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teleSUR: 20 anos como bússola informativa da Grande Pátria

Uma viagem pelas duas décadas da teleSUR na tarefa de colocar os povos da América Latina e do Caribe no centro da narrativa mundial.

Num panorama informativo global dominado por grandes corporações que impõem narrativas e agendas sobre a opinião pública global, a teleSUR, emissora multi estatal, comemora em 2025 os seus primeiros 20 anos de existência como uma plataforma multimédia surgida com a vocação de colocar a América Latina, o Caribe e os povos do Sul Global no centro da construção do sentido do mundo contemporâneo.

Desde o seu início, o meio de comunicação consolidou-se não apenas como um canal de notícias, mas como um espaço cultural e informativo que desafia a ordem estabelecida, com uma perspectiva crítica e solidária de uma região que resiste ao imperialismo, com a missão de “promover os processos de união dos povos do Sul”.

A sua trajectória evidencia uma visão emancipatória diante das tentativas de subordinar os povos, na batalha constante pela soberania informativa. Isso sem perder de vista as raízes que sustentam o projeto. Nas palavras da presidente da teleSUR, Patricia Villegas, não se deve esquecer «de onde viemos e quem somos».

Esses 20 anos implicaram superar imensos desafios, que foram desde transformações tecnológicas até ciberataques virulentos, mas a plataforma resiste e mantém-se como uma bússola mediática para a Grande Pátria, anseio dos libertadores como Bolívar, Sucre e Miranda, tanto dos comandantes Fidel Castro e Hugo Chávez. Sempre fiel ao seu lema “O nosso norte é o sul”.

Ao longo de duas décadas, a teleSUR foi testemunha e cronista de acontecimentos históricos de grande relevância mundial, desde processos revolucionários e levantes populares até eventos desportivos e culturais, sempre com um olhar crítico e comprometido, ao mesmo tempo que atravessado pelo sentimento popular.

O seu trabalho tem sido fundamental para contrariar as versões tendenciosas dos grandes meios de comunicação internacionais, oferecendo voz e visibilidade a sectores historicamente marginalizados.

Hoje, ao completar 20 anos, a teleSUR celebra as suas conquistas, mas também reflecte sobre o seu papel num mundo midiático em constante evolução, marcado pela digitalização, pela inteligência artificial e pela chamada “ditadura do algoritmo”.

Um sonho transformado em luta

As ideias fundadoras da teleSUR tiveram a sua origem em vários marcos históricos, um dos quais foi o golpe de Estado contra Chávez em 2002, um evento que não foi apenas uma tentativa de derrubada política, mas também um “golpe comunicacional”, segundo Patricia Villegas Marín, presidente da multimédia desde 2011. Este facto sublinhou a necessidade de contar com uma plataforma própria que narrasse a realidade da América Latina e das Caraíbas sem o filtro dos grandes conglomerados mediáticos.

Assim, em janeiro de 2005, sob a jurisdição do Ministério do Poder Popular para a Comunicação e a Informação da Venezuela, foi fundada a La Nueva Televisión del Sur C.A., iniciando oficialmente as suas transmissões a 24 de julho desse ano a partir do Teatro Teresa Carreño, em Caracas. O projecto foi inicialmente integrado pelas revoluções de Cuba e Nicarágua e contou com o apoio de vários governos progressistas da região, como Uruguai, Bolívia e Argentina.

A teleSUR nasceu com o objectivo de oferecer uma alternativa informativa que reflectisse as riquezas espirituais, culturais e políticas dos povos latino-americanos e caribenhos, promovendo o conceito da “Patria Grande”. O seu lançamento coincidiu com um período de grandes transformações na região, marcado pela chegada ao poder de governos progressistas em vários países e processos de integração como a ALBA, a PetroCaribe e o Banco do Sul.

A relevância da iniciativa consolidou-se em eventos posteriores, como a cobertura do golpe de Estado contra Manuel Zelaya em Honduras em 2009, momento que demonstrou a necessidade de um meio de comunicação como a teleSUR para contrariar as versões manipuladas por Washington e destacou a importância de dar voz aos sectores oprimidos. Como observou Patricia Villegas, “o nosso sinal recebeu ataques de todos os tipos e tivemos que resistir, como fez a Revolução cubana em todos esses anos”.

20 anos de histórias

Hoje, 20 anos após a sua criação, a teleSUR enfrenta um mundo mediático radicalmente transformado. As plataformas digitais, a inteligência artificial e a chamada “ditadura do algoritmo” configuram um ambiente complexo onde a batalha pela narrativa se intensifica. 

Numa recente edição especial da Mesa Redonda transmitida pela televisão cubana, a presidente da multiplataforma, Patricia Villegas Marín, juntamente com o ministro da Cultura da Venezuela, Ernesto Villegas Poljak, e o jornalista Ignacio Ramonet, reflectiram sobre o passado, o presente e o futuro da multiplataforma.

Segundo Patricia Villegas, o desafio actual reside em adaptar-se às novas tecnologias sem perder os princípios que sustentam o seu trabalho. “Poderíamos viver dos prémios e reconhecimentos, mas tudo está por fazer, apesar de tudo o que foi feito nestes anos”, afirmou. Por sua vez, o ministro Villegas Poljak foi mais longe ao salientar: “Se a teleSUR não existisse, teria de ser inventada. A história teria exigido a existência de uma ferramenta como esta”.

Neste contexto, Patricia Villegas enfatizou que a teleSUR deve “assinar um contrato com a esperança”, não como uma ficção, mas porque “no mundo sempre há esperança, e tudo o que vemos é o apocalipse nos meios de comunicação”.

Além da tecnologia, Patricia Villegas Marín destaca a importância do trabalho colaborativo e da construção de redes com plataformas locais e comunitárias para elaborar agendas comuns. O objectivo permanece: contrariar a “hegemonia» dos grandes meios de comunicação através da cooperação e da colectividade, levando a comunicação para as ruas, «cara a cara com o povo”, além das redes sociais e da internet.

Resistindo a sanções, ataques e críticas, a teleSUR continua a operar com sede em Caracas e em Havana, apoiada principalmente pelos governos de Cuba, Nicarágua e Venezuela, após a saída da Argentina em 2016 e do Uruguai em 2020. O seu sinal em alta definição, lançado em 2017, e a sua versão em inglês, iniciada em 2014, ampliam o seu alcance. Enquanto isso, a multiplataforma soma presença nas redes sociais, na web e também em chats conversacionais como Whatsapp e Telegram.

O compromisso continua firme com a construção de uma comunicação a partir do sul, com esperança, resistência e amor pela humanidade. Como expressa Patricia Villegas Marín, a plataforma representa uma marca que encarna um valor que, se for distorcido ou relativizado, “vamos perder muito mais do que não ter likes”. Nas palavras de Ramonet, a Telesur está “na vanguarda de uma leitura diferente” do mundo, “é o olhar do Sul Global sobre este mundo tal como ele está construído”.

A notícia da morte do presidente venezuelano Hugo Chávez, em 5 de março de 2013, chocou o mundo, especialmente a América Latina e o Caribe. A Telesur, que nasceu impulsionada pela visão de Chávez sobre a necessidade de uma comunicação alternativa, tornou-se o principal canal para narrar esse momento transcendental da história contemporânea latino-americana.

A abordagem do meio de comunicação foi profundamente humana, mostrando a dimensão política do legado e sua conexão com os sectores mais humildes da sociedade. A multiplataforma documentou como milhões de pessoas na América Latina e no mundo prestaram homenagem a um líder que marcou uma época de transformações sociais e políticas na região.

Essa cobertura também significou um momento de reflexão para a teleSUR sobre o seu próprio papel no ecossistema mediático. A multiplataforma demonstrou a sua capacidade de narrar eventos de grande relevância histórica com sensibilidade, profundidade e uma abordagem que priorizava a perspectiva dos povos em detrimento das interpretações elitistas.

Em 25 de novembro de 2016, o mundo recebeu a notícia do falecimento do comandante Fidel Castro, figura icónica da Revolução cubana e referência histórica do Sul Global. Para a teleSUR, este evento marcou outro momento crucial na sua trajetória, já que Fidel foi um dos impulsionadores intelectuais do projecto mediático desde o seu início.

A cobertura durante o período de luto nacional em Cuba foi especialmente significativa. A partir de Havana, os correspondentes da teleSUR documentaram a comovente despedida do “Comandante em Chefe”, recolhendo testemunhos de líderes latino-americanos, intelectuais e cidadãos comuns que expressaram a sua admiração pelo líder revolucionário.

A eleição de Jorge Mario Bergoglio como Papa Francisco em 2013 marcou um marco na história da Igreja Católica, especialmente pela sua abordagem progressista e ênfase na justiça social. A teleSUR acompanhou de perto o pontificado de Francisco, destacando suas mensagens sobre pobreza, migração e proteção do meio ambiente, que tiveram grande repercussão na América Latina.

As câmaras da multiplataforma registraram as viagens papais à América Latina, onde Francisco abordou temas como a desigualdade social, a violência e a necessidade de uma “Igreja em saída”. A perspetiva da teleSUR, sensível às mensagens de Francisco sobre a “cultura do descarte” e o seu apelo para construir uma “economia a serviço da vida”, destacou como o pontificado ofereceu uma alternativa moral ao neoliberalismo e deu protagonismo aos povos da América Latina.

A cobertura da crise climática e da histórica Cimeira do Clima de Paris em 2015 foi fundamental para visibilizar a dimensão política das alterações climáticas.

Na sua tarefa de estar perto dos verdadeiros protagonistas dos acontecimentos, a teleSUR documentou como as comunidades mais vulneráveis são as que enfrentam mais diretamente as consequências do aquecimento global.

Através de entrevistas com activistas climáticos, cientistas e líderes comunitários, foi criada uma narrativa que conecta a crise ambiental às desigualdades sociais e económicas. A multiplataforma enfatizou como o Sul Global, que menos contribuiu para as emissões de gases de efeito estufa, é quem enfrenta as consequências mais graves das alterações climáticas.

O caso do desaparecimento forçado dos 43 estudantes da Escola Normal Rural de Ayotzinapa em 2014 tem sido acompanhado sem pausa pela teleSUR. Dez anos após o ocorrido, a multiplataforma continua ao lado dos familiares dos estudantes para alcançar a verdade e a justiça.

A cobertura da teleSUR tem sido fundamental para manter viva a memória e questionar as versões oficiais dos governos mexicanos anteriores. Uma das conquistas mais significativas da teleSUR em relação a Ayotzinapa foi o apoio à produção de documentários como “Ayotzinapa, Memória, Resistência”, que foi distinguido com o Prémio Breach-Valdez. A multiplataforma utilizou esses trabalhos para visibilizar a persistência da impunidade e a necessidade de continuar exigindo justiça.

A cobertura da teleSUR sobre os movimentos feministas foi pioneira em dar voz às lutas das mulheres a partir de uma perspectiva latino-americana e global. A multiplataforma esteve sempre presente em momentos chave, como o movimento “Ni Una Menos” na Argentina e a posterior greve internacional das mulheres em 8 de março de 2017.

As reportagens destacaram como o feminismo latino-americano se tornou uma força transformadora na região, mobilizando milhões de mulheres em demanda por igualdade salarial, fim da violência machista, direito de decidir sobre seus corpos e reconhecimento do trabalho de cuidados.

A cobertura da Telesur sobre a vida e a morte de Diego Maradona foi profundamente simbólica, já que o jogador de futebol argentino representava muito mais do que um desportista: era um ícone cultural e político que encarnava a resistência do povo latino-americano contra as estruturas de poder.

Os materiais produzidos pela multimédia exploraram como Maradona, a partir da sua posição privilegiada como figura pública, usou a sua empatia com as massas para defender causas justas, levantar as causas dos oprimidos e criticar o imperialismo. Manifestações registadas e relatadas no apoio incondicional de “el Diego” a líderes como Hugo Chávez e Nicolás Maduro, e a sua postura crítica em relação às políticas neoliberais na América Latina.

O programa “De Zurda” teve um grande impacto no mundo e contou com a participação de lendas do futebol. Para a Copa América 2015, estreou “De Zurda Viajero”. A Telesur foi a plataforma onde Maradona se tornou o soldado das causas justas, inspirado por Chávez.

Ao longo dos seus 20 anos de trajectória, a teleSUR utilizou o desporto como uma janela para mostrar realidades sociais e políticas mais amplas. Além do simples resultado de uma partida, a multiplataforma narrou e continua a narrar histórias por trás dos atletas, das comunidades e dos contextos que envolvem os eventos desportivos, especialmente na América Latina e no Caribe.

Esta visão crítica ficou evidente em coberturas especiais de eventos como a Copa América, o Campeonato do Mundo, os Jogos Olímpicos e os Jogos Pan-Americanos. As câmaras aproximaram-se não só do espectáculo dos desportistas que representam, mas também dos movimentos sociais e das lutas pela justiça que rodeiam cada evento. O seu enfoque enfatizou o desporto como ferramenta de resistência, identidade e transformação social.

O compromisso com uma narrativa alternativa reflete-se na forma como a teleSUR tem documentado casos de atletas que enfrentam barreiras estruturais, discriminação ou que utilizam a sua plataforma para defender causas progressistas.

Através de reportagens especiais e documentários, a Telesur demonstrou que o desporto é muito mais do que um espetáculo. É uma expressão cultural, um modo de vida e um espaço onde se disputam valores e se constroem identidades coletivas, especialmente em regiões onde o desporto se torna um caminho de superação e dignidade para milhões de pessoas.

Fonte:

"Para quem está cansado da narrativa única." 🕵️‍♂️

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