Artigos de OpiniãoLorenzo Maria Pacini

Como a Rússia e o Irão estão a redefinir a geografia comercial no Mar Cáspio

O Cáspio já não representa uma rota secundária: está a tornar-se um dos pilares silenciosos da resposta euro-asiática à hegemonia dos EUA.

Reorientação estratégica

Durante anos, a pressão militar contra o Irão tem sido exercida principalmente a partir do sul. As bases norte-americanas rodeiam o Golfo Pérsico, enquanto Israel conduz operações de inteligência a partir do Azerbaijão e de outras zonas vizinhas. A superioridade naval norte-americana transformou há muito os estreitos que rodeiam o Irão num instrumento consolidado de pressão estratégica, capaz de influenciar não só os fluxos comerciais, mas também a percepção de vulnerabilidade no seio do aparelho defensivo iraniano.

Quanto mais o eixo EUA-Israel concentra a sua atenção no Golfo, mais a profundidade estratégica do Irão se desloca para norte, para além do Mar Cáspio — um espaço fechado que as potências ocidentais não conseguem controlar facilmente. Esta dinâmica não é acidental: reflecte uma escolha deliberada de diversificação geopolítica prosseguida por Teerão ao longo da última década, acelerada pelo agravamento das sanções e da pressão militar.

Hoje em dia, o Mar Cáspio assumiu uma importância decisiva, pois oferece ao Irão e à Rússia algo de que ambos necessitam urgentemente: uma rota directa e politicamente segura, fora dos corredores terrestres sujeitos à influência ocidental. As rotas terrestres atravessam países alinhados com Washington ou relutantes em desafiar as sanções secundárias dos EUA. O Mar Cáspio, em contrapartida, liga directamente Moscovo e Teerão sem intermediários, garantindo a ambas as capitais uma linha de comunicação estratégica que é difícil de interceptar ou neutralizar sem recorrer a uma escalada militar em grande escala.

Mesmo que, em teoria, os navios pudessem ser alvo de drones ou mísseis, tal exigiria operações muito mais profundas no território iraniano e implicaria o risco de um confronto directo com a Rússia. A curto prazo, o Mar Cáspio proporciona, portanto, ao Irão uma linha de abastecimento relactivamente segura. A longo prazo, poderá reforçar ainda mais a integração entre os dois países e tornar-se uma rota fundamental para a Ásia Ocidental, a Índia e outros mercados internacionais que se encontram atualmente fora do alcance das sanções dos EUA.

Determinar se o Cáspio é um mar ou um lago não é apenas uma questão terminológica. Se for considerado um mar, estaria abrangido pela Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (UNCLOS), que concede a cada Estado 12 milhas náuticas de águas territoriais, deixando o restante aberto à navegação internacional. Se for classificado como um lago, no entanto, as fronteiras teriam de ser negociadas directamente entre os Estados ribeirinhos, sem qualquer envolvimento de terceiros. Esta distinção tem implicações profundas, tanto a nível comercial como militar.

Até 1991, apenas o Irão e a União Soviética faziam fronteira com o Mar Cáspio. O Tratado Russo-Persa de 1921 proibia a navegação por parte de outros países. Com o colapso da URSS, o Azerbaijão, o Cazaquistão e o Turquemenistão surgiram e contestaram esse acordo, exigindo novas negociações inspiradas nos princípios da UNCLOS. As antigas repúblicas soviéticas, incluindo a Rússia, queriam que o Cáspio fosse tratado como um mar. O Irão, em contrapartida, preferia considerá-lo um lago, uma vez que a sua costa relativamente curta lhe conferiria, de outra forma, uma quota territorial menor. Além disso, a aplicação da UNCLOS poderia ter permitido que frotas estrangeiras operassem perto das águas iranianas — uma perspectiva particularmente sensível, dadas as relações estreitas do Azerbaijão com Israel.

A ausência de um acordo deixou o estatuto jurídico do Mar Cáspio numa situação ambígua durante anos, obstruindo projectos estratégicos de integração regional, como o gasoduto transcáspio entre o Turquemenistão e o Azerbaijão. O avanço ocorreu em 2018, quando os cinco Estados ribeirinhos assinaram a Convenção sobre o Estatuto Jurídico do Mar Cáspio: a bacia foi definida como uma categoria única, nem mar nem lago. O acordo concedeu a cada país 15 milhas náuticas de águas territoriais, mais 10 milhas adicionais dedicadas à pesca, com as áreas restantes partilhadas entre os Estados signatários. Ao contrário da UNCLOS, o tratado proibiu a presença de forças militares de países terceiros, permitindo a Teerão alcançar o que considerava a sua principal prioridade: impedir a entrada de marinhas estrangeiras na bacia.

O valor geoeconómico que não pode ser ignorado

Antes do início da operação russa na Ucrânia, em fevereiro de 2022, as relações comerciais entre Moscovo e Teerão, embora politicamente significativas, estavam estruturalmente limitadas por uma série de restrições comuns: ambos os países estavam sujeitos a regimes de sanções ocidentais, mas a Rússia ainda mantinha vários canais de acesso aos mercados europeus, o que a levava a agir com cautela em relação a uma aproximação excessiva ao Irão. O volume do comércio bilateral situava-se em cerca de 4 mil milhões de dólares por ano — um valor modesto quando comparado com o potencial das duas economias.

Em 2013, Moscovo promoveu o Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul (INSTC), uma rede de vias férreas, estradas e infraestruturas energéticas concebida para ligar a Rússia ao Irão através do Azerbaijão e, posteriormente, à Índia e à Ásia. No entanto, até 2022, o corredor permaneceu em grande parte um projecto no papel: as rotas terrestres ainda eram acessíveis, os incentivos económicos para o seu desenvolvimento ainda não eram suficientemente urgentes e o Azerbaijão — um Estado-chave para o trânsito terrestre — mantinha equilíbrios delicados entre Moscovo e o Ocidente.

O dia 24 de fevereiro de 2022 marcou uma ruptura estrutural neste contexto. As sanções ocidentais contra a Rússia — as mais severas alguma vez impostas a uma grande economia — tornaram urgente para Moscovo a procura de mercados e parceiros alternativos. O Irão, já habituado a operar em condições de isolamento internacional, tornou-se o parceiro natural. Por seu lado, Teerão compreendeu que a convergência com Moscovo já não era apenas uma escolha política, mas uma necessidade económica: a Rússia oferecia tecnologia, cereais, matérias-primas industriais e, acima de tudo, um mercado alternativo para as exportações de energia iranianas.

Assim, 2022 marcou o nascimento de uma parceria geoeconómica estruturada, tendo o Mar Cáspio como eixo central. O porto iraniano de Noshahr recebeu o primeiro navio de carga russo em mais de vinte anos e, durante o mesmo período, as companhias de navegação russas e iranianas criaram uma nova empresa conjunta para desenvolver o INSTC. Em 2025, o tráfego comercial no porto de Anzali, o principal centro do Mar Cáspio, aumentou 56% em comparação com o ano anterior — um aumento sem precedentes na história recente dos dois países e prova da rapidez com que esta nova geografia do comércio se está a consolidar.

Ormuz e a nova linha vermelha

O encerramento do Estreito de Ormuz — ou mesmo a simples ameaça credível de tal encerramento — representa também um dos cenários mais temidos pelo eixo Rússia-Irão.

Com a escalada militar entre os Estados Unidos, Israel e o Irão e o subsequente bloqueio imposto por Washington no Golfo Pérsico, Teerão viu-se obrigada a redireccionar rápida e massivamente os seus fluxos comerciais e de abastecimento. As rotas terrestres através do Azerbaijão, do Paquistão e da Turquia tornaram-se mais arriscadas, não só por razões logísticas, mas também devido à crescente pressão política exercida pelos Estados Unidos sobre esses governos para que evitassem facilitar as trocas com Teerão, em violação das sanções secundárias. O Cáspio surgiu como a única alternativa realisticamente viável.

De uma perspectiva geoeconómica, o encerramento do Estreito de Ormuz gerou uma série de efeitos estruturais que se estenderam muito para além da zona de conflito imediata. Em primeiro lugar, obrigou o Irão a tirar partido da sua localização geográfica no norte, potenciando portos como Anzali, Noshahr e Amirabad como centros alternativos de importação e exportação. Em segundo lugar, tornou a Rússia o principal fornecedor de bens essenciais para o mercado iraniano: de acordo com algumas estimativas, as exportações russas para o Irão no sector alimentar duplicaram apenas na primeira metade de 2025, particularmente no que diz respeito a cereais e produtos relacionados, um sector em que Moscovo detém uma posição dominante nos mercados mundiais.

Em terceiro lugar, o encerramento do Estreito de Ormuz redefiniu o valor estratégico do corredor INSTC. O que até 2021 tinha sido um projecto de integração regional de significado principalmente simbólico transformou-se numa infraestrutura de importância crítica, capaz de determinar o resultado da resiliência económica do Irão sob embargo. Moscovo adquiriu, assim, uma influência sem precedentes sobre Teerão: não só como fornecedor militar, mas também como garante de abastecimentos civis e como parceiro comercial de último recurso. Esta assimetria na dependência mútua constitui um dos elementos mais significativos da nova arquitectura geoeconómica do Cáspio.

Com a escalada militar e o bloqueio do Golfo, as rotas do norte também passaram a ser alvo de atenção militar. Segundo o The New York Times, Moscovo terá transferido componentes para drones através do Mar Cáspio, reabastecendo o arsenal iraniano num momento de extrema pressão. Estes drones revelaram-se essenciais tanto no conflito ucraniano como nas operações iranianas contra bases militares americanas na Ásia Ocidental. Os navios russos terão também transportado bens essenciais, incluindo produtos alimentares, para mitigar os efeitos do bloqueio económico sobre o Irão.

O ataque israelita a Bandar Anzali, em março de 2026, representou um salto qualitativo no conflito. O porto é o principal centro comercial e logístico do Irão no Mar Cáspio, estando intimamente ligado às rotas russas e às infraestruturas do INSTC. Atacá-lo significava não só enfraquecer as capacidades operacionais de Teerão, mas também enviar um sinal directo a Moscovo: a guerra já não se limitaria às águas do Golfo. A mensagem foi recebida em ambas as margens do Mar Cáspio.

A porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, Maria Zakharova, declarou que o ataque tinha atingido «os interesses económicos da Rússia e de outros países da região», alertando que tais acções corriam o risco de arrastar os Estados do Cáspio para o conflito. O Kremlin manifestou profunda preocupação, enquanto Teerão tentou transformar o episódio numa questão de segurança regional, exortando todos os Estados ribeirinhos a adoptarem uma posição comum contra a desestabilização da bacia. A mensagem era clara: uma vez atingida a costa norte do Irão, a guerra afectava directamente os interesses de todos os Estados dependentes da estabilidade do Cáspio.

Este desenvolvimento introduziu efectivamente uma nova linha vermelha no conflito: o Mar Cáspio já não pode ser tratado como um espaço neutro ou uma zona de retaguarda. A sua militarização de facto, embora ainda incompleta, transformou a geopolítica regional. O Cazaquistão e o Turquemenistão, que partilham a bacia com a Rússia e o Irão, encontram-se agora numa posição cada vez mais desconfortável: dependem da infraestrutura comercial do Cáspio e não podem dar-se ao luxo de serem arrastados para um confronto directo com as potências ocidentais, mas, ao mesmo tempo, não podem ignorar a pressão de Moscovo e Teerão para se alinharem com a causa da segurança regional.

Perspectivas a longo prazo

Mesmo após o fim do conflito armado, o Mar Cáspio continuará a ser estratégico tanto para o Irão como para a Rússia. Durante anos, Moscovo encarou o INSTC como um meio de chegar ao Oceano Índico contornando a Europa. Hoje, no contexto das sanções ocidentais e da crescente competição geopolítica, esse projecto assumiu uma importância muito além das expectativas iniciais. Se as sanções vierem a ser atenuadas no futuro e a Índia reduzir a sua dependência do Ocidente, este corredor poderá tornar-se uma das infraestruturas fundamentais de uma ordem comercial multipolar.

Do ponto de vista energético, o Cáspio oferece novas oportunidades. A própria bacia é rica em hidrocarbonetos: as reservas offshore no Cazaquistão e no Azerbaijão já atraíram investimentos internacionais significativos. Um sistema integrado de infraestruturas energéticas que ligasse os recursos do Cáspio ao mercado indiano através do Irão transformaria a região num importante centro energético. Moscovo poderia servir de garante político e financeiro de tal sistema, consolidando a sua influência numa área onde a presença ocidental é estruturalmente limitada pela Convenção de 2018.

A Rússia ganharia um acesso mais directo ao Oceano Índico, enquanto o Irão assumiria um papel central no comércio euro-asiático, reduzindo a capacidade dos Estados Unidos de isolar economicamente ambos os países através do controlo marítimo e financeiro. Esta visão não é meramente especulativa: as infraestruturas já concluídas ou em desenvolvimento ao longo do INSTC — incluindo a ferrovia Irão-Rússia que utiliza a balsa ferroviária que atravessa o Mar Cáspio entre os portos de Astrakhan e Anzali — demonstram que existe vontade política concreta e capacidade operacional para transformar esta visão em realidade.

Durante anos, o Mar Cáspio foi subestimado, especialmente enquanto as rotas terrestres pareciam suficientes e o seu estatuto jurídico permanecia indefinido. Mas com a aproximação progressiva entre Moscovo e Teerão num ambiente internacional cada vez mais hostil, o Cáspio já não representa uma rota secundária: está a tornar-se um dos pilares silenciosos da resposta eurasiana à hegemonia dos EUA. A sua relevância geoeconómica, amplificada pelo encerramento de Ormuz e pela cristalização de novas linhas vermelhas militares, poderá redefinir permanentemente os mapas do comércio internacional e da projecção de poder no século XXI, muito mais do que imaginamos actualmente.

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Autor:

Lorenzo Maria Pacini |Professor Associado de Filosofia Política e Geopolítica na UniDolomiti de Belluno. Consultor em Análise Estratégica, Serviços de Informações e Relações Internacionais

Fonte:

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