Porquê Cuba?
Os Estados Unidos, a maior potência militar do mundo, perderam a sua hegemonia. E não há nada mais perigoso do que um poder que perde o controlo sobre o planeta.
O capitalismo está em crise devido ao colapso do sistema financeiro especulativo e da sua base real: o dólar. Ao contrário das potências que integram o BRICS, cujas moedas têm respaldo material real, o dólar não tem.
O BRICS é um bloco integrado por países dos continentes africano, euro-asiático e latino-americano. Privilegia o intercâmbio económico através das moedas locais dos seus membros. Estende-se por mais de um terço da superfície do mundo e abrange cerca de 49,5% da população mundial.
A percentagem da associação no PIB mundial é cerca de 40% superior à do G7 (França, EUA, Canadá, Japão, Reino Unido, Itália e Alemanha), que se situa em torno de 30%. Além disso, representa aproximadamente 26% do comércio mundial.
Os Estados Unidos sentem-se ameaçados pelo surgimento dos BRICS, um conjunto de potências emergentes e aliadas. É evidente que estamos numa transição intersistémica, numa nova ordem de poderes. Alguns especialistas classificam este momento como o mais perigoso da história da humanidade para o sistema internacional.
Perante a perda da sua hegemonia no mundo, o governo dos Estados Unidos recorre à força militar para resolver os conflitos. A arquitectura internacional que hoje nos rege não responde ao momento histórico que vivemos. O genocídio contra a Palestina e Cuba, sem qualquer custo para os agressores, é prova disso.
É um facto que, no Médio Oriente e nas Caraíbas joga-se o destino da humanidade. Considerando o exposto, os Estados Unidos procuram refugiar-se no que chamam de seu “quintal”: a América Latina e o Caribe. Por esta razão, reactivam a Doutrina Monroe, cujo princípio fundamental é: “A América para os americanos”.
Porquê Cuba?
Como apontou no artigo “Afundar Cuba” no jornal Granma, o autor, historiador e director do Centro Fidel Castro, René Gonzales Barrios escreveu: “Devido à sua posição geográfica e à importância económica, política e militar da sua posse, desde os primeiros momentos do surgimento dos Estados Unidos, Cuba foi, para os sucessivos governos do norte, uma joia cobiçada e preciosa”.
A Maior das Antilhas é a porta de entrada para a América Latina e o Caribe. Se os Estados Unidos subjugassem Cuba, poderiam controlar o circuito marítimo da região e, consequentemente, a principal via de intercâmbio comercial.
O objectivo é expulsar a presença da China e da Rússia do continente latino-americano e recuperar o que os Estados Unidos consideram seu território.
A crise do sistema capitalista agravou a contradição entre o eixo ocidental, formado pelos países que integram a OTAN, e o eixo euro-asiático, formado pela China e pela Rússia.
Mas apropriar-se de Cuba não tem sido uma tarefa fácil para o Império do Norte. São mais de seis décadas de imposição de um bloqueio comercial e financeiro que visa sufocar a ilha, com o objectivo de infligir dor à sua população e fazer com que seja o próprio povo que gere uma mudança no sistema político, alinhada aos interesses dos Estados Unidos.
Apesar das sanções, Cuba desenvolveu um sistema socialista e alcançou conquistas substanciais nas áreas da educação, saúde, ciência, cultura e desporto. O povo cubano e os seus líderes ao longo da história têm dado provas de estoicismo, dignidade e resistência.
O director do Centro Fidel Castro, René Gonzales, lembrou: “O presidente Teodoro Roosevelt, hoje exaltado pelos anexionistas de Miami como Libertador de Cuba, em setembro de 1906, durante a segunda intervenção militar dos Estados Unidos na ilha, teria dito: “Estou tão irritado com essa infernal pequena república cubana que gostaria de apagar o seu povo da face da terra”. Era o mesmo pensamento do empresário Cyrus Duvall, publicado pelo jornal Washington Post em 13 de agosto de 1900: “Se primeiro pudesse afundar a ilha por meia hora (…) Se todos os seres vivos pudessem ser removidos e a terra purificada com fogo e água, e repovoada com norte-americanos, então seria um paraíso na terra”.
A política de ódio e extermínio em relação a Cuba existe há mais de dois séculos. Agora, Trump intensifica o plano de genocídio contra a ilha e executa um bloqueio naval que impede a entrada de petróleo.
As consequências são alarmantes, com crianças em hospitais que podem morrer devido à falta de electricidade e suprimentos médicos, e universidades e escolas afectadas pela medida assassina do governo dos Estados Unidos.
Apesar disso, o povo cubano resiste. No entanto, hoje mais do que nunca, precisa da solidariedade dos povos do mundo que tanto devemos à Revolução cubana.
Nesse sentido, é determinante o papel que podem desempenhar os países que integram os BRICS. Cuba é um país associado e defender o direito da Maior das Antilhas de existir é defender os princípios básicos de um mundo civilizado.
Em algum momento de suas histórias, todos os países podem comprovar terem sido ajudados por médicos, professores, cubanos e cubanas. Hoje é a nossa vez: em Cuba está em jogo o destino da humanidade.
Fonte:
Autora:
Florencia Lagos Neumann, Mestre em História Contemporânea e Relações Internacionais.

