
“Olivosgate”: Governo de Milei enfrenta investigação por desvio de fundos
A demissão da subsecretária María Belén Agudiez revela uma rede de nepotismo, compras desproporcionadas de alimentos para uma empresa privada e o aproveitamento de um reformado em situação vulnerável para faturar mais de 600 milhões de pesos ao Estado.
O Governo argentino oficializou esta segunda-feira no Boletim Oficial, através do Decreto n.º 1055/2026, a demissão da subsecretária de Planeamento Geral da Presidência, María Belén Agudiez, uma das colaboradoras mais próximas de Karina Milei, secretária-geral da Presidência e irmã do presidente.
A demissão surge na sequência de um escândalo crescente de nepotismo, desvio de fundos públicos e utilização da Quinta Presidencial de Olivos para negócios privados, denunciado junto do Tribunal Federal pela deputada e jornalista Marcela Pagano — que abandonou as fileiras do partido no poder, «La libertad Avanza», em agosto de 2025.
O caso, apelidado de «Olivosgate» pela imprensa argentina, tentou ser abafado nos dias anteriores com a demissão do pessoal civil da residência presidencial e a transferência das funções para a Casa Militar, alegando motivos de segurança.
Los números no cierran. En Olivos se consume 4 veces más dulce de leche y 3 veces más mostaza que en la Rosada, según las compras de @KarinaMileiOk . Extraño ya que por la Rosada circulan 50 veces más personas que en la Residencia presidencial… (abro hilo)
— Marcela Pagano (@Marcelampagano) September 21, 2026
Agudiez, responsável pela gestão operacional da residência do presidente, criou uma rede de contratações de familiares ao nomear o seu cunhado, Osvaldo Javier Sosa, como administrador da propriedade (que também foi destituído do cargo), além de empregar a sua mãe, irmã e primos em tarefas de manutenção e administração.
As investigações judiciais, a cargo do 12.º Tribunal, presidido por Julián Ercolini, e do procurador Eduardo Taiano, incidem sobre o desvio de bens públicos e o crime de peculato de serviços para beneficiar a «Pancitos Caseros», uma empresa privada de catering gerida pela família da ex-funcionária.
Desvio em grande escala de alimentos e fornecedores fantasmas
A investigação criminal revelou compras desproporcionadas por parte da Secretaria-Geral da Presidência, entre as quais se destaca um concurso público para a aquisição de 29 505 quilogramas de carne de vaca, frango, porco e peixe destinados à Casa Rosada e a Olivos durante um período de seis meses.
De acordo com a denúncia, grande parte destes alimentos de qualidade premium não chegava à mesa presidencial, mas abastecia directamente as operações do serviço de catering privado, cujos eventos eram assegurados por pessoal civil da residência estatal ao abrigo de apólices de seguro pagas pelo Estado.
Los números no cierran. En Olivos se consume 4 veces más dulce de leche y 3 veces más mostaza que en la Rosada, según las compras de @KarinaMileiOk . Extraño ya que por la Rosada circulan 50 veces más personas que en la Residencia presidencial… (abro hilo)
— Marcela Pagano (@Marcelampagano) September 21, 2026
A deputada Pagano apresentou documentação sobre a utilização de um reformado em situação de extrema vulnerabilidade social como testa-de-ferro, que foi falsamente registado como fornecedor do Estado para facturar à Presidência montantes superiores a 600 milhões de pesos (cerca de 396 mil dólares).
O processo judicial abrange ainda concursos públicos irregulares na área da jardinagem, no valor de 700 milhões de pesos (462 mil dólares) adjudicados a sócios da família Agudiez, contratações duvidosas de carrinhos de golfe e compras milionárias de ambientadores de uma marca que a própria ex-subsecretária comercializava.
Militarização do recinto e protecção política
Perante o desenrolar do chamado «Olivosgate», o presidente Javier Milei ordenou a demissão do pessoal civil da residência e entregou o controlo total da segurança e da administração à Casa Militar.
Embora a versão oficial tenha tentado justificar a medida por razões estritamente de segurança e até mesmo por uma eventual visita papal, a purga teve como objectivo disfarçar a expulsão do intendente Sosa e restringir o acesso à residência, numa ação descrita por Pagano como uma tentativa de isolar o chefe de Estado sob o controlo directo da sua irmã.
A queda de Agudiez afecta a estrutura de Karina Milei, cujo círculo está a enfrentar acusações de subornos de 3% em contratos da Agência Nacional para a Deficiência (ANDIS), do enriquecimento ilícito do ex-porta-voz Manuel Adorni, bem como de irregularidades na gestão da Tecnópolis.
Os funcionários despedidos e a ex-funcionária estão sujeitos a acordos de confidencialidade com a duração de 90 dias, que os impedem de fazer declarações públicas, enquanto as redes sociais da empresa familiar foram eliminadas na sequência da exigência de demissão da alta funcionária
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