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Como a nova IA chinesa está a minar a vantagem dos EUA e a mudar as regras do jogo

O lançamento do GLM-5.2, o novo modelo de inteligência artificial da «startup» chinesa Z.ai, reacendeu a corrida tecnológica entre Pequim e Washington, colocando em causa a vantagem dos EUA e acelerando uma mudança nas regras da competição global em matéria de IA.

A competição entre os Estados Unidos e a China pela liderança no domínio da inteligência artificial está a tornar-se cada vez mais intensa. Um novo modelo chinês de IA já está a causar um alvoroço que o mundo não via desde o lançamento do DeepSeek R1, produto que, pela primeira vez, colocou seriamente em causa o domínio norte-americano sobre os chatbots de ponta.

E embora o novo avanço chinês ainda não possa ser considerado um golpe devastador contra a posição dos Estados Unidos, torna-se mais um sério desafio para toda a estrutura do mercado norte-americano de IA.

A questão principal hoje já não é quem é mais forte, mas sim se a inteligência artificial em si está a tornar-se mais barata, mais acessível e menos dependente da infraestrutura norte-americana, numa altura em que os gigantes tecnológicos norte-americanos investem centenas de milhares de milhões de dólares neste sector.

O que aconteceu?

Na semana passada, a «startup» chinesa Z.ai (Zhipu AI) apresentou o seu novo modelo de linguagem GLM-5.2, focado em tarefas complexas de programação e sistemas de agentes autónomos.

O modelo dispõe de uma janela de contexto de um milhão de tokens, o que o coloca ao mesmo nível de soluções norte-americanas de vanguarda, como o Claude Opus 4.8 da Anthropic e o GPT-5.5 da OpenAI.

Tal como o DeepSeek, o GLM-5.2 é distribuído sob uma licença de pesos abertos. Isto significa que os programadores podem descarregar os pesos do modelo, executá-los localmente e adaptá-los às suas próprias tarefas. A título de comparação, a maioria dos principais sistemas norte-americanos continua a ser de código fechado.

Os investidores reagiram imediatamente: as ações da empresa sediada em Hong Kong subiram 42 % e a sua capitalização ultrapassou, pela primeira vez, o bilião de dólares de Hong Kong (128 000 milhões de dólares americanos).

A China está a pisar os calcanhares aos EUA.

O sucesso inesperado da Z.ai desencadeou um debate público entre o fundador da empresa, Tang Jie, e Elon Musk.

O motivo foi uma discussão sobre quando a China poderá criar um concorrente de pleno direito para o modelo emblemático da Anthropic, o Claude Fable 5, considerado por muitos atualmente como a IA mais avançada do mundo. Musk sugeriu que isso não aconteceria antes do primeiro trimestre do próximo ano. Tang respondeu laconicamente: «Não vai demorar tanto».

«A Anthropic tem-se centrado, com razão, em maximizar a inteligência útil, algo que não se reflecte nos testes de desempenho, mas que, sem dúvida, se reflecte nas receitas», escreveu Musk. «A única coisa de que precisamos é de foco, em particular, concentrar-nos no que realmente é a inteligência…», respondeu o empresário chinês.

A corrida muda as regras

Segundo os especialistas, a «startup» chinesa está a mudar a própria lógica da concorrência global no domínio da IA.

«Pode ser que o GLM 5.2 ainda não seja propriamente a bola de demolição, mas é mais um golpe contundente contra a estructura de valorizações que sustenta o mercado de IA dos EUA», afirmou o analista de investimentos Stephen Innes.

«A questão mais importante é se a inteligência se está a tornar mais barata, mais portátil e menos limitada geograficamente, precisamente numa altura em que o complexo de hiperescaladores dos EUA está a investir centenas de milhares de milhões na construção de uma infraestrutura cujo preço se baseia no pressuposto de que a capacidade de ponta continuará a ser escassa, diferenciada e altamente rentável», acrescentou.

Segundo declarou à RT Anna Sytnik, directora-geral do Laboratório de Coordenação da Rússia e professora da Universidade Estatal de São Petersburgo, os Estados Unidos continuam a manter a liderança, mas a própria estrutura da concorrência mudou.

A China já não parece ser apenas uma parte que fica para trás. No segmento de aplicações, nos modelos abertos, no custo de implementação e na velocidade de escalabilidade, as empresas chinesas oferecem, com bastante sucesso, uma arquitectura alternativa para o desenvolvimento da IA”, destaca a especialista. 

«O mais recente modelo chinês da Alibaba, o Qwen3-Max-Thinking, demonstrou, em vários testes, resultados ao nível ou superiores aos dos modelos ocidentais mais sólidos. A Z.ai é, em geral, o que se poderia chamar de um novo DeepSeek: o seu modelo GLM-5.2 causou grande agitação precisamente porque superou os modelos líderes da Anthropic: o Opus 4.8 em programação e, na Design Arena, tirou o primeiro lugar ao Claude Fable 5. Ou seja, a IA aberta chinesa já compete não só em preço, mas também em qualidade», explica.

A batalha dos ecossistemas

Com o lançamento do Z.ai, já não se trata simplesmente de uma competição entre modelos, mas sim de uma disputa entre duas arquitecturas de negócio diferentes.

Os gigantes tecnológicos norte-americanos apostam em ecossistemas fechados, o que faz com que governos e empresas dependam constantemente das suas subscrições. A China, por seu lado, oferece uma integração mais económica, acesso aberto e a possibilidade de modificar os modelos de forma independente, compara Sytnik.

«O modelo que se revelará mais competitivo já não depende apenas da qualidade dos próprios modelos, mas também das alianças tecnológicas e das cadeias que se formarem à sua volta», acrescenta a professora, salientando que muitas empresas e entidades governamentais norte-americanas já se integraram neste ecossistema.

Na sua opinião, embora estas empresas também ofereçam aos países em desenvolvimento um pacote aparentemente aliciante, com acesso a modelos potentes, subsídios e soluções prontas a utilizar na administração pública, por trás disso esconde-se um risco evidente: «uma nova dependência tecnológica, esse mesmo colonialismo da IA».

Gostaria de acreditar que, no final, o modelo mais vantajoso será aquele que tenha em conta o interesse dos Estados pela soberania tecnológica” 

«Por enquanto, são as empresas chinesas que melhor interpretam esta agenda. Digamos-o sem rodeios: a Administração Trump não está a contribuir para que os gigantes norte-americanos da IA adotem abordagens semelhantes», sublinha Sytnik.

«Não basta que os países escolham entre o ecossistema fechado dos Estados Unidos e o da China. A única forma de obter resultados é trabalhar nas suas próprias arquitecturas, modelos, infraestrutura informática e soluções aplicadas; ou seja, não se ligar totalmente a uma IA alheia, mas sim desenvolver a sua própria», conclui a especialista.

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