Cuba

Miguel Díaz-Canel, em entrevista exclusiva à RT: “O interesse em investir em Cuba não se limita aos EUA.”

«Para nós, não é aceitável que a implementação das transformações provoque um aumento das desigualdades», afirma Miguel Díaz-Canel Bermúdez, presidente de Cuba. Numa entrevista exclusiva à RT, ele aprofunda as novas medidas aprovadas pelo seu Governo e o desafio político que estas representam. Além disso, sublinha que, embora a agressão da política dos EUA em relação a Cuba seja agora maior do que em qualquer outro momento, o Governo cubano procura evitar um confronto entre os dois povos.

O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, concedeu uma entrevista à RT, na qual falou sobre as mudanças que devem ocorrer na economia da ilha para que esta prospere no meio do bloqueio norte-americano, sobre a importância do diálogo e sobre como contrariar a agenda «mentirosa» dos meios de comunicação ocidentais.

Urgência de transformações

«Diria que as transformações que queremos empreender, que queremos implementar, que já demos a conhecer, eram transformações indispensáveis.  Era preciso fazê-las, era preciso fazê-las mesmo que não estivéssemos a viver este contexto, porque têm como objetivo aperfeiçoar a construção do socialismo no nosso país», explicou o chefe de Estado.

Segundo ele, algumas mudanças têm vindo a ser adiadas ao longo do tempo porque «apresentam riscos e implicam desafios», e ainda é preciso trabalhar muito «para que sejam melhor compreendidas». Além disso, há alterações que devem ser aprovadas num «contexto extremamente complexo, em que se verifica toda uma tendência hegemónica por parte do Governo dos Estados Unidos, que está a tentar esmagar o multilateralismo, que recorre à força como meio para resolver conflitos e que está também a conduzir o mundo para uma situação em que se desrespeita o direito internacional e a Carta das Nações Unidas».

«Hoje, não estamos apenas a viver o bloqueio tradicional ao qual temos resistido há mais de 66 anos; já não estamos apenas a viver esse bloqueio, mas sim o seu recrudescimento, que foi a característica que a Administração Trump lhe imprimiu no seu primeiro mandato. Agora temos toda a acumulação desses dois momentos e, além disso, um bloqueio energético. É uma política de asfixia máxima, de pressão máxima, com o único objetivo de quebrar a vontade do Estado. Estão a aplicar um castigo colectivo contra a população cubana. É uma manifestação de genocídio e de crime», denunciou Díaz-Canel.

Neste sentido, manifestou a sua convicção de que «em algum momento, aqueles que têm sido os artífices desta política contra Cuba terão de responder a nível internacional pelo crime e pelo genocídio que orquestraram». «E perante isso é preciso agir, é preciso agir, é preciso agir com sentido de urgência, com sentido de responsabilidade e também com muita sangue-frio», exortou.

“Castigo coletivo”

O presidente salientou a importância de um debate justo face aos desafios que o país enfrenta.

«O que se passa é que temos de ser realistas face ao momento que estamos a viver, com toda essa complexidade que te expliquei. Há seis meses que não chega nenhum navio com combustível; só chegou um navio russo», afirmou.

«Aqui, [os norte-americanos] exerceram tanta pressão sobre as empresas estrangeiras que uma parte significativa delas se retirou do país. Hoje, os nossos processos económicos, produtivos e de prestação de serviços sofrem uma grande deterioração, como parte desta punição colectiva. Por isso, enfrentamos um grande dilema que temos de ser capazes de resolver», explicou.

O chefe de Estado referiu que Cuba continua a construir o socialismo, «não só para resistir, mas para avançar», apesar de estar sujeita ao «bloqueio mais prolongado já imposto pela potência mais poderosa do mundo e que, agora, se agrava com um bloqueio energético».

Qual é a essência das transformações?

O presidente explicou também qual é a natureza das alterações previstas. «Qual é a essência das transformações que estamos a propor? Pois bem, que essas transformações libertem as forças produtivas e que, ao libertar as forças produtivas, criemos riqueza e que sejamos capazes de distribuir essa riqueza com justiça social», sublinhou.

«Acreditamos que, no final de julho, já estaremos em condições de começar a aplicar 121 dessas mais de 170 mudanças», prometeu, acrescentando que as primeiras delas estarão «destinadas às pessoas em situação de vulnerabilidade, aos reformados e às pessoas com rendimentos mais baixos».

«Vamos começar a trabalhar, vamos corrigir o que correr mal, vamos ampliar o que correr bem e vamos assimilar as novidades que forem propostas», concluiu.

Os EUA não podem limitar a capacidade de ação de Cuba

Oliver Zamora também recordou, durante a conversa, que «os Estados Unidos fazem tudo o que está ao seu alcance para afastar os investidores de Cuba». Neste sentido, questionou quais seriam as possibilidades de sucesso das transformações cubanas neste contexto.

Díaz-Canel deu uma resposta contundente: os bloqueios não podem limitar a capacidade de acção de Havana, nem as suas políticas internas podem ser subordinadas ao que Washington pretende impor-lhes como castigo coletivo.

«É verdade que eles estão a tentar fazer com que não haja investidores em Cuba, mas os mercados de investimento e o interesse em investir em Cuba não se limitam aos Estados Unidos, estendem-se a outras regiões do mundo», sublinhou o chefe de Estado.

«Infelizmente, não falamos publicamente dessas coisas porque existe uma perseguição verdadeiramente agressiva contra todos aqueles que têm e querem fazer negócios com Cuba. […] Há muitas pessoas, muitas empresas, muitas entidades que têm interesse em trabalhar com Cuba e que estão dispostas a não se submeterem às imposições de uma nação que se considera o império capaz de governar o mundo», afirmou.

«Temos todo o direito, independentemente deste bloqueio cada vez mais severo, de ter a possibilidade de comprar combustível em qualquer parte do mundo, tal como qualquer outro país do mundo pode fazer. Temos o direito de manter relações comerciais com outras partes do mundo. Temos o direito de receber investimentos», especificou.

O líder reiterou que é sempre necessário prestar atenção às condições em que Cuba tenta prosseguir o seu desenvolvimento. «O que se passa é que ninguém teve de construir o socialismo, insisto, nas condições em que Cuba o teve de fazer. Mais de 60 anos sob o bloqueio mais prolongado da história. Mas trata-se de um bloqueio com que características? Económico, comercial e financeiro. Quem o aplicou? A potência mais poderosa do mundo, que é também a que controla o comércio mundial e as finanças mundiais. Portanto, não estamos a falar de um bloqueio qualquer. E, além disso, agora intensificaram-no», indicou o líder. 

“Nem calco nem cópia”

Díaz-Canel comentou, ainda, o que Cuba está a fazer: se está a trilhar o seu próprio caminho ou a copiar modelos de outros países. «Temos um intercâmbio regular de experiências, que se realiza anualmente entre os nossos partidos comunistas, com o Partido Comunista Chinês e com o Partido Comunista do Vietname, para analisar a forma como estamos a levar a cabo os processos de construção social», afirmou.

Mas, ao mesmo tempo, Havana está a construir o seu próprio modelo, porque as suas condições históricas concretas «são diferentes». «A China e o Vietname, quando iniciaram as reformas há anos, não estavam bloqueados. Chegaram mesmo, a certa altura, a ser tratadas pelos Estados Unidos como nações mais favorecidas», afirmou. «Por isso, nem calco nem cópia. O que temos de fazer é uma criação heróica», expressou.

Por que é importante o diálogo com os EUA?

O presidente cubano explicou por que razão a ilha mantém um canal de diálogo com os Estados Unidos e se vale a pena prosseguir com esses contactos.

«Temos de voltar aos pontos de referência históricos. A revolução sempre defendeu que se encontrasse, através do diálogo, a solução para as divergências bilaterais entre Cuba e os Estados Unidos. Convencido de que teremos sempre divergências ideológicas, mas também convencido de que é possível encontrar áreas e espaços nos quais possamos construir uma cooperação que beneficie ambos os povos, que nos ajude a garantir a paz e a estabilidade de ambas as nações e também da região latino-americana», afirmou.

Neste sentido, precisou que o confronto «não é o que os povos das duas nações merecem». «Acredito que podemos estabelecer uma relação civilizada entre vizinhos, independentemente das nossas diferenças, mas tem de ser numa base de respeito e igualdade, onde nada seja condicionado e onde, evidentemente, as questões relativas ao nosso sistema político, à nossa autodeterminação, à nossa independência e à nossa soberania não estejam em debate», afirmou.

«Porque sempre defendemos — foi o Fidel [Castro], também general do Exército, que nos ensinou isso — que o diálogo é o caminho para alcançar a paz, e a paz é a premissa para alcançar a estabilidade, para podermos avançar, para que o mundo seja melhor. E é por isso que defendemos o diálogo», explicou.

Díaz-Canel afirmou que, no entanto, «é muito difícil manter um diálogo nestas condições, quando há uma potência que assume constantemente o papel de agressora» e «historicamente não tem cumprido os seus compromissos».

Segundo ele, os EUA apresentam agora «um elevado nível de retórica ameaçadora», falam de uma possível agressão militar e recorrem a «práticas muito perversas para continuar a intensificar esse castigo colectivo e esse cerco» sobre Cuba. 

Agora, denunciou o presidente, Washington inventou outro pretexto para convencer o mundo de que esta agressão contra a ilha é necessária: acusa a Havana de financiar e criar «uma plataforma de terrorismo político de esquerda». «O mundo sabe que somos um país de paz,  por isso defendemos a paz, por isso defendemos o diálogo, por isso, mesmo em circunstâncias tão difíceis, mas a partir de uma posição de princípio, procuramos avançar no diálogo», afirmou Díaz-Canel, acrescentando que a ilha não quer a guerra, porque seria «um banho de sangue que traria consequências terríveis para ambas as nações», tanto a cubana como a norte-americana.

Narrativa mediática «supremacista» e «mentirosa»

Aprofundando o tema das agressões norte-americanas, o líder denunciou a narrativa mediática «supremacista, capitalista e imperial» com a qual Washington tenta ocultar a sua responsabilidade pelos desafios que a ilha enfrenta.

«Costumo caracterizar a agressão multidimensional que o Governo dos Estados Unidos exerce atualmente contra Cuba como tendo uma componente ideológica, uma componente cultural e uma componente mediática», afirmou o chefe de Estado.

«Ideologicamente, estão a tentar impor-nos um pensamento hegemónico. Culturalmente, estão a tentar apagar a nossa identidade. […] E tudo isto está a ser apoiado pelos meios de comunicação social através de uma enorme estratégia de comunicação política supremacista, capitalista e imperialista, que contém uma componente extremamente elevada de desinformação mediática. Muito caluniosa, muito mentirosa“, acrescentou.

Neste sentido, Díaz-Canel precisou: «Já vimos isso não só no caso de Cuba, fazem isso em todo o mundo». «Fizeram-no para manipular a situação na Venezuela, fizeram-no para justificar a guerra contra o Irão», alertou.

«Considero que, por mais perverso que seja o prolongamento do bloqueio ao longo do tempo, é igualmente perverso o modo desrespeitoso e cínico com que o Governo dos Estados Unidos acompanha esse prolongamento do bloqueio, através de uma narrativa em que tenta ocultar a sua culpa e a atribui aos conceitos destes Estados falhados, tentando maximizar todos os problemas que Cuba enfrenta e  não lhe atribuem a responsabilidade, pois é a causa desses problemas», criticou.

No final da entrevista, Oliver Zamora agradeceu ao líder cubano por ter dedicado, mais uma vez, alguns minutos à RT «em momentos tão difíceis». «Estamos sempre a acompanhar-vos, sempre, quando queremos esclarecer-nos no meio de tantas mentiras que se dizem no mundo», respondeu Díaz-Canel.

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