
O mercado das necessidades: a evolução do conflito entre Cuba e os EUA
O diferendo entre Cuba e os Estados Unidos, que durante seis décadas se baseou em questões ideológicas — liberdade versus socialismo, democracia versus soberania —, transformou-se silenciosamente numa disputa económica de grande impacto.
Parte I: O mosaico
O diferendo entre Cuba e os Estados Unidos, que durante seis décadas se baseou em questões ideológicas — liberdade versus socialismo, democracia versus soberania —, transformou-se silenciosamente numa disputa económica de grande impacto. O que antes se apresentava como uma cruzada política traduz-se hoje numa rede de interesses financeiros que opera a partir da Flórida, onde o lobby cubano-americano transformou a crise cubana num mercado lucrativo: o mercado das necessidades.
Este ecossistema alimenta-se do endurecimento das sanções promovidas pela Administração Trump, que restringem as operações estatais cubanas e abrem espaço para intermediários privados. Nesse vazio, empresários ligados ao exílio criaram empresas de entregas, importadoras de alimentos, plataformas de serviços administrativos e negócios de envio de remessas que lucram com a escassez. O que se vende não é apenas mercadoria: vende-se sobrevivência.
Os números falam por si. Em 2024, as exportações dos Estados Unidos para Cuba ultrapassaram os 586 milhões de dólares, sendo dominadas por produtos de primeira necessidade: frango, soja e milho, que representaram mais de 90% do total. A União Europeia e o Brasil contribuem com mais um terço de alimentos e combustíveis, enquanto empresas privadas cubanas e cubano-americanas — algumas registadas em Miami, outras em Havana sob a forma de MPMEs — canalizam importações de electrodomésticos, alimentos e combustíveis, muitas vezes através de intermediários europeus e brasileiros.
O défice comercial de Cuba em 2022 foi superior a 7,6 mil milhões de dólares, o que reflecte a dependência destas importações. Paralelamente, plataformas como a Bizcaribe ligam fornecedores internacionais a Cuba, oferecendo discrição e pagamentos seguros, enquanto as empresas privadas de entregas se multiplicam, apesar das denúncias de fraudes e adulteração de envios.
O Banco Central de Cuba autorizou a utilização de criptomoedas para pagamentos internacionais, o que permite a estas novas empresas contornar as sanções e operar num circuito financeiro paralelo. Nesse espaço surgem nomes como Dofleini, La Meknica, Pasarela Digital SURL ou Productos Sanitarios S.A. Prosa, que representam, sem rodeios, o embrião de uma elite tecnológico-financeira dentro da ilha. Estas empresas, juntamente com as MPMEs de entregas e comércio digital, apoiam-se em remessas e activos virtuais para consolidar um poder económico flexível e difícil de rastrear. A equação é clara: enquanto o Estado depende do investimento estrangeiro e da dívida externa, estas empresas privadas financiam-se com criptomoedas e remessas, o que lhes confere uma vantagem em tempos de crise.
O lobby cubano-americano, liderado por figuras históricas da Fundação Nacional Cubano-Americana (FNCA), conseguiu que o bloqueio se mantivesse como instrumento político e económico. A sua influência no Congresso e no gabinete de Trump garante que as restrições não sejam atenuadas, criando um ambiente em que os empresários do exílio podem operar sob o pretexto da «ajuda humanitária», ao mesmo tempo que obtêm margens de lucro superiores a 30%.
A legitimidade política deste mercado assenta numa paradoxo: condena-se o Estado cubano pelo seu controlo económico, mas permite-se que um grupo de empresários privados controle o acesso a bens essenciais. Na prática, o lobby transformou o diferendo numa economia de pressão, onde a escassez é o combustível do negócio.
Perante este emaranhado, a GAESA — o conglomerado empresarial das Forças Armadas — actua como o principal concorrente interno. Controla o turismo, o sector bancário, a energia e o comércio externo, e representa a última barreira do Estado contra a recolonização económica. No entanto, as sanções enfraqueceram-na, reduzindo a sua capacidade de importar e de manter liquidez internacional. O lobby cubano-americano procura precisamente isso: enfraquecer a GAESA para abrir espaço a uma nova classe empresarial que, sob o manto da «liberdade económica», poderia tornar-se uma casta político-empresarial com poder real sobre a economia cubana. A estratégia é clara: sanções que geram escassez, lobby que legitima o negócio, empresas privadas que lucram com a crise e a GAESA como a barreira de contenção que resiste.
O turismo e a mineração continuam a ser os pilares macroeconómicos do país, com receitas superiores a 8 mil milhões de dólares por ano, de acordo com dados mais próximos da realidade. Mas o mercado paralelo, embora de menor volume, é mais rentável em termos de margens. A sua estrutura ágil, o acesso às criptomoedas e a ligação às remessas conferem-lhe uma flexibilidade que o Estado não consegue igualar. A equação é simples: quanto maior a crise, maior o lucro privado. E enquanto a população afunda na precariedade, os intermediários do exílio consolidam o seu poder económico e político. O povo cubano torna-se cliente cativo de um sistema que vende a sobrevivência a preço de ouro.
O «mercado das necessidades» não é um fenómeno espontâneo, mas sim o resultado de uma estratégia deliberada. As sanções, o lobby e a crise combinam-se para criar um sistema onde a miséria se transforma em mercadoria e a política em negócio. O certo é que o diferendo entre Cuba e os EUA já não se trava em discursos nem em fóruns diplomáticos, mas sim nos balanços contabilísticos de empresas que vendem esperança a preços inflacionados.
Por trás deste mercado esconde-se uma profunda transformação que vai do confronto ideológico à colonização económica. E, nessa transformação, o povo cubano continua a ser o refém de uma guerra que mudou de rosto, mas não de objectivo.
Parte II: O fruto maduro
Durante décadas, Donald Trump demonstrou interesse em investir em Cuba, mesmo quando o bloqueio o proibia. Nos anos 90, a sua empresa Trump Hotels & Casino Resorts enviou delegações exploratórias a Havana para avaliar oportunidades nos sectores do turismo e da construção. De acordo com documentos publicados pela Newsweek em 2016, a empresa pagou cerca de 68 000 dólares a consultores para estudar como operar na ilha caso o bloqueio fosse levantado. Além disso, Trump registou marcas comerciais em Cuba — relacionadas com hotéis, campos de golfe e serviços financeiros — como parte de uma estratégia preventiva para se posicionar num eventual cenário de abertura. Ou seja, o seu interesse económico precede o seu discurso político.
Por outro lado, Marco Rubio, senador pela Flórida, tornou-se o principal articulador do lobby cubano-americano no seio do Partido Republicano. A sua influência foi decisiva na formulação da política em relação a Cuba durante a administração Trump. Rubio não só defendeu o endurecimento do bloqueio e a reversão das medidas de Obama, como também manteve laços com empresários do exílio que beneficiam das restrições: empresas de encomendas, remessas e serviços migratórios que operam entre Miami e Havana. Em termos políticos, Rubio representa a legitimação ideológica do negócio: transforma a pressão económica em discurso moral.
A ligação entre ambos — Trump e Rubio — assenta numa aliança de conveniência. Trump precisava do voto cubano-americano na Flórida, um estado fundamental para a sua estratégia eleitoral, e Rubio oferecia a estrutura política e simbólica necessária para o garantir. Em troca, Rubio consolidava a sua liderança dentro do partido e a sua influência sobre a política em relação a Cuba. Nesse pacto, o diferendo transformou-se numa plataforma económica e eleitoral: as sanções mantiveram-se não só por razões ideológicas, mas porque beneficiavam sectores empresariais do exílio e reforçavam a narrativa de «mão dura» que ambos partilhavam.
Em resumo, as ligações entre Trump e Rubio são económicas, políticas e simbólicas. Económicas, porque Trump procurou historicamente oportunidades de investimento em Cuba e o seu círculo empresarial beneficia indirectamente do bloqueio; políticas, porque Rubio canaliza o poder do lobby cubano-americano no Congresso; e simbólicas, porque ambos utilizam o discurso sobre Cuba como ferramenta de legitimação perante a sua base eleitoral.
Este triângulo —Trump, Rubio e o lobby da Flórida— é o eixo que sustenta o actual «mercado das necessidades»: um sistema em que a política se transforma em negócio e a crise cubana numa oportunidade de lucro.
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