Venezuela

Por trás da denúncia politizada dos EUA contra Maduro

Uma "rede" criada pela CIA e uma testemunha principal coagida

A acusação do Departamento de Justiça contra o líder sequestrado da Venezuela, Nicolás Maduro, é uma diatribe política que se baseia significativamente no testemunho coercivo de uma testemunha pouco confiável. Apesar das edições do Departamento, ela pode expor mais americanos à própria história de tráfico de drogas da CIA.

O ataque militar norte-americano de 3 de janeiro contra a Venezuela, com o objectivo de sequestrar o presidente Nicolás Maduro e a primeira-dama Cilia Flores, foi seguido pela publicação da acusação do mesmo dia que substitui a inicial do Departamento de Justiça (DOJ, na sigla em inglês) contra os dois sequestrados, bem como o seu filho, Nicolás Maduro Guerra, e dois aliados políticos próximos: o ex-ministro do Interior Ramón Rodríguez Chacín e o actual ministro da mesma pasta, Diosdado Cabello. O DOJ também incluiu na lista de acusados o líder do Tren de Aragua (TDA), Héctor «Niño» Guerrero, colocando-o no centro da narrativa.

A acusação resume-se a 25 páginas de uma diatribe acusando Maduro e Flores de conspiração para traficar «milhares de toneladas de cocaína para os Estados Unidos», baseando-se consideravelmente em depoimentos de testemunhas coagidas sobre supostos envios que, em grande parte, ocorreram fora da jurisdição dos Estados Unidos. Acusa Maduro de «ter-se associado a narcoterroristas» como o TDA, ignorando avaliações recentes dos serviços secretos que concluíram que ele não tinha controlo sobre o grupo venezuelano. Por fim, a acusação agrava a imputação ao acusar Maduro de «posse de metralhadoras», um crime ridículo que poderia facilmente ser aplicado a centenas de milhares de americanos apaixonados por armas sob uma lei antiquada de 1934.

Os procuradores do DOJ cuidadosamente evitam dados precisos sobre as exportações de cocaína venezuelana para os Estados Unidos. Em determinado momento, eles descrevem «toneladas» de cocaína; em outro, referem-se a remessas de «milhares de toneladas», um número astronómico que hipoteticamente poderia gerar centenas de milhares de milhões em receitas. Em nenhum momento mencionam o fentanilo, a droga responsável pela morte por overdose de quase 50 mil norte-americanos em 2024. Na verdade, a «Avaliação Nacional de Ameaças de Drogas» da DEA emitida sob a administração Trump este ano mal menciona a Venezuela.

Ao recorrer a uma linguagem vaga e deliberadamente expansiva, repleta de termos subjectivos como «corrupto» e «terrorismo», o DOJ construiu mais uma narrativa política contra Maduro do que um caso jurídico concreto. Embora se refira repetidamente ao presidente como «o governante ilegítimo e de facto do país», não consegue demonstrar que de jure ele é precisamente isso sob as leis venezuelanas e, portanto, não será capaz de contornar precedentes legais internacionalmente estabelecidos que lhe concedem a imunidade conferida aos chefes de Estado.

Além disso, a acusação depende de testemunhas claramente não confiáveis e coagidas, como Hugo «El Pollo» Carvajal, um ex-general venezuelano que chegou a um acordo secreto para reduzir a sua pena por tráfico de drogas, comprometendo o caso contra Maduro. Carvajal era considerado uma figura-chave da chamada rede de narcotráfico do “Cartel dos Sóis”, que o DOJ alega ser dirigida por Maduro. Se ele comparecesse para testemunhar contra o líder venezuelano sequestrado, o público americano poderia descobrir que o “cartel” não foi fundado pelo presidente venezuelano deposto ou por algum de seus aliados, mas pela CIA, para traficar drogas nas cidades americanas.

Por mais malfeita e politizada que possa ser a acusação, isso permitiu a Trump enquadrar a sua «Doutrina Donroe» como uma política agressiva de acção policial, encorajando o presidente norte-americano a lançar mais ameaças de sequestro ou eliminação de chefes de Estado que se interpõem no seu caminho de desenfreada busca por recursos. Este parece ser o verdadeiro objetivo do espetáculo no tribunal imperial que está por vir.

Usando o boato do “narco-terrorismo” como arma

O peso do caso contra Maduro repousa sobre a denúncia de que os acusados «se envolveram em tráfico de drogas, incluindo em associação com grupos narcoterroristas». De acordo com o DOJ, Maduro conspirou com o TDA, bem como com os cartéis mexicanos de Sinaloa e os Zetas para traficar entre 2003 e 2011. No entanto, esses cartéis não tinham sido designados como organizações terroristas estrangeiras pela administração Trump até fevereiro de 2025, uma manobra obviamente concebida para justificar o sequestro de Maduro e dar mais peso à acusação.

Na sua tentativa de condenar Maduro, o DOJ irá, sem dúvida, lutar para superar a conclusão alcançada num memorando de 7 de abril de 2025grande operação militar-policial em 2023 na prisão de Tocorón, que servia como base de operações da gangue. Um relatório da InSight Crime, organização financiada pelo Departamento de Estado, também complica o caso do DOJ, revelando que «poucos crimes atribuídos a membros do suposto Tren de Aragua nos Estados Unidos parecem ter conexão com o grupo ampliado ou sua liderança na Venezuela».

De facto, muitos dos supostos crimes pelos quais Maduro é acusado ocorreram fora das fronteiras e da jurisdição dos Estados Unidos. O DOJ alega, por exemplo, que em setembro de 2013 «funcionários venezuelanos despacharam aproximadamente 1,3 toneladas de cocaína num voo comercial do aeroporto de Maiquetía para o Charles de Gaulle, em Paris».

Em 2018, cinco cidadãos britânicos foram condenados num tribunal francês por orquestrar o envio de drogas com a ajuda de membros de gangues colombianas e italianas, mas não venezuelanas. Na altura do incidente, o governo de Maduro reconheceu que funcionários corruptos de baixo escalão permitiram a passagem de drogas pela segurança do aeroporto. Caracas acabou por prender 25 pessoas, incluindo militares e o administrador da Air France, um facto proeminente omitido da acusação.

A prova do envolvimento de Maduro no escândalo, segundo o DOJ, era que o envio de drogas ocorreu «apenas alguns meses depois de Maduro assumir a presidência da Venezuela». Não foi apresentada qualquer outra prova para demonstrar a sua culpa.

A denúncia alega que Maduro «facilitou o movimento de aviões privados sob cobertura diplomática» para evitar o escrutínio policial ao aterrar no México. Citando um testemunho sob coacção de um desertor do governo, acusa Diosdado Cabello de coordenar o embarque de 5,5 toneladas de cocaína num jacto DC-9 para o México. Nenhuma dessas alegações resistirá num tribunal norte-americano.

Como explicou a defensora pública e analista jurídica Eliza Orlins, «os voos que ocorrem inteiramente dentro da Venezuela não cruzam o espaço aéreo dos Estados Unidos, não afectam o território alfandegário dos Estados Unidos e, por si só, não violam a lei dos Estados Unidos. A acusação tenta impulsionar esses movimentos domésticos dentro da jurisdição criminal dos Estados Unidos, alegando que a cocaína envolvida estava, em última instância, destinada aos Estados Unidos. A intenção dolosa aqui faz todo o trabalho».

Como a maioria dos incidentes específicos citados ocorreu no México durante os governos de Vicente Fox, Felipe Calderón e Enrique Peña Nieto, o DOJ involuntariamente implica essas três administrações pró-EUA, que moldaram as políticas sobre narcóticos em coordenação com Washington. De facto, o principal responsável pela polícia durante os primeiros anos desses dois governos, o antigo chefe da Agência Federal de Inteligência Genaro García Luna, foi condenado num tribunal federal em 2023 por liderar uma conspiração multimilionária com o cartel de Sinaloa. O ex-embaixador no México, Robert Jacobson, reconheceu que os Estados Unidos sabiam das ligações de García Luna com os cartéis, mas insistiu que «tivemos que trabalhar com ele».

O duplo padrão hondurenho

O DOJ também implica que o governo pró-americano do ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, referindo-se a Honduras como um ponto de «transbordo» no qual «os traficantes de cocaína que operavam nesses países pagavam uma parte dos seus próprios lucros aos políticos que os protegiam e ajudavam». Hernández foi condenado por um tribunal federal em 2023 por traficar mais de 400 toneladas de drogas para os Estados Unidos, mas em dezembro deste ano recebeu um perdão do presidente Donald Trump após uma campanha de lobby dos principais doadores de Trump que buscavam manter o paraíso criptográfico desregulamentado de Próspera na costa de Honduras.

Durante a sua conferência de imprensa de 3 de janeiro, ao anunciar o sequestro de Maduro e da sua esposa, Trump defendeu agressivamente a decisão de perdoar Hernández, alegando que ele tinha sido «julgado de forma muito injusta». Mas o mesmo procurador do Departamento de Justiça que redigiu a acusação original de 2020 contra Maduro, o lealista de Trump Emil Bove, foi responsável pela acusação de Hernández. Em contraste com o caso de Maduro, a denúncia continha evidências concretas de sua colaboração com grandes cartéis transnacionais, incluindo provas fotográficas e audiovisuais, conforme detalhado por Anya Parampil e Alexander Rubinstein para o The Grayzone.

Hernández implorou a Trump por seu caso em uma carta de 2025, afirmando que havia sido submetido a um “julgamento fraudulento” e condenado “com base em declarações não comprovadas de traficantes de drogas condenados”.

A sua alegação questionável também se aplica ao processo do DOJ contra Maduro, quando muitas das alegações mais dramáticas contidas na sua acusação são retiradas de um narcotraficante condenado que fez um acordo secreto com os promotores para reduzir a sua pena em troca de testemunhar contra Maduro: o ex-general venezuelano Hugo «El Pollo» Carvajal.

Testemunha-chave coagida chega a acordo secreto com procuradores norte-americanos

Chefe da inteligência militar durante o governo de Hugo Chávez, de 2004 a 2011, Carvajal é citado sete vezes na denúncia de 3 de janeiro como testemunha de supostas acções criminosas de Maduro e seu círculo interno. Carvajal foi preso pela primeira vez em 2014 em Aruba sob essas acusações, mas foi devolvido à Venezuela, para grande descontentamento das autoridades americanas. Em 2017, enquanto enfrentava duas acusações nos Estados Unidos, o general repentinamente se voltou contra Maduro, a quem denunciou como ditador. Carvajal chegou a apoiar abertamente o projecto de mudança de regime da «presidência interina» de Juan Guaidó — controlada pelos Estados Unidos — em 2019, apresentando-se como um desertor corajoso enquanto lucrava com Washington com seu suposto conhecimento do estado profundo venezuelano.

Naquele mesmo ano, enquanto Carvajal buscava asilo em Espanha, os Estados Unidos exigiram formalmente que Madrid o entregasse. Agora, enfrentando a possibilidade de extradição, concedeu uma série de entrevistas «reveladoras» a meios de comunicação como o New York Times, fazendo o possível para legitimar virtualmente cada uma das acusações que a administração Trump pretendia usar contra Maduro.

O então senador Marco Rubio mal conseguia conter a sua excitação com a perspectiva de pressionar um «insider» chavista para que testemunhasse num futuro caso contra Maduro. Carvajal «em breve virá aos Estados Unidos para oferecer informações importantes sobre o #RégimenDeMaduro», tuitou Rubio em 12 de abril de 2019. «Um dia ruim para a #FamíliaCriminosaDeMaduro».

Foi somente em 2023 que Carvajal finalmente foi extraditado e julgado pelo tribunal do Distrito Sul de Nova Iorque. Depois de se declarar culpado de «narcoterrorismo» em junho de 2025, o Miami Herald noticiou que ele havia chegado a um acordo que lhe concederia «uma redução considerável da pena se oferecesse ‘assistência substancial’ às investigações americanas».

O acordo secreto de Carvajal revela o jogo que ele tem jogado desde que surgiu pela primeira vez como desertor. Suas alegações contra Maduro foram feitas sob pressão, todas destinadas a satisfazer seus futuros carcereiros nos Estados Unidos. Desde então, ele tem agradado uma das teorias da conspiração de Trump ao acusar, numa carta de junho de 2025 ao presidente norte-americano, que Maduro, através do sistema de votação Smartmatic, teria manipulado as eleições presidenciais de 2020 a favor de Biden.

A indulgência descarada com Trump e o acordo secreto podem destruir a sua credibilidade como testemunha contra Maduro.

Na acusação de 3 de janeiro contra Maduro, o DOJ afirmou que Carvajal e Diosdado Cabello «trabalharam com outros membros do regime venezuelano» para «coordenar o envio» de 5,5 toneladas de cocaína do aeroporto internacional Simón Bolívar para Campeche, no México, num jacto particular em 2006. Este incidente continua a ser uma fonte de intensa intriga, uma vez que a propriedade do jacto DC-9 está em nome de duas empresas obscuras aponta na direcção da inteligência americana.

Embora os detalhes sobre o potencial envolvimento secreto do governo dos Estados Unidos no envio da droga em 2005 continuem obscuros, é um facto comprovado que a CIA fundou e operou o «Cartel dos Sóis», que o Departamento de Justiça agora acusa Maduro, Cabello e outras figuras políticas de alto nível de controlar.

Cartel dos Sóis: criado pela CIA, transformado em arma pelo Departamento de Justiça

Na acusação original contra Maduro, o DOJ acusa-o explicitamente de liderar um cartel de tráfico de drogas chamado «Cartel dos Sóis», referindo-se a ele mais de 30 vezes.

A versão revista, divulgada a 3 de junho, afirma que «a partir de 1999, a Venezuela tornou-se um refúgio seguro para os traficantes de droga dispostos a pagar pelo apoio e protecção de funcionários civis e militares venezuelanos, que operavam fora do alcance da polícia e das forças armadas colombianas, apoiados pela assistência antinarcóticos dos Estados Unidos».

E continua: «Os lucros dessa actividade ilegal fluíram para funcionários civis, militares e de inteligência de baixo escalão, que operam sob o sistema de clientelismo conduzido por aqueles no topo, referidos como o Cartel dos Sóis».

A rede informal de militares corruptos foi, na verdade, criada pela CIA durante os governos pró-EUA da Venezuela nas décadas de 80 e 90. Esta verdade incómoda foi apresentada aos americanos não por um dissidente tagarela, mas pelo New York Times e por Mike Wallace em revelações do programa 60 Minutes transmitido em 1993.

Três anos antes, funcionários da alfândega americana interceptaram um carregamento de quase mil quilos de cocaína pura proveniente da Venezuela. Mas os seus superiores no governo informaram-nos que o carregamento tinha sido aprovado por Langley. De acordo com o Times, a CIA pretendia permitir que a cocaína «entrasse nos Estados Unidos sem ser apreendida, para não levantar suspeitas. A ideia era reunir o máximo de informações possível sobre os membros das gangues de narcotraficantes».

«Eu realmente me oponho ao facto de que 1000 quilos entraram, financiados pelo dinheiro dos contribuintes americanos», disse a adida da DEA para a Venezuela na época, Annabelle Grimm, ao programa 60 Minutes. «Acho isso particularmente assustador».

Para organizar os envios da Venezuela, a CIA recrutou generais da Guarda Nacional venezuelana que foram treinados pelos Estados Unidos. Como os oficiais da Guarda usavam emblemas com o símbolo do sol nos uniformes, a rede informal de tráfico de drogas foi apelidada de «Cartel dos Sóis».

Nos anos após a exposição do cartel da CIA nos meios de comunicação norte-americanos, ele desapareceu completamente do público, apenas para ressurgir quando o governo norte-americano começou a perseguir o general Carvajal, que em breve poderá aparecer como a testemunha-chave contra Maduro. Embora a corrupção esteja presente no exército venezuelano, há poucas evidências de algo semelhante ao Cartel dos Sóis nas suas fileiras.

Como Phil Gunson, analista do International Crisis Group sediado em Caracas, disse à CNN: «O Cartel dos Sóis, por si só, não existe. É uma expressão jornalística criada para se referir ao envolvimento das autoridades venezuelanas no tráfico de drogas».

Um ex-funcionário de alto escalão dos Estados Unidos ecoou as palavras de Gunson, descrevendo-o como «um nome inventado usado para descrever um grupo ad hoc de oficiais venezuelanos envolvidos no tráfico de drogas na Venezuela. Não tem a hierarquia ou a estrutura de comando e controlo de um cartel tradicional».

O funcionário disse à CNN que a DEA ou a Agência de Inteligência de Defesa (DIA) forneceram a Trump uma avaliação «puramente política» do cartel para apoiar o seu ataque à Venezuela.

A divulgação de documentos que será concedida à defesa no julgamento de Maduro e Flores corre o risco de envergonhar severamente o governo dos EUA, ao revelar mais provas sobre o tráfico de drogas pela CIA. Isso pode ser o motivo pelo qual o DOJ suavizou sua linguagem sobre o Cartel dos Soles, referindo-se a ele na acusação de 3 de janeiro como uma mera “rede de patronato” em vez de uma organização criminosa coesa, e mal o mencionou duas vezes.

Durante as suas primeiras aparições no tribunal no início do dia, o líder venezuelano sequestrado foi autorizado a falar por um breve momento. «Sou inocente. Sou um homem decente. Sou presidente…», disse Maduro antes de ser interrompido pelo seu advogado.

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