Artigos de OpiniãoPaulo Da Silva

Marcha das Tochas: da resistência clandestina à tradição revolucionária perpétua

"Como há 73 anos, acenderemos tochas na véspera do aniversário de José Martí, apóstolo da independência e do anti-imperialismo cubano”, declarou o presidente Miguel Díaz-Canel em 27 de janeiro de 2026, conectando o presente com a histórica marcha de 1953.

A escadaria da Universidade de Havana testemunhou inúmeros momentos históricos, mas nada se compara à noite de 27 de janeiro de 1953, quando, sob a ditadura opressiva de Fulgencio Batista, 300 jovens universitários desceram em silêncio carregavam tochas que iluminavam mais do que o caminho físico: iluminavam a resistência de um povo.

Entre eles marchava um jovem Fidel Castro, então líder estudantil, comandava uma coluna disciplinada que transformaria o que pretendia ser uma simples homenagem ao centenário do nascimento de José Martí em um poderoso acto de desafio político.

Num país onde a repressão assassinava dissidentes e perseguia os jovens, aquela procissão de fogo foi a única força organizada que ousou desafiar o regime em plena rua, transformando-se no ensaio geral do que meses depois seria o assalto aos quartéis Moncada e Bayamo.


O nascimento de uma tradição revolucionária

A resistência como resposta à opressão

Em 1953, Cuba vivia sob o jugo da ditadura de Fulgencio Batista. A tirania negou a autorização oficial para realizar qualquer acto comemorativo do nascimento de José Martí, mas os estudantes universitários, agrupados na Federação Estudantil Universitária (FEU), não se intimidaram.

Com uma determinação que marcaria o carácter da Revolução, liderados por figuras como Alfredo Guevara, Conchita Portela, Flavio Bravo e Léster Rodríguez, transformaram as tochas em armas de defesa simbólica e física ao cravar as pontas nelas, caso fossem atacados pelos mercenários de Batista.

Apesar da ameaça latente, a marcha avançou sem interrupção desde a escadaria da universidade até a Fragua Martiana.

A composição da marcha estava cuidadosamente organizada: as universitárias carregavam a bandeira à frente, atrás marchava o Executivo da FEU e, fechando a formação, o grupo de 300 jovens dispostos em três filas, cujos gritos de “Revolução!” ressoavam nas ruas de San Lázaro como um presságio da mudança que se aproximava.

Anos mais tarde, Fidel Castro refletiria sobre aquela noite: “Foi uma demonstração de força necessária, inclusive para o nosso próprio povo”.

O Prelúdio da Revolução

O que começou como um acto de protesto estudantil transformou-se no embrião do Exército Rebelde. Muitos desses mesmos jovens que marcharam com tochas em janeiro de 1953, meses depois, participariam no assalto aos quartéis de Moncada e Bayamo, a 26 de julho daquele mesmo ano.

A Marcha das Tochas revelou-se assim como o ensaio geral da gesta revolucionária que culminaria com a vitória de 1959.

Naquela noite, não só se prestou homenagem a Martí; ocorreu também a fusão simbólica do pensamento martiano com a acção revolucionária contemporânea, criando uma ponte ideológica entre o Apóstolo da independência e a geração que levaria a cabo a Revolução Cubana.

A continuidade de uma tradição viva

Um acto que perdura há sete décadas

Desde 1953, a Marcha das Tochas tem sido repetida todos os dias 27 de janeiro sem interrupção, mesmo durante os momentos mais difíceis do bloqueio dos Estados Unidos contra Cuba.

O que começou como um acto de resistência clandestina transformou-se numa tradição revolucionária institucionalizada, mas não por isso menos significativa.

Longe de ser um ritual folclórico ou um mero exercício de nostalgia histórica, a marcha mantém o seu carácter de acto político vivo e de afirmação colectiva. Todos os anos, novas gerações de estudantes, trabalhadores e artistas pegam nas tochas não só para recordar, mas também para reafirmar o seu compromisso com a soberania nacional e os princípios da Revolução.

Nesta terça-feira, 27 de janeiro de 2026, na véspera do 173º aniversário do nascimento de José Martí e do centenário do nascimento de Fidel Castro, milhares de jovens marcharam sob o lema “Tocha Centenária Anti-imperialista”.

A Juventude como Herdeira e Continuadora

O significado da marcha expandiu-se com o tempo. Em 2026, a comemoração incorpora um novo elemento simbólico: o centenário do nascimento de Fidel Castro.

Miguel Díaz-Canel, presidente de Cuba, destacou essa dualidade comemorativa nas suas declarações antes do evento: “Esta noite, outra motivação nos une: marchamos pelo Centenário de #Fidel, desde a Universidade onde ele se tornou revolucionário”.

Esta evolução demonstra como a tradição não permanece estática, mas sim incorpora novas camadas de significado, mantendo a sua essência original como expressão de resistência e afirmação nacional.

As novas gerações já não marcham apenas para homenagear Martí, mas também para reivindicar o seu lugar na continuidade histórica da Revolução, carregando as tochas como símbolo de um compromisso que se renova anualmente.

Significado no contexto actual

Um símbolo em tempos de bloqueio e sanções

Num contexto de intensificação do bloqueio económico, financeiro e comercial imposto pelos Estados Unidos, a Marcha das Tochas adquire um significado estratégico contemporâneo.

A administração Trump implementou mais de 240 medidas coercivas contra Cuba, incluindo sanções extraterritoriais que afectam países terceiros, criando uma situação económica extremamente difícil para a ilha.

Neste cenário, a marcha anual transcende o seu valor histórico para se tornar uma afirmação colectiva de soberania e resistência face à pressão externa.

Não é por acaso que o lema de 2026 seja “Tocha Centenária Anti-imperialista”, uma lembrança explícita de que, sete décadas após a sua criação, a marcha mantém o seu carácter contestatório contra o imperialismo.

A continuidade ideológica de Martí a Fidel

A marcha estabelece uma ponte ideológica directa entre José Martí, apóstolo da independência cubana e principal expoente do anti-imperialismo no século XIX, e Fidel Castro, líder da Revolução que concretizou no século XX a soberania plena com que Martí sonhava.

Essa continuidade reflecte-se não só no discurso oficial, mas também na consciência colectiva dos participantes, que reconhecem na chama das tochas um símbolo da persistência das ideias revolucionárias ao longo das gerações.

Como escreveu Martí, “a pátria é um altar, não um pedestal” — um altar de sacrifício e dedicação, não um pedestal para a vaidade pessoal. A Marcha das Tochas materializa essa concepção, transformando o espaço público nesse altar onde se renova anualmente o compromisso com a nação.

Uma Tradição para o Futuro

A Marcha das Tochas representa muito mais do que um evento comemorativo anual. É a materialização viva da continuidade revolucionária cubana, uma ponte que liga as lutas independentistas do século XIX à resistência contemporânea contra o bloqueio.

A sua permanência ao longo de 73 anos ininterruptos demonstra o seu profundo enraizamento na identidade nacional e a sua capacidade de se adaptar a diferentes contextos históricos sem perder a sua essência original.

Para as novas gerações de cubanos, participar nesta tradição não é um acto de mera repetição ritual, mas uma afirmação activa do seu papel como herdeiros e continuadores de um projecto nacional que se redefine constantemente, mantendo os seus princípios fundamentais.

As tochas que iluminam a escadaria da universidade todos os dias 27 de janeiro não apenas iluminam o passado glorioso da nação, mas também iluminam o caminho para o futuro, lembrando que, em Cuba, a tradição revolucionária continua viva, adaptando-se aos novos tempos enquanto mantém intacta a sua chama fundadora.

Como conclui o relato contemporâneo desta tradição: “A tocha não ilumina o passado: ela ilumina o caminho a seguir.

Enquanto o império tenta extinguir, uma vez mais, a chama da soberania cubana, a Marcha das Antorchas recorda-nos que há um fogo que nem 73 anos de bloqueio conseguiram apagar.

Paulo Jorge da Silva: Um militante português com o coração dividido entre duas trincheiras. Pela soberania de Cuba. Pelo fim do bloqueio. Pela humanidade que resiste.

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