A “reconquista democrática” da América Latina
O objectivo desta cruzada é restabelecer a precária hegemonia norte-americana. As principais medidas em matéria de política externa têm apontado nessa direcção.
Trump e a sua equipa estão numa cruzada. A diferença em relação às cruzadas anteriores do Império norte-americano reside no contexto geopolítico actual e no facto de a administração Trump, a começar pelo presidente, ser tudo menos subtil nas suas intenções imperialistas. Embora as estruturas ideológicas e o Departamento de Estado continuem a reciclar as mesmas velhas narrativas de luta pela democracia ou contra o mal para justificar as acções do executivo, não conseguem impedir que o presidente faça declarações imprudentes que revelam completamente as suas intenções.
O objectivo desta cruzada é restabelecer a precária hegemonia norte-americana. As principais medidas em matéria de política externa têm apontado nessa direcção. E como os Estados Unidos perderam a alavanca económica como principal elemento de influência, não lhes resta outra opção senão recorrer à força bruta, ao melhor estilo do velho imperialismo.
Hoje, os Estados Unidos estão sentados sobre uma bomba-relógio. O esquema financeiro internacional do petrodólar conferiu-lhe a extraordinária capacidade de se endividar para além de qualquer racionalidade. E hoje essa dívida continua a crescer descontroladamente, ao mesmo tempo que as reformas neoliberais dos anos 80 e 90 deslocaram para fora do país, fundamentalmente para a China, uma parte essencial das capacidades produtivas do país. A consequente ascensão da China, o enfraquecimento progressivo do dólar como moeda de reserva a nível internacional, a tendência da Arábia Saudita e de outras monarquias do Golfo para começarem a vender petróleo noutras moedas e o desastre da guerra no Irão são elementos que, combinados, colocaram os Estados Unidos num dos momentos de maior fraqueza da sua história como nação independente.
Os dias em que o país era uma potência em ascensão já ficaram para trás. Hoje é um velho império que se agarra violentamente aos seus privilégios. E para os manter e recuperar, os grupos de extrema-direita alinhados em torno de Trump decretaram uma Santa Cruzada. Tal como na Idade Média, as formas ideológicas do processo são pura aparência. Não se trata de democracia nem é contra o comunismo, é por controlo e hegemonia.
E nesta cruzada, a América Latina desempenha um papel fundamental. Historicamente vista por Washington como o seu «quintal», a região, durante a segunda metade do século XX e as duas primeiras décadas do século XXI, passou por importantes processos políticos e económicos que puseram em causa o controlo efectivo dos Estados Unidos sobre ela. Processos como a Revolução cubana e a bolivariana, bem como o avanço sustentado da China como principal parceiro económico das principais economias da região, ilustram este processo.
É precisamente neste contexto que devemos interpretar a cruzada em curso. A escalada ocorrida após 3 de janeiro, com a agressão à Venezuela, teve um importante antecedente nas viagens políticas do Secretário de Estado por vários países da região e no destacamento de meios e tropas iniciado com a Operação Lança do Sul. Não só foram mobilizados poderosos meios militares, como porta-aviões e submarinos nucleares, como também foram reativadas bases militares como a de Vieques, que os Estados Unidos tinham abandonado no passado em resultado da pressão popular.
A reactivação das bases foi um sinal claro de que estamos perante um processo muito mais vasto do que a desculpa venezuelana. E as recentes fugas de informação do Hondurasgate vêm reafirmar isso. A região está a ser reocupada militarmente.
O ataque à Venezuela e a agressão cada vez mais provável contra Cuba são parte essencial desta agenda. Isso implica a eliminação e a subjugação de dois processos e dois povos que têm desempenhado um papel fundamental na resistência à hegemonia norte-americana na região. Mas não fica por aí.
A cruzada inclui também o reforço da presença militar no Equador, com claras implicações em termos de segurança para a Colômbia; a ingerência em processos eleitorais, como o das Honduras ou o que está em curso na Colômbia; a violação da soberania mexicana e brasileira, sob o pretexto do combate ao terrorismo; as ameaças ao Panamá para obter um maior controlo do Canal e expulsar as empresas chinesas da zona; as ameaças de intromissão na Bolívia face aos protestos populares contra o governo de Paz; o Escudo das Américas e uma longa lista de acções desenvolvidas num curto período de tempo, com uma abordagem extremamente agressiva.
O objectivo é semear o medo na região, paralisar a esquerda social-democrata, isolar os focos de resistência, devolver o controlo do país às burguesias historicamente submissas que garantiram o acesso total do capital norte-americano aos recursos dos seus países e fechar as portas aos ferozes concorrentes chineses, com os quais a economia norte-americana em declínio hoje, simplesmente, não consegue competir.
No caso específico de Cuba, há ainda as ambições políticas de Rubio e o anseio da comunidade de exilados cubanos que se refugiou na Flórida. A ilha constitui uma parte importante dos objectivos desta cruzada, devido ao desafio extraordinário que representa ter construído um projecto socialista de soberania e justiça social a menos de 90 milhas dos Estados Unidos. Ao contrário da Venezuela, cujo peso, além de simbólico, é directamente económico, Cuba é um objectivo puramente político. Para eles, render Cuba é render a resistência latino-americana histórica.
Um dos resultados imediatos da escalada agressiva tem sido a fragmentação, o silêncio discreto e a tentativa de chegar a acordos individuais que evitem que se tornem o próximo alvo da máquina de guerra mobilizada na região. Um conjunto de nações desunidas pouco pode fazer para preservar a sua soberania face ao gigante vizinho do norte.
Para o dizer no melhor espírito martiniano: ou a nossa América descobre a forma de permanecer unida neste momento difícil, ou será mais uma vez esmagada pelo gigante das sete léguas.
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Autor:
José Ernesto Nováez Guerrero | Escritor e jornalista cubano. Membro da Associação Hermanos Saíz (AHS).
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