
Argentina – Inglaterra: “coração aberto” nos Mundiais
A rivalidade futebolística entre argentinos e ingleses vai além do âmbito estritamente desportivo. O que começou por ser um jogo introduzido por operários britânicos em 1855 evoluiu para um confronto de identidades repleto de tensões políticas, culturais e emocionais que persistem no século XXI.
O que aconteceu a 22 de junho de 1986, nos quartos-de-final do Campeonato do Mundo, no Estádio Azteca, no México, é, para muitos, o ponto culminante da rivalidade entre a Argentina e a Inglaterra. No entanto, a história destes confrontos remonta a muito mais tempo, com motivos que vão além do campo e que ainda hoje, em pleno século XXI, são «coração aberto», como disse o jogador e antigo treinador da seleção albiceleste, Daniel Passarella.
O futebol chegou à Argentina precisamente através dos ingleses, numa data tão remota como 1855, quando os trabalhadores daquele país, que estavam a construir a infraestrutura ferroviária, praticavam este desporto nos seus tempos livres. Já em 1867 realizou-se o primeiro encontro oficial em solo gaúcho e, ao longo da história, não foram poucos os futebolistas argentinos que triunfaram nas ligas inglesas.
No entanto, os jogos entre estas duas selecções no Campeonato do Mundo são considerados um dos clássicos mais esperados. E tudo começou no segundo confronto entre elas nesta competição, que teve lugar a 23 de julho de 1966, no Estádio de Wembley, nos quartos de final. O árbitro alemão Rudolf Kreitlein, ao assinalar faltas a favor da equipa anfitriã, expulsou o capitão e médio argentino Antonio Ubaldo Rattin aos 36 minutos por ter contestado uma decisão sua.
Rattin, apesar de ter solicitado um intérprete porque o árbitro não falava inglês nem espanhol, retirou-se do campo de jogo 8 minutos depois. Em sinal de protesto, sentou-se no tapete vermelho de la Rainha Isabel II, o que é considerado uma afronta; e, já a caminho dos balneários, enquanto era alvo de objectos atirados pela claque e de insultos gritados, amassou a bandeirinha do canto, na qual estava impressa a bandeira britânica e soltou uma frase contundente: «ingleses, filhos da…». O jogo terminou com uma derrota por 1-0 dos sul-americanos, mas, desde então, a rivalidade entre ambas as equipas intensificou-se.
O capítulo mais memorável desta história teria lugar em 1986, quatro anos após a conhecida Guerra das Malvinas, onde mais de 600 jovens argentinos perderam a vida. O mundo assistiu à revanche, quando Diego Maradona conduziu a equipa à vitória por 2-1 com os dois golos mais emblemáticos da história dos Mundiais.
O primeiro, conhecido como «A Mão de Deus», um golo marcado com a mão que passou despercebido ao árbitro, mas não ao espírito de justiça que muitos argentinos sentiam no seu íntimo. O segundo, o melhor golo dos Mundiais, em que Maradona ultrapassou cinco jogadores ingleses para selar uma vingança futebolística e espiritual.
Mas a rivalidade não terminou nesse encontro. Em 1998, em França, ambas as equipas voltaram a defrontar-se nos oitavos-de-final. Desta vez, ocorreu uma falta desnecessária de David Beckham, que foi expulso e voltou a aquecer os ânimos em campo. O desfecho foi a segunda vitória da Argentina, desta vez de forma épica na série de penáltis por 4-3. O drama entre ambas as seleções parecia não ter fim.
Em 2002, as duas selecções enfrentaram-se pela quinta e última vez. A série estava empatada a duas vitórias para cada lado e, nesta ocasião, ficaram no mesmo grupo. Os ingleses venceram por uma diferença mínima, graças ao facto de Beckham ter vindo a vingar-se e, com um penálti marcado, ter acabado por dar a vitória ao seu país.
Actualmente, essa rivalidade acirrada atenuou-se em alguns aspectos, mas cada encontro entre a Argentina e a Inglaterra continua a despertar paixões que transcendem gerações. Para os sul-americanos, o futebol é uma extensão da sua identidade, e cada vitória sobre os ingleses é uma forma de reivindicação. Para os ingleses, é uma oportunidade de redenção no campo de jogo, aquele lugar onde há muito mais em jogo do que 11 jogadores a tentar marcar golos.
Assim, a história da Argentina e da Inglaterra continua e, para além dos golos e dos cartões, o futebol torna-se o palco de um drama eterno. Cada jogo é um novo capítulo, onde as cicatrizes do passado e as esperanças do futuro se entrelaçam em cada jogada. Como dizia o Diego: «é sempre uma final».
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