A outra posa.
O revisionismo histórico consiste exactamente em tentar desconstruir o povo do seu projecto revolucionário. Ao declarar-se “anticastrista”, insinua-se que a resistência cubana seria mais legítima se fosse contra o “regime”. Que o povo cubano precisa de ser “salvo” por quem? Pelas ONGs financiadas por Soros? Pela máquina de propaganda do império?
Este é o mesmo argumento que serviu para justificar intervenções na América Latina, o mesmo argumento que chama “embargo humanitário” ao que é, na verdade, um genocídio em câmara lenta.
A corja renovadora – que saltita de causazinha em causazinha, sempre a falar em “convergência” enquanto normaliza o pensamento único – descobriu agora Cuba. Mas Cuba não é um projecto para descobrir ao domingo. É uma trincheira diária. E nessa trincheira não há lugar para quem gosta da Cuba de apenas Varadero.
Por isso, podem guardar as lágrimas de crocodilo. Podem guardar a condescendência piedosa. Cuba não precisa que venham, nem os seus pares do progressismo de salão, dizer como se ama a Revolução.
Amor a Cuba é combater o bloqueio todos os dias, sem pedir nada em troca. É denunciar a hipocrisia dos EUA que fala em liberdade enquanto estrangula um povo. É apoiar a autodeterminação de Cuba,mesmo que o governo cubano não seja do vosso agrado pessoal.
Até aprenderem isso, fiquem nas vossas tribunas confortáveis. Fiquem com os vossos artigos entre anúncios, com as vossas lágrimas de crocodilo e a vossa solidariedade de calendário. Os que trabalham todos os dias, em silêncio, sem pedir palco nem fotografia, ficamos na trincheira.
A esses, os que não trocam Cuba por um resort em Varadero, a esses, Cuba abraça. E não pede licença a comentadores de café para o fazer.
Cuba não aceita esmolas. Cuba resiste. E Cuba vencerá.
Homenagem e Apoio Incondicional ao Povo Cubano
E, neste ponto, quero dirigir-me directamente ao povo cubano. Àqueles que, há mais de seis décadas, enfrentam o bloqueio mais longo e mais cruel da história. Àqueles que, sem petróleo, mantêm os hospitais abertos. Àqueles que, sem comida, partilham o pouco que têm. Àqueles que, mesmo no escuro, acendem uma vela, e com ela, uma esperança.
A ti, povo cubano, a minha homenagem.
Não a homenagem vazia dos discursos, nem a solidariedade de ocasião. A homenagem de quem vos acompanha todos os dias, de quem partilha as vossas vitórias e as vossas dores. A homenagem de quem sabe que a vossa luta é também a minha luta, e que a vossa resistência, camaradas, é um farol para todos os povos que recusam ajoelhar-se.
A ti, povo cubano, o meu apoio incondicional.
Não um apoio piedoso, daqueles que olham de cima. Um apoio activo, militante, diário. O apoio de quem, mesmo longe, se recusa a calar. O apoio de quem denuncia o bloqueio onde quer que esteja. O apoio de quem, gota a gota, ajuda a construir o oceano da solidariedade.
Por cada médico que opera à luz de um telemóvel.
Por cada professor que ensina sem giz.
Por cada mãe que divide o prato.
Por cada criança que aprende, à luz de uma vela, que a liberdade não se negocia.
Patria o Muerte, Venceremos!
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Paulo Jorge da Silva | Um activista português que viu, cheirou e sentiu o bloqueio. Pela soberania de Cuba. Pelo fim do cerco. Pelos milhões que, em silêncio, já decidiram de que lado estão. Porque os princípios, como Fidel ensinou, não se negoceiam.
