Cuba

Mais um passo: Sanções, retórica e a pressão que não cessa

Novas sanções dos EUA, Rubio evita responder a perguntas, a Meliá encerra as suas actividades e a UE anuncia ajuda humanitária. A pressão não cessa, mas Cuba continua de pé.

Washington intensifica o cerco com novas sanções, enquanto Rubio evita responder a perguntas sobre o plano concreto. A Meliá encerra as suas operações em Cuba e a UE anuncia ajuda. O impasse continua.


O dia começa com um novo agravamento da política de pressão máxima. O Departamento de Estado confirmou ontem a inclusão de nove entidades e dois funcionários cubanos na lista ao abrigo do Decreto Executivo 14404, o mesmo que, desde maio, permite a imposição de sanções secundárias contra países terceiros que mantenham laços económicos com a ilha.

O comunicado oficial de Washington insiste na fórmula já conhecida: cortar o acesso do Governo cubano a receitas que classificam como ilícitas, entre as quais as que provêm das missões médicas. Trata-se da enésima ronda desde que a ordem entrou em vigor e confirma que a lógica de asfixia económica continua a ser o eixo central, e não um episódio isolado.


Rubio a partir de Manila: um discurso de grande ambição, mas sem qualquer substância operacional

Paralelamente, o próprio secretário Rubio, a partir de Manila, voltou a repetir o discurso de sempre quando questionado sobre o plano concreto para Cuba: «Queremos que Cuba seja livre», afirmou, mas evitou entrar em pormenores quando um jornalista lhe perguntou diretamente se pretendem uma mudança de regime por colapso económico ou se contemplam outra via.

«Esse contraste — um discurso de grande ambição, mas sem qualquer substância operacional — é precisamente o que começou a gerar atritos no seio dos Estados Unidos.»

A evasão de Rubio não é por acaso. Se tivesse um plano concreto e verificável, já o teria apresentado. Mas não o tem. Tem uma narrativa: Cuba deve ser «livre». Mas quando lhe perguntam como, o discurso torna-se vago, genérico e vazio.

E isso está a gerar atritos. Uma análise recente publicada na imprensa nova-iorquina questiona se o aparelho diplomático está a ser utilizado para fins de política interna, salientando que sectores democratas e especialistas em direitos humanos vêm nesta ofensiva um padrão de mobilização eleitoral, em vez de uma política externa séria.

Não se trata de uma observação sem importância. A política em relação a Cuba está a tornar-se um instrumento de campanha, e não uma estratégia de Estado. E isso, mais cedo ou mais tarde, acaba por desgastar quem a promove.

A Casa Branca: «Um Estado falhado à beira do colapso»

A Casa Branca não ficou atrás: a porta-voz Karoline Leavitt voltou a classificar Cuba como um «Estado falhado à beira do colapso».

«É importante referir que esta designação já tinha sido utilizada pelo próprio Trump desde fevereiro, e que Rubio a repetiu em várias ocasiões desde maio. Não se trata de uma novidade substancial, mas sim da reiteração de uma narrativa que Washington utiliza tanto para justificar a pressão externa como para o seu próprio debate interno sobre o comunismo.»

A repetição não é por acaso. O rótulo de «Estado falhado» é uma construção narrativa que procura incutir na opinião pública norte-americana a ideia de que Cuba é um caso perdido, que não merece diálogo, que só merece pressão. Mas a realidade é que Cuba continua de pé, com todos os seus problemas, mas de pé.

O problema de repetir uma mentira é que, à força da repetição, ela pode tornar-se verdade na mente de quem a ouve. E esse é o objectivo: criar um consenso para justificar qualquer ação futura, mesmo as mais extremas.


Protestos sociais: o desânimo real e a coordenação externa

Sobre as reivindicações sociais: a imprensa internacional — incluindo a cobertura recente de agências como a Reuters e portais especializados no acompanhamento da situação em Cuba — confirma o que já sabemos: os cortes de energia prolongados, a escassez de combustível e a deterioração do sistema eléctrico continuam a ser o factor desencadeante imediato das reivindicações nos bairros.

«Aqui, o verdadeiro desânimo não nos deve cegar perante aqueles que procuram tirar partido disso politicamente. Já estão até a convocar manifestações com panelas — algo habitual por parte do grupo da Flórida —, o que revela um padrão diferente das reivindicações sociais espontâneas: uma tentativa de coordenação externa, hora marcada, um quadro político imposto a partir de plataformas de Miami. É essa nuance — coordenação vinda de fora versus mal-estar genuíno vindo de dentro — que devemos ter bem clara.»

A diferença é crucial. Existe um mal-estar real nos bairros cubanos, provocado pelo bloqueio, pela crise energética e pela escassez. Esse mal-estar é legítimo e deve ser atendido. Mas também existe um esforço sistemático vindo do exterior — a partir de plataformas digitais de Miami, do grupo subversivo — para capitalizar esse mal-estar, coordenar protestos e atribuir-lhes um enquadramento político que não corresponde à espontaneidade das reivindicações.

Não se trata de negar o mal-estar, mas sim de distinguir o mal-estar genuíno da tentativa de instrumentalização. Essa distinção é fundamental para não cair na armadilha daqueles que procuram usar o sofrimento do povo cubano como combustível para a sua agenda política.

A Meliá encerra as suas atividades: o turismo como alvo da pressão

Uma notícia de última hora que não se deve deixar passar: a cadeia hoteleira espanhola Meliá anunciou o encerramento total e definitivo das suas operações em Cuba, com efeito a partir de hoje mesmo.

«Não se trata da redução parcial de que vínhamos a falar desde junho com a Gaviota, mas sim da saída total.»

Esta informação contrasta com a denúncia que circulou ontem sobre gestores estrangeiros que continuam à frente de hotéis apesar das sanções: a realidade mostra que a pressão está, de facto, a fazer com que os grandes operadores turísticos tomem medidas, e esse é um aspecto que a versão oficial de Washington irá explorar nas próximas horas.

A Meliá não é uma empresa qualquer. É um dos operadores turísticos mais importantes de Cuba, com décadas de presença na ilha. A sua saída não é um gesto simbólico: é uma decisão económica motivada pelo receio das sanções secundárias da Ordem Executiva 14404. As sanções destinam-se a asfixiar a economia cubana, mas também a punir quem faz negócios com Cuba. A mensagem de Washington é clara: «Ou estão connosco ou estão contra nós.»

A Meliá foi-se embora. A Gaviota reduziu as suas operações. O turismo, que era uma das principais fontes de divisas para Cuba, está a ser sistematicamente afectado. O bloqueio não é apenas uma restrição comercial; é uma guerra económica total.


A nota dissonante: a Comissão Europeia e os 10 milhões de euros

E não pode faltar o gesto europeu: a Comissão Europeia anunciou 10 milhões de euros adicionais em ajuda humanitária para a população cubana, destinados a idosos, crianças, grávidas e comunidades remotas.

«É uma nota dissonante face à escalada punitiva de Washington: enquanto um interveniente internacional aumenta a ajuda directa, outro intensifica o cerco.»

O contraste é revelador. Enquanto Washington aperta o cerco com sanções, retórica de «Estado falhado» e pressão sobre os operadores turísticos, a União Europeia — que não é propriamente um aliado incondicional de Cuba — aumenta a sua ajuda humanitária. Não se trata de uma contradição menor: é a prova de que a política de pressão máxima de Washington não é partilhada por todos os actores internacionais.

A Europa aposta na ajuda. Washington aposta no cerco. A diferença é substancial e não passará despercebida pela comunidade internacional.


No final do dia: a pressão não cessa, mas Cuba continua de pé

Com isto, encerramos a edição de hoje do Amanecer Cubano. A pressão de Washington não cessa: novas sanções, a retórica do «Estado falhado», a saída da Meliá, manifestações com panelas convocadas a partir de Miami. Mas também há gestos de solidariedade internacional, como os 10 milhões de euros da Comissão Europeia.

A batalha trava-se em várias frentes: económica, narrativa e diplomática. E em todas elas, Cuba resiste. Não sem dificuldades, não sem custos, mas resiste.

Bom dia, Cuba.


✊️ Isto é o Amanecer Cubano. As análises continuam ao longo do dia a partir de La Esquina.

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