Artigos de OpiniãoMohammad Faraj

“A guerra contra as drogas”: Washington é o adversário, não o árbitro

Numerosos sectores da população fazem perguntas aos responsáveis políticos norte-americanos: por que não iniciaram a guerra contra as drogas a nível nacional? E quais são os factores que levam os Estados Unidos a ocupar os primeiros lugares no consumo de drogas?

O Relatório Mundial sobre Drogas, publicado pelas Nações Unidas em 2025, afirma uma diminuição de 95% no cultivo de papoula no Afeganistão em 2024 em relação a 2022, e que a produção de ópio permaneceu 93% abaixo do que era em 2022.

Os traficantes recorreram ao ópio seco, em níveis que atingiram quase dez vezes os de 2022. Estes números revelam um resultado directo e simples: a linha divisória entre ambos os níveis de cultivo e produção é a retirada das forças americanas do Afeganistão.

Os navios de guerra e porta-aviões dos EUA não têm nada a ver com a cocaína e as drogas na América Latina; eles vieram por outro motivo (derrubar os governos de esquerda).

Os navios não foram mobilizados com tanta intensidade quando os níveis de produção e comércio de drogas eram mais elevados sob governos de direita no México e na Colômbia.

Além disso, Washington, nas suas políticas de aprovação e renovação de novos pacotes de ajuda para esses governos, nunca se deteve nem uma única vez na questão das drogas, muito menos em questões de violações dos direitos humanos.

O máximo que os documentos de aprovação de ajudas e subsídios diziam era: “As ajudas são renovadas com base nas intenções dos governos de reduzir o fluxo de drogas”.

Durante o primeiro mandato de Trump, o presidente colombiano era o direitista Iván Duque. Os relatórios do meio de comunicação Colombia Reports indicam que o mandatário, que chegou ao poder com a ajuda de organizações de narcotráfico, aumentou os laços de membros da sua família e do seu círculo íntimo com essas entidades e aumentou a sua riqueza graças à lavagem de dinheiro com essas redes.

Isso ocorreu durante a primeira vez que Trump ocupou a Casa Branca. E quem declarou guerra às drogas naquela época foi o presidente venezuelano Nicolás Maduro, afirmando que Duque tinha transformado a Colômbia em um “Estado narcotraficante”, que a Colômbia era responsável por 70% da cocaína produzida no mundo e que a área de terras cultivadas havia aumentado de 46 mil hectares para 200 mil.

Quando Maduro enfrentou a indústria da cocaína na Colômbia, o que Trump estava a fazer? E por que não dirigiu nenhuma crítica a Iván Duque, o aluno exemplar das instituições financeiras americanas?

O máximo que o magnata republicano mencionou foi a necessidade de continuar a pulverizar as plantações para eliminar a coca. Mas o tom da “guerra contra as drogas” só se intensificou com a vitória do esquerdista Gustavo Petro, um verdadeiro combatente contra os estupefacientes na Colômbia.

Quando a Guerra Fria terminou, os Estados Unidos precisavam de um título alternativo para "enfrentar a expansão do comunismo", e assim nasceu o rótulo da "guerra contra as drogas", pronto para ser usado conforme a necessidade.

Washington atacou o Panamá em 1989, numa agressão militar que pode ser considerada a maior desde a sua retirada do Vietname, e derrubou Manuel Noriega, que inicialmente se tinha aproximado dos EUA, sob o pretexto da guerra contra as drogas.

Mas os níveis de comércio não mudaram, e até aumentaram a sua passagem pelo canal.

E, de acordo com o Centro Médico CDC dos Estados Unidos, mais de 100 mil pessoas morreram no país vizinho devido a overdose de drogas, sendo que a cocaína foi responsável por 28% dessas mortes.

Um amplo sector político e social levanta várias questões aos responsáveis pelo governo:

  • por que não iniciaram a guerra contra as drogas dentro do país?
  • Quais são os factores culturais e económicos que levam os Estados Unidos a ocupar os primeiros lugares no consumo de drogas?

Quem disse que os navios de guerra terão sucesso onde as políticas internas falharam? Talvez a busca por respostas leve à conclusão de que os responsáveis americanos não estão a levar a sério a guerra contra as drogas, nem no interior nem no exterior.

Já ninguém acredita nos títulos das guerras americanas. Após a “luta contra as armas de destruição maciça” no Iraque, ficou provado que não existia nada disso, e as declarações de Colin Powell tornaram-se retroactivamente objecto de comédia negra.

Após a “guerra contra o terrorismo”, ficou claro que a coligação internacional estava a protelar a eliminação do Daesh, a usar a sua existência e até a tentar abortar o trabalho das forças que realmente o combatiam com seriedade (Irão, Forças de Mobilização Popular, Hezbollah, antigo exército da Síria).

Após várias rondas de promoção do lema “guerra pela democracia e pelos direitos humanos” e após os crimes de genocídio em Gaza, ficou provado para aqueles que promoviam este título que os direitos humanos não significam nada na agenda dos Estados Unidos.

Após a guerra contra o Irão, ficou evidente que o lema de neutralizar o "perigo" do programa nuclear — que é essencialmente pacífico — não passava de uma fachada espessa que encobria um projecto político integral.

Agora, com maior ênfase no título da “guerra contra as drogas”, os Estados Unidos procuram derrubar os governos que realmente combatem as drogas no continente latino-americano.

Fonte:

Autor:

Mohammad Faraj

Escritor e investigador jordano

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