A Lealdade: Quando a causa é maior que as pessoas
Uma balada de primavera sobre a lealdade que se desvaneceu

Houve um tempo em que a revolução se fazia com o corpo todo. Quem estava ao lado, na trincheira, era camarada – mesmo que não fosse amigo. Mesmo que houvessem divergências. Mesmo que, noutras circunstâncias, não se cruzassem. Na hora H, a causa estava acima das diferenças. E a lealdade ao ideal sobrepunha-se a qualquer ranço pessoal.
Esse tempo, parece ter ficado para trás. Não desapareceu de repente – foi-se desfazendo devagar, como a ferrugem num carro que já ninguém usa. As grandes revoluções do século passado – 1917, 1949, 1959, 1974 – foram feitas por gente que, muitas vezes, não se suportava. Mas que sabia que a causa era maior. Que escolhiam lutar juntas. Que sabiam que a liberdade não se conquista com simpatias – conquista-se com lealdade. E que a lealdade, não é gostar. É estar.
Hoje, a paisagem é outra. A lealdade, essa coisa rara, ainda se encontra – mas é mais fácil achá-la nas bases do que nos degraus de cima. É entre os que sujam as mãos, os que não pedem nada em troca, os que ainda acreditam. Nos degraus, acima, o ar é mais rarefeito. E a lealdade, tantas vezes, se transforma em subserviência.
Suave Ascensão
Não é uma crítica feroz.
É apenas uma observação. Repare-se, por exemplo, que para subir é preciso agradar. Não se trata de mérito, nem de dedicação à causa. Trata-se de cair bem. De cumprir com o beija-mão ou o beija-pé – pouco importa. O essencial é chegar lá. O caminho, esse, é flexível.
E se, para chegar, for necessário pisar aquele que até parecia estar ao nosso lado – pois bem, que seja pisado. É a lei suave da selva.
Há, por vezes, quem ocupe lugares sem que se saiba bem como ali chegou. Não por mérito aparente, não por uma luta reconhecida – mas por razões que escapam ao olhar comum. Talvez protecções invisíveis, talvez heranças silenciosas. São pessoas que, na verdade, nunca moveram uma palha pela causa. Mas isso não as impede de julgar, de acusar, de decidir quem merece ficar e quem deve sair.
São leais, isso sim. Leais aos seus interesses. Leais aos que os protegem. Leais ao sistema que os colocou onde estão. E, se os olharmos de perto, talvez vejamos que a estrutura que os sustenta não é muito diferente daquela que se critica noutros lugares. É apenas mais suave. Mais discreta. Mas a lógica, essa, é a mesma.
Há quem diga que isto é natural. Que é assim em todo o lado. Talvez. Mas custa ver, com o tempo, como aqueles que se desgastaram na luta vão desaparecendo do horizonte. Os que adoecem, os que já não podem dar a sua força de trabalho – esses, um dia, simplesmente deixam de ser chamados. Deixam de ser procurados. A memória deles, aos poucos, esfumaça-se.
Não há uma ordem, não há um decreto. Apenas um silêncio que se instala. Um afastamento que ninguém decreta, mas que todos aceitam. Como se, por terem dado tudo, já nada mais lhes fosse devido. Como se a causa, afinal, fosse apenas um caminho – e eles, os que se desgastaram no caminho, fossem apenas pedras que se deixam para trás.
A Lealdade que Resta
Falemos, se me permitem, daqueles que durante anos deram o corpo à luta – às balas, ao cansaço, à solidão. Os que nunca vergaram. Os que disseram sempre “presente”, sem nunca terem pedido nada em troca. Sem medalhas. Sem lugares. Sem reconhecimento.
Não quero com isto dizer que está tudo perdido. A lealdade, essa coisa rara, ainda existe. Mas, talvez, a encontremos onde menos a procuramos: nos que lutam sem aplausos. Nos que acordam de madrugada para para uma distribuição, enquanto o mundo dorme. Nos que esperam por navios no horizonte, sem saber se eles chegarão. Nos que continuam, mesmo quando tudo parece vazio. Mesmo quando ninguém vê. Mesmo quando nada pedem em troca.
Esses, são a prova de que a lealdade não morreu. Apenas se refugiou. Nos lugares onde o barulho não chega. Nos gestos que ninguém filma. Nas vidas que, sem alarde, mantêm acesa a chama que tantos outros tentam apagar.
E depois, há algo mais. Há uma lealdade que não se negocia. Não é a lealdade a um partido, a uma ideologia, a um título. É a lealdade à humanidade. Aos que sofrem. Aos que são perseguidos. Aos que, como nós, se recusam a ajoelhar.
Sei que o mundo exige o conforto do socialmente correcto. Sei que é mais fácil calar. Mas há em mim algo que recusa calar-se quando vê os fracos e os inocentes serem feridos. Quando testemunha a crueldade dos que têm poder. Quando assiste à arrogância de homens que, por ostentarem títulos, se julgam senhores de toda a sabedoria.
Não consigo aceitar políticas que glorificam o caminho das trevas. Não consigo aceitar caminhos sociais que nos dividem e hierarquizam, como se uns valessem mais do que outros. Somos feitos da mesma carne. Do mesmo sangue. Do mesmo sopro. Nascemos do mesmo ventre que sofreu para nos dar vida.
Uma Nota Final, Como um Suspiro
Até Trotsky, dizem, foi leal à revolução – durante o tempo que lhe deu jeito. Os pequenos Trotskys de hoje são apenas mais do mesmo: o “eu” acima do “nós”, o ego acima da humanidade, o poder acima da luta. Não é uma tragédia. É apenas uma canção antiga, que se repete.
Talvez, um dia, a primavera traga de volta o que se perdeu. Talvez, nos degraus de cima, alguém se lembre de que a base existe. Talvez os doentes deixem de ser esquecidos. Talvez a lealdade volte a pesar mais do que o cargo.
Até lá, fica a certeza de que, mesmo em minoria, podemos continuar. Sem aplausos. Sem títulos. Sem lugares. Apenas com a lealdade – a única que importa.
Herança
Não podiam connosco.
Fomos caluniados.
Quiseram apagar os nossos ideais.
Mas não sabem algo:
os nossos ideais não se destroem.
Herdam-se.
Passam de mão em mão.
De coração em coração.
De luta em luta.
Podem pisar-nos.
Podem esquecer-nos.
Podem atirar-nos para o lixo.
Mas a semente, camarada, fica.
E um dia – talvez quando menos se espera – germina.
Porque os ideais, camarada, são como o vento.
Não se vêem.
Não se tocam.
Mas sentem-se. E movem montanhas.
Este artigo, camarada, é para ti. Para os que lutaram sem pedir nada em troca. Para os que, quando deixaram de servir, foram atirados para o lixo. Para os que, mesmo esquecidos, continuam de pé – ainda que seja a custo, ainda que seja devagar, ainda que ninguém veja.
Camarada Fernando e sempre leal, este é para ti.
Um abraço Camarada

Paulo Jorge da Silva | Um activista português que viu, cheirou e sentiu o bloqueio. Pela soberania de Cuba. Pelo fim do cerco. Pelos milhões que, em silêncio, já decidiram de que lado estão. Porque os princípios, como Fidel ensinou, não se negoceiam.



