Venezuela

A agenda de Machado para vender a Venezuela peça por peça

María Corina Machado consolidou-se como uma operadora política do capital norte-americano, dedicada a promover a entrega dos recursos estratégicos da Venezuela aos grandes centros financeiros e corporativos do mundo ocidental.

A sua actividade pública centra-se na participação em fóruns empresariais e conferências internacionais, onde apresenta o país como um território aberto ao investimento estrangeiro, em troca de apoio político e visibilidade mediática.

Nas últimas semanas, essa projecção internacional foi impulsionada pelo seu Prémio Nobel da Paz e pelos convites para espaços de alto perfil nos Estados Unidos e na Europa, onde insiste na liberalização total da economia venezuelana e na venda de activos nacionais como vias de “reconstrução”.

Mas por trás da linguagem tecnocrática e dos eufemismos de modernização, o que Machado está a apresentar é um plano de saque sistemático, concebido para que o capital estrangeiro se aproprie diretamente da riqueza energética, mineira e territorial do país sob o manto da “transição democrática”.

O seu discurso coincide com uma nova fase de agressão de Washington contra a Venezuela e a região, que combina acções militares encobertas no Caribe com uma campanha de criminalização enquadrada na suposta luta contra o narcotráfico.

Nesse contexto, a narrativa de Machado de abertura, privatização e “confiança para os investidores” faz parte da arquitectura de poder que os Estados Unidos estão a implementar para retomar o controlo sobre o mapa energético venezuelano.

Terra da Graça: a arquitectura económica da expropriação

O plano “Venezuela Terra da Graça“, apresentado durante a campanha eleitoral presidencial de 2024, é o documento que resume com maior precisão a visão económica que María Corina Machado e a sua equipa apresentam às organizações internacionais e aos investidores estrangeiros. Sob a promessa de “recuperar a productividade” e “reinserir a Venezuela no mercado global”, o texto traça um caminho para o desmantelamento do Estado e a entrega do património nacional aos centros financeiros internacionais.

O programa assenta em três eixos principais:

  1. Redução do Estado sob o eufemismo de “optimizar o seu tamanho”, o que na prática significa a eliminação de subsídios, políticas sociais e programas de protecção que garantem direitos básicos.
  2. Endividamento controlado por organismos multilaterais como o FMI, o Banco Mundial e agências bilaterais de crédito, o que equivale a hipotecar a política económica e financeira do país face aos ditames do sistema financeiro internacional.
  3. Privatização em massa de empresas e activos públicos, particularmente nos setores petrolífero, gasífero, eléctrico e mineiro, amputando o Estado das suas principais fontes de receita e soberania económica.

Embora o discurso oficial do plano apele a conceitos como eficiência, modernização e estabilidade macroeconómica, a sua estrutura reproduz os mesmos mecanismos de ajustamento estrutural aplicados pelo Fundo Monetário Internacional na América Latina durante os anos 90: redução da despesa pública, privatização do sector energético e liberalização do mercado de trabalho. Em termos históricos, representa uma restauração do modelo neoliberal clássico, actualizado à fase predatória actual do grande capital norte-americano.

O resultado previsível desse modelo é a consolidação de uma economia extractiva dependente, orientada para a exportação de matérias-primas e subordinada aos interesses do capital financeiro ocidental. Propõe-se uma abertura irrestrita, na qual as empresas transnacionais assumiriam o controlo directo das principais fontes de riqueza do país: petróleo, gás, minerais, eletricidade e infraestructura logística.

O componente mais alarmante do documento é a sua visão do Estado como um mero administrador passivo, cuja função se limitaria a garantir “segurança jurídica” aos investidores. Em síntese, “Tierra de Gracia” é um roteiro para a reinserção subordinada da Venezuela na ordem neoliberal pró-americana.

Do bilhão de dólares ao lobby energético internacional

Após a publicação do plano “Tierra de Gracia”, María Corina Machado aprofundou a sua estratégia de promoção internacional da pilhagem através de uma série de fóruns e encontros com organismos ligados ao poder financeiro e energético dos Estados Unidos.

Um dos mais emblemáticos foi a sua intervenção, em junho de 2025, perante o Council of the Americas (AS/COA), um consórcio criado por David Rockefeller na década de 1960, historicamente associado ao Departamento de Estado e às grandes corporações do hemisfério.

Nessa sessão, apresentada como “A oportunidade de um bilião de dólares“, Machado delineou perante uma audiência de banqueiros e executivos petrolíferos um plano de 15 anos para mobilizar 1,7 biliões de dólares em investimentos estrangeiros, centrados em energia, mineração, terras agrícolas e água doce. No seu discurso, ofereceu a privatização total da PDVSA, a abertura das reservas de petróleo e gás ao capital estrangeiro e a venda de milhões de hectares falsamente classificados como “terras não desenvolvidas”.

O núcleo dessa proposta foi concebido dentro do Grupo de Trabalho da Venezuela do próprio AS/COA, integrado por assessores de Machado, ex-funcionários do “interinato Guaidó” e representantes de ONGs e redes empresariais como Cedice Libertad et al. Esse espaço actua como plataforma de lobby corporativo, articulando antigos operadores do projecto Guaidó com as petrolíferas e fundos de investimento que procuram reingressar no mercado venezuelano sob a tutela de Washington. A líder apresentou-se, na prática, como a intermediária civil dessa operação económica.

Apenas alguns meses antes, em março de 2025, Machado apareceu em vídeo na CERAWeek, uma conferência anual de grande importância na indústria energética mundial, organizada pela S&P Global no Texas. Lá, ractificou a sua proposta de entregar a indústria petrolífera venezuelana à gestão privada, garantindo “plenos direitos de propriedade” às transnacionais e “segurança jurídica” para os seus investimentos.

Também prometeu incentivos fiscais e leilões de campos petrolíferos para empresas americanas, alinhando-se abertamente com a nova doutrina energética de Washington, que, sob a administração Trump, busca reconsolidar o domínio dos Estados Unidos na produção e exportação mundial de hidrocarbonetos.

Desde a sua tribuna, Machado projecta o mesmo plano que Washington procura executar com sanções e bloqueios, transformando a política numa ferramenta para facilitar o acesso das corporações norte-americanas ao subsolo venezuelano.

Até mesmo economistas da oposição alertaram para o alcance dessa entrega. O especialista em petróleo Rafael Quiroz afirmou que “a venda da nossa empresa petrolífera só beneficiará os grupos económicos bem posicionados dentro e fora do país” e que a proposta “atenta contra a soberania nacional”.

O capital transnacional não precisa hoje de um governo aliado em Caracas: basta contar com porta-vozes locais que validem a sua lógica de desapropriação nos espaços internacionais. Machado assumiu esse papel com precisão; a sua voz serve como garantia política perante os fundos, as petrolíferas e os organismos multilaterais de que a Venezuela pode ser reaberta à pilhagem sob novas formas legais e mediáticas.

Uma ofensiva sustentada sob uma fachada institucional

Enquanto Washington tenta reorganizar a sua influência na América Latina através de sanções, operações militares no Caribe e campanhas mediáticas de criminalização, desenvolve-se paralelamente uma ofensiva discursiva que busca naturalizar a dependência venezuelana, incorporando-a novamente ao circuito de domínio energético do Norte Global.

María Corina Machado, com o aval simbólico de prémios e fóruns internacionais, empresta rosto e linguagem a essa estratégia, oferecendo a Venezuela como zona económica de exploração sob tutela estrangeira.

Essa dinâmica não visa uma eventual conquista do poder interno, que hoje se mostra inviável, mas sim manter aberta a brecha de legitimidade, necessária para justificar a pressão internacional sobre o país e sustentar a narrativa de «transição pendente».

A partir dessa posição, pretende-se minar o princípio da soberania, corroer a capacidade do Estado venezuelano de administrar os seus recursos e perpetuar o cerco económico e político sob novos formatos.

O perigo real está na estructura de interesses que sustenta as declarações de Machado: corporações energéticas, think tanks financeiros e organismos multilaterais que servem de plataforma indirecta para a política externa dos Estados Unidos.

O seu discurso é apenas o eco imperial de uma ofensiva mais ampla, que procura reconfigurar a América Latina como um espaço de reserva energética e controle geoeconómico, com a Venezuela como epicentro.

Fonte:

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