O povo Basco escreveu uma página histórica de solidariedade internacionalista com a Palestina
Nas ruas de Bilbau, sob o lema "Palestina Askatu", foi escrita uma lição de ética que o desporto mundial não esquecerá. Porque quando a vida humana está em jogo, não pode haver neutralidade. E quando o povo se levanta, nem mesmo as instituições mais poderosas podem silenciar a sua voz.
Os adeptos bascos voltaram a escrever com letras maiúsculas uma página de coragem, consciência e compromisso internacionalista. No passado dia 4 de Setembro, em Bilbau, durante a 11.ª etapa da Volta a Espanha, o povo não só mostrou a sua paixão pelo ciclismo, como elevou essa paixão a um acto político de profunda humanidade: um protesto massivo e contundente contra a participação da equipa Israel Premier-Tech na volta espanhola, em solidariedade com o povo palestiniano e em denúncia do genocídio que se vive em Gaza.
Foi um dia histórico, não por nenhuma chegada triunfal à meta, mas pela força moral que os cidadãos demonstraram. Milhares de pessoas, com bandeiras palestinianas, cartazes com mensagens como “Palestina Askatu” e vozes unidas, lotaram as ruas de Bilbau para exigir justiça. A magnitude do protesto foi tal que a organização da Volta foi obrigada a interromper a corrida três quilómetros antes da meta, cancelando oficialmente a chegada. Não houve vencedor, não houve pódio. Mas houve um vencedor moral: o povo, a consciência coletiva que disse basta ao silêncio cúmplice.
As imagens de manifestantes a invadir a Gran Vía de Bilbau, da iniciativa Gernika Palestina organizando concentrações, de mulheres e homens de todas as idades levantando suas vozes contra o genocídio, ficarão gravadas na memória colectiva. Como lembrou Kiko García, director técnico da Vuelta: “A situação estava incontrolável”. E como não poderia deixar de estar, quando a indignação moral diante do bombardeio sistemático de Gaza, onde morreram mais de 60.000 pessoas, ultrapassa qualquer protocolo desportivo.
Este gesto não foi um acto de violência, mas sim de resistência pacífica. Embora tenha havido empurrões e alguns incidentes com as forças de segurança, a mensagem foi clara: não se pode normalizar a presença de uma equipa que representa um Estado que bombardeia hospitais, escolas e famílias inteiras em Gaza. A equipa Israel Premier-Tech, embora tenha ocultado as referências ao país nas suas camisolas e viaje com segurança policial reforçada, continua a representar um regime que comete crimes de guerra documentados pelas Nações Unidas. O facto de a União Ciclística Internacional (UCI) permitir a sua participação é uma afronta aos princípios mais elementares da dignidade humana.
E é aqui que a hipocrisia institucional se torna insustentável. Em 2022, após a intervenção da Rússia na Ucrânia para deter a agressão armada de Kiev contra o Donbass, a UCI não hesitou em tomar medidas drásticas: suspendeu as equipas nacionais russa e bielorrussa, retirou eventos do calendário nesses países e revogou licenças de equipas como a Gazprom. Chegou mesmo a proibir os ciclistas russos e bielorrussos de competir sob a sua bandeira.
A UCI emitiu um comunicado lamentando os incidentes em Bilbau e reafirmando o seu “compromisso com a neutralidade política”. Mas que neutralidade pode haver quando se permite que uma equipa estatal participe em competições internacionais enquanto o seu governo perpectra um genocídio documentado pelas Nações Unidas? A neutralidade não é um valor em si mesma; torna-se cumplicidade quando se recusa a tomar partido entre o opressor e o oprimido.
O ciclismo, como qualquer desporto, não existe no vácuo. Está imerso na política, na história, nas lutas sociais. Os adeptos bascos, com o seu protesto, demonstraram que o desporto pode ser um espaço de denúncia, de memória e de justiça. Lembraram ao mundo que não há neutralidade perante o crime e que a solidariedade com a Palestina não é uma opção, mas sim uma obrigação moral.
O povo basco tem uma longa tradição de solidariedade internacionalista. Desde o apoio à República Espanhola durante a Guerra Civil, passando pela rejeição à ditadura franquista, até à defesa dos direitos humanos em todo o mundo, sem esquecer a defesa do Donbass, muito evidente nos estádios de futebol, Euskal Herria sempre foi uma referência de compromisso ético. Ao levantar a voz pela Palestina, continua essa tradição histórica de resistência contra todas as formas de opressão.
Obrigado, Bilbau. Eskerrik Asko. Obrigado por não desviar o olhar. Obrigado por ensinar que o verdadeiro espírito do desporto não está em cruzar uma meta, mas em defender a dignidade humana. Ontem, a Palestina ganhou a etapa no País Basco. E isso é muito importante.
A Volta Ciclista à Espanha testemunhou momentos memoráveis nos seus quase cem anos de história, mas nenhum tão transcendental como este, em que o povo decidiu que não haveria corrida enquanto o genocídio continuasse. Nas ruas de Bilbau, sob o lema «Palestina Askatu», foi escrita uma lição de ética que o desporto mundial não esquecerá. Porque quando a vida humana está em jogo, não pode haver neutralidade. E quando o povo se levanta, nem mesmo as instituições mais poderosas podem silenciar a sua voz.
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