
“É fixe ser fascista”. Será possível ir mais além do TikTok?
Há já algum tempo, digamos uma ou duas décadas do século XXI, têm vindo a surgir forças políticas em diferentes partes do mundo que se inclinam para uma direita cada vez mais extrema, com posições que fazem lembrar o nazifascismo da década de 30 do século passado. Ximena Roncal Vattuone apresenta uma caracterização muito precisa destes novos tempos:
«Nenhuma civilização no planeta é perfeita. Mas também não é desprovida de méritos. Nenhuma civilização pode considerar-se superior a outra.»
Xi Jinpig, presidente da China comunista
«Ao contrário da linguagem da direita tradicional, a linguagem da extrema-direita [actual] não procura construir uma rectórica que não se revele como tal. Não pretende dissimular nada de aberrante, nada de escabroso, nada de absurdo. A linguagem da extrema-direita revela a sua aspiração perversa ao «mal comum» e à dissolução da comunidade, ao mesmo tempo que celebra abertamente a ganância, a injustiça e a crueldade em todas as suas formas.»
Miguel Mazzeo
A frase utilizada como título: «É fixe ser fascista», foi proferida por um jovem argentino, quando lhe perguntaram por que razão tinha votado no actual presidente, Javier Milei.
É importante esclarecer que a palavra inglesa «cool» tem vários significados (fresco, sereno, atraente), mas hoje, em espanhol, o seu uso mais comum (principalmente entre os jovens e nas redes sociais) deriva do seu sentido coloquial em inglês, que pode ser traduzido correctamente como: genial, fantástico, muito bom, maravilhoso. Então: será que é genial, estupendo, muito bom e maravilhoso ser fascista? Muito provavelmente, o jovem em questão nem sabia o que estava a dizer; estava apenas a repetir algo que está no ar, que se impôs como uma tendência cultural.
É por isso que um monstro palhaço como o Milei pode ganhar uma eleição.
Hoje, sem dúvida, assistimos a um clima de guinada generalizada para a direita. O que há 50 anos era a tendência dominante no mundo — um clima de protesto social que se manifestava em diversas acções antisistema (lutas operárias e camponesas, sindicatos combativos, lutas estudantis, movimentos guerrilheiros, o Maio Francês, a libertação feminina, movimentos hippies pacifistas, a Teologia da Libertação) — transformou-se agora — não por acaso, claro — numa crescente despolitização, com a adopção de valores conservadores. É por isso que aquele jovem pode votar alegremente no seu algoz e concordar — muito provavelmente sem saber porquê — com posições supremacistas, de negação do outro diferente e ultra-individualistas. Tudo isto, aliás, tem uma explicação.
No final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, com a vitória dos Aliados — tendo sido a União Soviética a que mais se empenhou (e com o apoio de praticamente todos os países do mundo, que entraram na contenda quase como uma formalidade, quando o destino dos derrotados já estava selado) —, parecia que o pensamento fascista se estava a extinguir. Mais de meio século depois, verifica-se que não é assim. As posições de extrema-direita vêm a consolidar-se em diferentes regiões do mundo, com a mesma força, o mesmo desprezo visceral pelo que é diferente e a mesma entronização do supremacismo que se verificava há sete décadas.
O que é a extrema-direita? Uma visão extrema, ou extremista, da ideologia conservadora. Ou seja: uma defesa total, sem qualquer crítica, do sistema capitalista (como é o caso de todas as posições de direita), mas, ao contrário de uma atitude liberal, ou mesmo social-democrata, apresenta uma ênfase marcante em ideias supremacistas e de superioridade, construindo sempre um «outro» como inimigo, com um ódio visceral profundo contra esse estranho, esse diferente que é sempre percebido como intrinsecamente nocivo e perigoso.
No ressurgimento do neofascismo que se tem vindo a observar nestes últimos anos, já no século XXI, o inimigo a derrotar continua a ser um «outro» considerado «preocupante», inaceitável e demonizado. É uma tendência humana de sempre — levada ao extremo pelo capitalismo, que começou a globalizar-se a partir da «descoberta» da América, no final do século XV — que possa existir esse «outro» diferente que acaba por se tornar inimigo (naquela época: as «raças selvagens» que era preciso «civilizar» — ou seja, subjugar). A noção de superioridade em relação a alguém considerado inferior, marginalizado numa suposta escala humana, é algo que percorre a nossa história enquanto espécie, pelo menos desde que existem sociedades estratificadas em classes sociais, com «superiores» e «inferiores».
O que sustenta esta atitude fascista? Um profundo desprezo pelo outro — tem de haver sempre um bode expiatório, um inimigo —, um ódio visceral pelas noções de igualdade, solidariedade e camaradagem (precisamente aquilo que o socialismo defende), uma entronização do darwinismo social: a sobrevivência do mais forte, neste caso, dos «triunfadores», que se sentem com mais direitos sobre os «inferiores». É no âmbito dessa ideologia, que se impôs recentemente, que surge o termo depreciativo «loser», «perdedor».
Essas forças de extrema-direita dos anos 30 (nazismo alemão, fascismo italiano, falangismo espanhol), características do início do século XX, quando as ideias socialistas começavam a espalhar-se pelo mundo — e não apenas pela Europa —, tinham um inimigo claro: a classe operária revolucionária e as suas organizações políticas e sindicais em ascensão, combativas e claramente anticapitalistas. O «demónio» a derrotar naquela altura, para a classe dominante, tinha o rosto de Karl Marx. Hoje, quase um século depois, esse «perigo» basicamente não mudou de aparência. O inimigo a derrotar pela elite mundial (em todos os países capitalistas, sem excepção) continua a ser qualquer tentativa de desestabilização desse mundo, qualquer alternativa que questione o mercado e a empresa privada. É por isso que os Estados Unidos continuam a manter um bloqueio desumano contra a Cuba socialista, para acabar com esse «mau exemplo». Mas, embora o capitalismo continue a ser essencialmente o mesmo — baseado na exploração da classe trabalhadora, produtora de mais-valia, que acaba por ser apropriada pela classe proprietária dos meios de produção —, a arquitectura global mudou muito neste período de mais de meio século.
O mundo do pós-guerra de 1945, quando o nazifascismo foi derrotado militarmente pelas forças aliadas, já não é o mesmo; pelo contrário, ocorreram mutações muito profundas. Durante várias décadas, impôs-se um capitalismo redistributivo, com rosto humano, e as teses de John Keynes marcaram o caminho, promovendo um Estado-providência generalizado, sempre sob a liderança de Washington. Hoje, esse capitalismo está bloqueado, atolado, com uma liderança que enfrenta graves dificuldades (o endividamento fiscal dos Estados Unidos ultrapassa o seu PIB, e a sua outrora dinâmica indústria estagnou, dependendo agora, essencialmente, da especulação financeira), e a zona do dólar — até agora dominante a nível mundial — encontra-se em declínio perante o avanço dos BRICS+, que procuram um capitalismo desdolarizado. A crise financeira de 2008 ainda tem repercussões e, embora a riqueza gerada a nível global aumente, também aumentam a pobreza, a pauperização de grandes massas e a catástrofe ecológica, resultado de um consumismo voraz, induzido e irracional, por meio da obsolescência programada.
Há já algum tempo, digamos uma ou duas décadas do século XXI, têm vindo a surgir forças políticas em diferentes partes do mundo que se inclinam para uma direita cada vez mais extrema, com posições que fazem lembrar o nazifascismo da década de 30 do século passado. Ximena Roncal Vattuone apresenta uma caracterização muito precisa destes novos tempos:
[Estas novas] «direitas caracterizam-se por defender as comunidades heteropatriarcais, promover o statu quo racial e de classe resultante da exploração capitalista; a normalização da violência estrutural e física como mecanismo de controlo e dominação, e como condição inerente à espécie humana. Da mesma forma, defendem uma visão biologicista da vida num sistema económico competitivo e predatório, reagem contra os feminismos e a linguagem inclusiva, bem como contra as políticas de género, negando a existência de diversas subjectividades e sensibilidades. A direita propaga, como armas políticas, o pânico baseado no racismo, na xenofobia, no ódio ao socialismo e/ou ao comunismo, ou seja, a construção dos «inimigos existenciais» (Roncal Vattuone: 2024)
Por que razão se verifica esta viragem ideológico-cultural das populações para a direita, ou para a extrema-direita? Por que razão este rapaz vota em Milei e se sente «fixe» por repetir ideias supremacistas? A maioria dos países latino-americanos vota em candidatos de extrema-direita e, mesmo que na Colômbia e no Peru acabem por vencer propostas social-democratas (esquerda muito moderada), essas são vitórias pírricas, com metade da população — e as suas oligarquias e a embaixada norte-americana — à espera da viragem para a direita. Definitivamente, as populações reagem assim, sentindo-se protegidas pelos seus próprios algozes, a quem dão o seu voto, e não por serem «idiotas», pois há outros factores que influenciam essa situação:
• O auge do neoliberalismo nas últimas décadas, que fomentou um individualismo extremo («salve-se quem puder!»).
• A derrota actual das propostas socialistas (a situação de Cuba — resultado de um infame bloqueio que já dura mais de seis décadas — é apresentada como a prova do fracasso do socialismo). Como disse Margaret Thatcher: «Não há alternativa», ou capitalismo… ou capitalismo!
• Um clima de crescente guinada para a direita que tende a repetir-se de forma imitativa (as tendências, ou modas, acabam por se banalizar e tornam-se «cool», como a do exemplo citado).
• Crise do sistema capitalista (que, por mais que queira, não consegue resolver os enormes problemas sociais: produz mais comida do que o necessário e, enquanto alguns sofrem de obesidade no Norte, uma imensa maioria sofre de desnutrição no resto do mundo, o que pode gerar reacções «loucas» e desesperadas, e a Síndrome de Estocolmo impõe-se).
• Ascensão da robótica e da inteligência artificial e exclusão de grandes massas que perdem os seus empregos (o que leva a identificar erroneamente o inimigo, fazendo crer que o aumento da pobreza no Norte é resultado da «invasão» de imigrantes do Sul).
• Um bombardeamento mediático impressionante (agora também através da Internet) que não deixa espaço para o pensamento crítico (a leitura passa à história, com o auge imparável do audiovisual), moldando com uma precisão científica muito bem estudada a mente da população global, sempre num clima de total demonização da mudança social: «comunismo» e «luta de classes» foram — à força — expulsos do vocabulário quotidiano.
Insistamos nisto e deixemos como ideia central desta breve nota: as populações — ou o jovem citado — não são estúpidas. Fazem com que pareçam estúpidas! (Quando ler este texto, milhares de milhões de pessoas no planeta estarão a gritar desenfreadamente pelos golos de um «pão e circo» moderno muito bem organizado). Será que é fixe sentar-se a ver na televisão, com uma cerveja na mão, 104 jogos de futebol?
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Autor:
Marcelo Colussi | Cientista político, professor universitário e investigador social. Nascido na Argentina, estudou psicologia e filosofia no seu país natal e vive actualmente na Guatemala. Escreve regularmente em meios electrónicos alternativos. É autor de vários textos na área das ciências sociais e da literatura.
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