
Em Cuba, ninguém se rende
Longe de qualquer desânimo, algumas notícias recentes dão a impressão de um povo que se recusa a render-se. Isto contraria a narrativa que os meios de comunicação hegemónicos tentam impor, com o objectivo de apresentar um país paralisado e derrotado.
Quanto tempo aguentaria qualquer nação moderna se a maior potência militar da história lhe bloqueasse completamente o acesso ao combustível? A sua população aguentaria a deterioração de todos os serviços e o agravamento drástico das condições de vida? O desaparecimento da maior parte dos transportes públicos, os cortes de energia eléctrica que chegam a durar dias inteiros, a falta de água durante períodos de duas ou mais semanas, a impossibilidade de recorrer a meios alternativos para cozinhar os alimentos, o facto de estar numa longa lista de espera para receber um tratamento cirúrgico impossível de realizar devido à falta de electricidade?
Estas são as actuais condições de vida em Cuba. Estas condições são o resultado directo e pretendido da política de «máxima pressão» que a administração Trump aplica de forma contínua contra a ilha, particularmente agravadas pelas Ordens Executivas de 29 de janeiro e 1 de maio de 2026. Tentar negar isto ou culpar exclusivamente o governo cubano é tornar-se cúmplice do discurso do opressor que, ao mesmo tempo que aperta o cerco, se recusa a reconhecer as suas responsabilidades.
Só no mês de julho, o Sistema Eléctrico Nacional (SEN) sofreu três interrupções em menos de quinze dias, deixando todo o país às escuras. Restabelecer o sistema, praticamente sem reservas de gasóleo e dependendo de centrais termoeclétricas obsoletas e propensas a avarias e falhas técnicas, é uma tarefa titânica.
Como mais um elemento que ilustra o cerco criminoso contra a ilha, no dia 15 de julho, foi divulgada a notícia de que a companhia marítima francesa CMA CGM, uma das maiores do mundo, suspendeu totalmente o transporte de carga para a ilha, por receio de sanções colaterais da administração Trump. Como parte deste processo de suspensão das suas actividades com a ilha, deixou retidos no porto de Kingston, na Jamaica, dezenas de contentores com destino a Cuba, entre os quais se encontram peças de substituição indispensáveis para o SEN e um contentor enviado pela organização solidária SODePAZ, que transporta mais de 3,5 milhões de seringas e agulhas destinadas ao sistema de saúde da província oriental de Santiago de Cuba.
Um grupo de deputados norte-americanos visitou a ilha entre 9 e 13 de julho. Mantiveram encontros com várias personalidades da ilha, incluindo o presidente Miguel Díaz-Canel, e visitaram diversas instituições nas áreas da saúde, da educação, etc. No final da sua viagem, os congressistas Mark Pocan (Wisconsin), Maxine Dexter (Oregon), Teresa Leger Fernández (Novo México) e Delia Ramírez (Illinois) solicitaram à administração Trump que levantasse as sanções e encetasse «negociações sérias e abrangentes». Além disso, classificaram o que está a acontecer na ilha como uma «Gaza silenciosa».
Apesar da situação frustrante, dos erros que possam ser cometidos e da tensão geral que o país vive, o governo e o povo cubano têm continuado a procurar formas de resistir no cenário actual. Longe do desânimo, algumas notícias recentes dão a ideia de um povo que se recusa a submeter-se. Isto contraria a narrativa que os meios de comunicação hegemónicos tentam impor, para apresentar um país paralisado e derrotado.
Refinar petróleo cubano
Cuba produz aproximadamente 40 por cento do combustível de que necessita. Os principais jazigos do país situam-se na faixa centro-norte da ilha, onde se extrai um combustível essencialmente pesado, com elevado teor de enxofre. Na década de 90, as centrais termoeclétricas da ilha foram adaptadas para processar este combustível cubano. Embora isso implique um maior desgaste das máquinas, tem proporcionado, desde então, ao país uma autonomia relativa num sector fundamental.
Mas, até agora, nunca se tinha conseguido refinar esse combustível. A convicção geral no sector era de que isso era impossível, dadas as suas características físicas. No entanto, nos primeiros dias de junho, os principais meios de comunicação da ilha noticiaram que a refinaria «Hermanos Díaz», na cidade de Santiago de Cuba, tinha conseguido concluir o refino de aproximadamente 20 mil toneladas de petróleo bruto cubano. Os principais subprodutos obtidos foram a nafta, indispensável para garantir o funcionamento dos poços de petróleo cubanos, dada a elevada viscosidade do petróleo bruto extraído, e uma certa quantidade de fuelóleo.
Embora o fuelóleo, por si só, não cumpra os requisitos para ser utilizado na produção de electricidade ou em veículos a combustão, ao misturá-lo com combustíveis de maior qualidade, as suas características melhoram e, em princípio, torna-se adequado para utilização. A continuidade desta experiência revela um resultado de particular relevância no contexto da crise económica: Cuba poderia, com o seu próprio combustível, produzir uma parte do gasóleo e da gasolina de que necessita para o funcionamento dos grupos geradores e para o transporte de mercadorias e passageiros. Isto não implica apenas soberania, implica também vitalidade para um país cujo caminho crítico para enfrentar o cerco criminoso e intensificado passa pela superação do complexo cenário energético.
A ciência contra o cancro
Outras duas notícias ilustram a ideia central deste texto. Em junho, Cuba anunciou a reactivação de uma fábrica que irá produzir 16 medicamentos de quimioterapia utilizados no âmbito do Programa Nacional contra o Cancro. Além disso, foram anunciados os resultados de uma nova vacina cubana contra o cancro, única no seu género a nível mundial. A vacina chama-se HEBERSaVax e é uma vacina terapêutica que ajuda o organismo a criar anticorpos específicos e ataca directamente o fornecimento de nutrientes e oxigénio aos tumores.
Até ao momento, a vacina revelou-se extremamente segura, com efeitos adversos raros e toleráveis. Pode ser combinada com outras terapias sem aumentar a toxicidade. Os doentes em ensaios clínicos de Fase II, mesmo em estádios avançados, demonstraram uma melhoria significativa na sua qualidade de vida e respostas complementares ao tratamento. Tem, além disso, potencial para tratar diversos tumores sólidos, como o cancro colorretal, de ovário, renal e o hepatocarcinoma.
Aproveitar toda a energia solar
Apesar dos constantes cortes de energia, que podem chegar a durar até 40 horas em algumas regiões de Cuba, os esforços para acelerar a transição energética não cessam. Este processo, que noutros países exigiu até uma década de investimento sustentado, em Cuba teve de ser levado a cabo sob pressão e de forma acelerada. Para se ter uma ideia da velocidade desta transição, em 2023 a energia solar representava apenas 3,6% da produção de energia na ilha. Em 2025, passou a representar 10% e, em 2026, aproxima-se já de quase 20% do total.
Algumas províncias do país, como Pinar del Río e Ciego de Ávila, conseguiram, graças à potência solar instalada, autoabastecer-se de electricidade durante várias horas por dia, sem recorrer de forma alguma à Rede Eléctrica Nacional (SEN).
Devido à complexa situação do sistema no seu conjunto e às características desta fonte de energia, propensa a flutuações constantes devido a diversos factores, actualmente o país não consegue aproveitar a totalidade da potência instalada. Para resolver este problema, já no início de julho entrou em funcionamento o primeiro de quatro parques de baterias com uma capacidade de 50 MW. Esta reserva permite compensar as flutuações e aumentar a produção dos parques. Apenas com a entrada em funcionamento destas baterias, foi possível aumentar a contribuição média diária dos parques solares de 400 para mais de 600 MW. As outras três baterias em construção permitirão atingir 200 MW de armazenamento, o que permitirá gerar a capacidade máxima de energia solar em todo o país.
As 176 medidas
De forma célere, os principais órgãos de decisão colegiada do país aprovaram um pacote de 176 medidas económicas que visa dar resposta ao complexo cenário económico e social do país. Embora controverso, o pacote de medidas, que inclui desde o regresso da banca privada até ao arrendamento de terras a estrangeiros por períodos de 99 anos, visa atrair investimento estrangeiro, dinamizar a economia produtiva e gerar riqueza que possa ser redistribuída na saúde, educação, cultura e outros indicadores de justiça social fundamentais para o projecto da Revolução.
A implementação destas medidas marca uma transformação sem precedentes no tecido económico e social do país, transferindo serviços essenciais, como a importação e comercialização de combustível, para o sector privado. Estas medidas são o resultado do cerco, cujas sanções incluem empresas-chave como a Cuba Petróleo, mas também fazem parte de tudo o que o país tem vindo a fazer para se impor face ao cenário que lhe foi imposto.
Todo o saber de Cuba, toda a vontade do seu povo, toda a disposição dos amigos e amigas de todo o mundo estão empenhados em não permitir que se concretize o plano macabro do Imperador em funções e do seu Secretário de Estado. Há muitas mudanças a ocorrer em Cuba, a um ritmo acelerado, mas certamente os grandes meios de comunicação têm dado pouca cobertura a estas notícias. Preferem a narrativa de um país falhado, pronto para ruir ao menor empurrão do império norte-americano. Em Cuba, ninguém se rende.
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José Ernesto Nováez Guerrero | Escritor e jornalista cubano. Membro da Associação Hermanos Saíz (AHS).
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