Isto é Cuba e são palavras de peso
O bloqueio a Cuba já se arrasta há quase sete décadas. E tem-se intensificado em função da hostilidade de diferentes administrações, desde Kennedy até Trump.
O que se passa realmente em Cuba?
Há muitos meios de comunicação, influenciadores de segunda categoria que procuram rentabilizar o seu conteúdo, coscuvilheiros, turistas que pisaram a ilha uma única vez na vida, ingratos, desiludidos, frustrados, pessoas mal-humoradas. Toda a gente tem uma opinião, toda a gente sabe, toda a gente acredita ter a razão que as comunicações digitais parecem conferir. Mas, na verdade, raramente isso corresponde às opiniões maioritárias que costumam chegar ao nosso campo de visão.
A melhor forma de dizer a verdade é com franqueza, mesmo que, por vezes, isso possa parecer cruel.
Cuba, este país onde resido e sobre o qual posso dizer algumas coisas, vive uma asfixia económica total. Uma guerra. Que se impõe ao povo através de restrições energéticas impostas pelo governo dos Estados Unidos. A este facto podemos chamar genocídio silencioso e manipulador. Sim, este último adjectivo porque se consegue que o genocídio seja manipulado a nível comunicacional, e surgem-nos na Internet, sempre que a abrimos, vídeos de pessoas com títulos como «É assim que sobrevivo um dia em Cuba». Sem mais explicação do que a necessidade, a carência e a cozinha a carvão.
Se o meu tio da aldeia ou a minha amiga italiana lerem isto, ficarão com a ideia de que os cubanos vivem muito mal e poderão até pensar que isso acontece porque o seu governo o permite e o tolera. Mas não, não é assim. Este neocapitalismo comunicacional gera ignorantes, andróides adormecidos que nem sequer questionam a camisa que têm vestida.
Por que é que tudo isto acontece e o que acarreta a guerra que o povo cubano enfrenta diariamente perante este genocídio?
As restricções energéticas impedem a realização de milhares de actividades no país, a começar pela mais grave: as intervenções cirúrgicas. As capacidades do país ficam completamente limitadas. A economia fica paralisada. E isto traduz-se em escassez, sacrifício e nos conhecidos cortes de energia.
Os serviços e a vida das pessoas deterioram-se ao terem de viver praticamente sem energia eléctrica, sem água e sem combustível, não só para se deslocarem e se transportarem, mas também para cozinhar. De facto, os bens e serviços escasseiam e o aparelho estatal não consegue recuperar o dinheiro nem assegurar um ciclo adequado do mesmo. Ou seja:
Como é que isto acontece? Perante o bloqueio imposto ao sector estatal, as pessoas recorrem ao sector privado e não ao sistema bancário nacional. Não se aceitam transferências, não há dinheiro nos multibancos… Alguém acha que isto não faz parte dos planos macabros do bloqueio para enfraquecer o governo e o seu sistema bancário?
Não tenho nada contra o sector privado, com o qual convivi e mantive uma relação de dependência durante toda a minha vida. Mais ainda, penso que, numa sociedade revolucionária, este deve colocar-se à disposição do governo e ajudar, assumir a sua responsabilidade social e impulsionar a economia. Um conceito semelhante ao que Xi Jinping vem defendendo há muitos anos.
Mas, se continuarmos a pensar no dinheiro… Onde é que ele fica?
Fica restricto a canais externos ao sistema bancário nacional e não regressa; dada a impossibilidade que o Estado cubano tem de adquirir bens e serviços no estrangeiro.
Mas agora, com as novas e miseráveis sanções do governo de Trump e dos seus abutres, o ciclo é quebrado. Porque há contentores parados nas águas caribenhas com destino a Cuba, impedidos de chegar ao seu destino. O ciclo do serviço é quebrado; porque agora os trabalhadores do sector privado também são afectados. Começa a imperar a lei da oferta e da procura, o mercado livre, e os preços do óleo vegetal e dos ovos sobem. O fluxo de alimentos fica paralisado e dificultado. E a culpa é de Cuba? O verdadeiro inimigo já tinha e tem tudo isto calculado.
Por isso, e face à crescente preocupação e às medidas tomadas pelo Departamento de Estado dos EUA no sentido de agravar a situação de extermínio em Cuba, não restou outra alternativa (o que está em plena sintonia com os tempos que vivemos, sem contar que talvez isso pudesse ter sido feito mais cedo) senão promover o investimento estrangeiro em todos os sectores do território cubano.
E porquê?
Porque precisamos de ajudar o socialismo, que, tal como qualquer outro sistema — mesmo que os analfabetos não o compreendam —, precisa do comércio.
O bloqueio a Cuba já se arrasta há quase sete décadas. E tem-se intensificado em função da hostilidade de vários governos, desde Kennedy até Trump, que foi considerado culpado de violação, mas, lamentavelmente, sem qualquer sanção. O presidente do país mais poderoso do mundo revelou-se um violador, entre outras coisas.
Para «perpectuar a perpectuidade» e os efeitos nefastos do bloqueio, foram agora aprovadas leis nacionais nos Estados Unidos, com um impacto directo na soberania de vários estados e nas liberdades das empresas e dos sistemas bancários de todos os cantos do mundo.
Actualmente, esta guerra unilateral, sobretudo na última década, tornou-se uma prática diária de um crime internacional de genocídio. Ao afectar directa e intencionalmente uma nação e o seu povo, provocando, também de forma deliberada, privações incompatíveis com a vida humana.
Ainda hoje, em Cuba, morrem crianças, deixam-se de tratar doenças terminais, a mortalidade entre os cidadãos aumenta e muitos destes indicadores duplicam ou até se multiplicam.
Esta política de décadas de crimes pretende demonstrar a capacidade de um sistema social, económico e político através da asfixia e, depois de tudo isto, fazer com que a opinião pública atribua toda a responsabilidade ao governo cubano.
E não podemos esquecer uma coisa: o poder, se não estiver associado ao desenvolvimento e ao crescimento, desgasta-se, porque começa a gerir a penúria.
A globalização do desenvolvimento tecnológico e do poder económico está cada vez mais sob a pressão dos Estados Unidos. E esta é uma nova característica que faz com que as pressões dos Estados Unidos ganhem eficácia face a Cuba e a outras nações que não respondem aos seus interesses geopolíticos. Ou seja, este novo mundo globalizado faz com que as medidas contra nações dignas tenham maior eficácia.
E chegamos a um ponto decisivo: o cansaço que se manifesta em muitos Estados por terem capacidades reais para defender a sua soberania, cedendo, de uma forma ou de outra, às exigências imperiais.
E, no que diz respeito a Cuba, como é que isto se traduz?
Ora, este genocídio só pode existir e continuará a existir devido à capacidade — forçada ou voluntária — da comunidade das nações.
Será imprescindível rebelar-se contra esta nova forma de opressão global, apenas através da união de grandes e pequenas nações que façam prevalecer os interesses dos povos. É aí que a dignidade se torna um tesouro.
Porque se todas as nações fossem minimamente dignas, este bloqueio assassino não existiria, sem dúvida. Mas há pressões que muitos não estão dispostos a assumir em prol de Cuba, sem terem em conta o que Cuba fez por eles. O reino dos céus está cheio de pessoas desagradáveis e ingratas.
Mas há uma coisa que todos têm bem clara, e aqueles que ainda não a têm, estão a começar a perceber:
Cuba não vai ceder a nenhuma pressão, mesmo que este holocausto se agrave ainda mais.
Este não é um país qualquer.
Isto é Cuba. E são palavras de peso.
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Ana Hurtado | Jornalista espanhola, realizadora de documentários e comunicadora nas redes sociais.
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