O regresso do macartismo e a ofensiva total contra Cuba: 100 páginas de mentiras, sanções e a armadilha da “Ajuda Humanitária”
Paulo Da Silva
Em julho de 2026, Washington desencadeou uma ofensiva em três frentes contra Cuba. Não é uma escalada isolada. É uma estratégia coordenada que combina a doutrina (o relatório de 100 páginas), o cerco material (as novas sanções de Marco Rubio) e a propaganda (a "ajuda humanitária" com acusação incluída). Cada uma destas peças serve o mesmo objectivo: justificar a asfixia do povo cubano e preparar o terreno para uma eventual agressão militar.
O regresso do macartismo
A 20 de julho, o Departamento de Estado dos EUA publicou um documento de 100 páginas intitulado “Cuba: The Capital of 21st Century Subversion” . O relatório acusa Cuba de fomentar o “extremismo de esquerda” nos EUA e de ter tecido uma rede de espionagem para “minar os interesses norte-americanos”.
Há apenas um problema: o documento não apresenta uma única prova verificável. Não cita causas judiciais abertas, não identifica agentes cubanos, não apresenta interceptações de comunicações ou documentos de inteligência desclassificados. É uma colecção de inferências e uma rectórica de “culpabilidade por associação”. Qualquer afinidade ideológica com o projecto socialista cubano é automaticamente codificada como parte de uma “operação de inteligência hostil”.
A ironia do documento é que ele acaba por revelar o seu verdadeiro objectivo: vigiar o desacordo dentro dos EUA, disfarçado de ameaça externa. O relatório menciona organizações como os Democratic Socialists of America e a Code Pink, e até cidadãos americanos que se opõem ao bloqueio ou se solidarizam com a Palestina. Jornalistas, advogados e activistas são colocados no mesmo saco que uma suposta “rede de influência cubana”. O único crime destas pessoas? Ser membro de uma organização que se opõe ao bloqueio ou participar numa brigada solidária a Cuba.
Como escreveu o Granma, o relatório “carece de suporte probatório, constrói-se sobre uma narrativa ideológica que recicla tropos da Guerra Fria e omite de maneira sistemática o contexto de agressão assimétrica que Washington tem mantido contra a ilha durante mais de seis décadas”.
O analista consultado pela Foreign Policy chega a classificar de exagerada a conexão que o informe traça entre a Cuba da Guerra Fria e a Cuba de hoje, empobrecida e sob sanções.
O paralelo com o macartismo dos anos 50 é inevitável. Naquela época, o senador Joseph McCarthy usou o medo do comunismo para perseguir cidadãos americanos, sem provas. Hoje, o Departamento de Estado faz o mesmo, mas com um nome novo.
A reacção da imprensa dos EUA: Fissuras no Império
O relatório de 100 páginas expôs uma divisão na própria imprensa norte-americana.
De um lado, meios como a Foreign Policy e o Washington Post leem o documento com distância crítica. Apontam que o relatório nunca menciona que as supostas acções cubanas são resposta a décadas de tentativas de Washington para derrubar o governo cubano, com a Baía dos Porcos como capítulo fundamental.
No outro extremo, a Fox News e o Washington Times reproduzem o informe como se fosse um comunicado de imprensa, repetindo sem filtro que Cuba está por trás de Black Lives Matter, da Antifa e das protestos por George Floyd.
E, no sul da Flórida, o Martí Noticias dedica parágrafos a desenterrar casos de há trinta e quarenta anos, como se o passado pudesse substituir a evidência do presente, que continua a não aparecer em lado nenhum.
Esta divisão é, em si mesma, uma notícia. Mostra que a narrativa de Washington já não é monolítica, e que as suas próprias fissuras estão a tornar-se visíveis.
A resposta de Cuba: Desmontar a falácia
A resposta cubana foi directa e implacável.
O Presidente Miguel Díaz-Canel foi claro: quem acusa com tanta obscenidade é quem mais espiou e agrediu o outro. O chanceler Bruno Rodríguez chamou o documento pelo nome: a mais recente falácia de um Departamento de Estado que precisa de um pretexto para sustentar a guerra económica e buscar respaldo para uma eventual agressão militar.
Cuba não se limita a negar as acusações. Expõe a hipocrisia de Washington: o país que acusa Cuba de “subversão” é o mesmo que há mais de seis décadas tenta derrubar o governo cubano, que impôs o bloqueio mais longo da história, que financiou atentados e que mantém uma base militar em Guantánamo contra a vontade do povo cubano.
O cerco material: As sanções de Narco Rubio
No dia 23 de julho, o Secretário de Estado Marco Rubio anunciou novas medidas punitivas contra Cuba. As sanções visam:
O sector energético, incluindo o Centro de Investigação Petrolífera (CEINPET), a EMPRESA DE ENERGÍA S.A. (ENERSA) e a EINARBO S.A.
Empresas comerciais e de transporte, como a Terminal de Contentores de Mariel SA e a Coral Marítima SA
A colaboração médica cubana, incluindo a Comercializadora de Serviços Médicos Cubanos, a Unidade Central de Cooperação Médica (UCCM), o ministro da Saúde Pública, Dr. José Ángel Portal Miranda, e a directora da UCCM, Dra. Gretza Sánchez Padrón
O objectivo é claro: não deixar qualquer lacuna na perseguição genocida a qualquer acção cubana que defenda o seu direito a obter combustíveis, tecnologias e receitas para o desenvolvimento económico. As sanções contra a colaboração médica cubana são particularmente reveladoras: atacam um programa que salva vidas em todo o mundo, e cujas receitas se destinam ao sistema de saúde público cubano.
A armadilha da “Ajuda Humanitária”
No mesmo dia em que anunciava novas sanções, Marco Rubio também anunciava o início do envio de cem milhões de dólares em ajuda humanitária a Cuba.
Não há nada de errado com a ajuda humanitária em si. O problema é o pacote narrativo que a acompanha.
Rubio não enviou ajuda sem condições. Enviou-a com uma acusação prévia: “Cuba é um estado falido, por isso precisa de ajuda”. É a mesma boca que, no mesmo dia, chama Cuba de “estado falido” e anuncia ajuda.
A contradição é evidente e, por isso mesmo, impossível de sustentar. O bloqueio é o principal responsável pela crise económica e energética em Cuba. Foi desenhado para asfixiar, para gerar escassez, para provocar descontentamento. E quando a escassez chega, os mesmos que a provocaram aparecem com ajuda humanitária, apontando o dedo ao governo cubano.
Como escreveu Razones de Cuba: “Chegou ajuda, sim. Também chegou, no mesmo pacote verbal, a culpa inteira posta sobre o governo cubano por uma crise que o próprio bloqueio alimenta. Isso não é solidariedade. É esmola com espingarda”.
A amnésia do carrasco
Esta estratégia não é nova. A 13 de julho, a administração Trump já tinha anunciado sanções contra dez entidades cubanas, incluindo o Ministério do Turismo, o Grupo Empresarial do Comércio Exterior e as Milícias de Tropas Territoriais.
O que torna este anúncio particularmente grotesco é que, apenas alguns dias antes, na Assembleia Geral da ONU, o embaixador dos EUA, Mike Waltz, tinha declarado com toda a solenidade: “Não há bloqueio americano”. E acrescentou: “O único bloqueio em Cuba é a guilhotina que o regime mantém sobre as cabeças do seu povo”.
Se não há bloqueio, camarada, o que são essas “sanções” que o próprio governo anuncia? Se não há cerco, porque é que o Departamento do Tesouro publica, dia sim, dia não, novas listas de entidades sancionadas?
A resposta é simples: a guilhotina não é mantida pelo governo cubano sobre os seus cidadãos. A guilhotina é fabricada em Washington, peça por peça, sanção por sanção, decreto por decreto.
O chanceler Bruno Rodríguez expôs os números na ONU: entre março de 2025 e fevereiro de 2026, os danos do bloqueio ascenderam a mais de 8 mil milhões de dólares, um recorde histórico. Mais de nove milhões de cubanos foram deixados às escuras.
A pergunta que fica, camarada, é a mesma que o Granma coloca: se realmente lhes preocupam os cubanos, porque é que lhes negam o combustível, a comida, os medicamentos? A resposta é que não lhes preocupam. O que lhes preocupa é o exemplo de Cuba: um país que, apesar de tudo, se recusa a render-se.
Conclusão: A farsa exposta
O relatório de 100 páginas, as sanções de Narco Rubio e a “ajuda humanitária” com acusação incluída são três faces da mesma moeda.
A primeira é a doutrina: construir uma narrativa que transforme Cuba no “inimigo perfeito”, sem provas, sem factos, apenas com a força da repetição.
A segunda é o cerco material: apertar o bloqueio até ao limite, atacando todos os sectores da economia cubana, incluindo a colaboração médica que salva vidas.
A terceira é a propaganda: apresentar-se como salvador, quando se é o carrasco.
Cuba responde com a única arma que tem: a verdade. Díaz-Canel e Bruno Rodríguez desmontam a falácia, expõem a hipocrisia e recordam ao mundo que o verdadeiro agressor é Washington.
E, enquanto isso, o povo cubano continua a resistir. No meio dos apagões, das sanções, das mentiras. Como tem feito há mais de seis décadas.
Termino com uma homenagem ao povo cubano, que dentro de dias celebra o 26 de Julho.
Dentro de dias, Cuba celebrará o 73º aniversário do assalto aos quartéis Moncada e Carlos Manuel de Céspedes. Não será uma celebração como as de outros tempos. Será marcada por apagões de mais de 50 horas, pela falta de combustível, pela escassez de alimentos e medicamentos. Mas o povo cubano, como sempre, estará na rua.
O acto central será em Pinar del Río, uma província que, mesmo sob as “numerosas limitações que impõe a política de asfixia do Governo dos EUA”, tem mostrado resultados no cumprimento das tarefas políticas, económicas e sociais. A escolha de Pinar del Río não é casual. É a prova de que a rebeldia não se apaga com o bloqueio.
E, enquanto o povo cubano se prepara para celebrar a sua rebeldia, Washington anuncia novas sanções, publica relatórios de 100 páginas sem provas, e tenta convencer o mundo de que Cuba é uma “ameaça”. Mas o povo cubano não se deixa enganar. Sabe que a verdadeira ameaça não vem de Cuba — vem de quem a asfixia.
Como disse Fidel, naquele 16 de outubro de 1953, perante o tribunal que o julgou pelo assalto ao Moncada: “A História me absolverá” .
E absolveu. Absolveu e continua a absolver. Cada dia que passa, cada apagão que o povo cubano suporta com dignidade, cada sanção que Washington impõe sem conseguir quebrar a resistência, é mais uma prova de que a História está do lado de Cuba.
Este 26 de Julho, quando o povo cubano se reunir em Pinar del Río para celebrar a sua rebeldia, não estará apenas a recordar o passado. Estará a reafirmar o presente e a construir o futuro. Estará a dizer ao império que, por mais que aperte o cerco, a rebeldia não se rende.
¡Patria o Muerte, Venceremos!
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