“Das Ruas de Cuba para o Mundo: O Futebol que o Bloqueio Não Calou”
Há alguns anos, durante uma das minhas primeiras viagens a Cuba, testemunhei um milagre do quotidiano: a alegria pura com que as crianças brincavam nas ruas. Algo que se tornou raro de ver nas nossas cidades europeias, presas no individualismo.
Recordo-me especialmente de as observar jogar futebol – aquela cena despertou em mim memórias da minha própria infância. Sentava-me horas a fio a ver os miúdos transformarem qualquer espaço livre num campo de jogo. Um terreno baldio, uma rua tranquila, qualquer lugar servia para a bola rolar.
Enquanto isso, pensava nas crianças das nossas cidades. Aos 5 anos já sonham em ser Messi ou Ronaldo, pressionadas por pais que as inscrevem em academias de futebol antes mesmo de aprenderem a amar verdadeiramente o jogo.
Ontem escreveu-se uma página de história cubana. O “desastre” estava anunciado – todos previam uma goleada italiana sobre Cuba no Mundial FIFA Sub-20.
Mas Cuba fez história.
Não, Cuba não venceu o jogo, mas conquistou algo talvez mais significativo: um empate que mantém viva a esperança de passar à fase seguinte.
O confronto era desigual: de um lado, uma das maiores potências do futebol mundial, com acesso a treinadores de elite e equipamento de última geração. Do outro, Cuba – uma nação sob bloqueio económico há décadas.
Mas o povo cubano não se verga. Segue sempre em luta, seja no desafio diário de levar o pão para casa, seja num palco desportivo internacional.
E a emoção dos jogadores cubanos ao festejar o resultado histórico comoveria até o mais cético dos observadores. Correndo e gritando “¡Vamos Cuba!”, abraçando-se enquanto exclamavam “¿Tenemos o no tenemos fútbol papi? ¡Esto es Cuba!” – estas palavras ecoam a alma de um povo que nunca desiste.
Um dos atletas, ajoelhado no relvado, resumiu tudo: “Trabajo humilde, somos humildes, trabajamos”. E ao agradecer, mostrou onde reside a verdadeira força cubana: “Primeramente a mi familia, humildemente, sin ello no habría sido posible hoy”.
Estes jovens não são apenas futebolistas – são embaixadores da dignidade cubana.
Infelizmente não pude assistir ao jogo ao vivo, mas o breve resumo da FIFA mostrou dois golos que encheram de orgulho uma nação inteira. Uma nação construída por um povo justo e leal.
E quem sabe? Talvez há anos atrás, numa das minhas tantas estadias, tenha visto algum destes jovens atletas da seleção cubana a jogar feliz pelas ruas de Havana, vivendo a infância que merecem – livre, alegre e cheia de sonhos.
Este empate não é apenas um ponto na tabela – é a prova viva de que quando se joga com coração e humildade, até as previsões mais pessimistas podem ser desafiadas.

Autor:
Paulo Jorge Da Silva
Paulo Jorge da Silva, editor da página Cuba Soberana (https://cubasoberana.com/). Comunista internacionalista, anti-imperialista e solidário com a Revolução Cubana e Bolivariana e a luta dos povos pela soberania.


