A mentira como política antidrogas: Venezuela na lista negra de Washington
Em 15 de setembro de 2025, o Departamento de Estado dos Estados Unidos publicou a "Determinação Presidencial sobre Países de Trânsito de Drogas ou Grandes Produtores Ilícitos de Drogas para o Ano Fiscal de 2026". Nesse documento, a Venezuela é novamente incluída numa lista que a aponta como um país-chave no tráfico internacional de estupefacientes, especificamente de cocaína.
Além disso, o presidente Nicolás Maduro é acusado directamente de liderar “um dos maiores cartéis de cocaína do mundo”, e o Governo Bolivariano é classificado como um “regime criminoso”.
No entanto, essa determinação — apresentada como uma análise técnica e objectiva — colide frontalmente com os dados empíricos, estatísticos e geográficos divulgados pelas principais agências internacionais especializadas no combate ao narcotráfico, incluindo o Escritório das Nações Unidas contra as Drogas e o Crime (UNODC), a União Europeia e, paradoxalmente, até mesmo relatórios recentes da própria Administração para o Controlo de Drogas dos Estados Unidos (DEA).
Se analisarmos rigorosamente os factos e compararmos fontes oficiais, podemos desmontar claramente, ponto por ponto, as inconsistências, omissões e motivações geopolíticas subjacentes à determinação dos Estados Unidos.
Nada de novo: a contradição entre a narrativa política e as evidências empíricas demonstra que a administração de Donald Trump está a construir uma justificativa oficial anti venezuelana em suas instituições com objectivos destrutivos, sem provas e com elementos fraudulentos.
A lógica técnica da determinação
Antes de entrarmos no mérito da questão, é crucial entender o que implica a inclusão de um país nesta lista. O próprio documento esclarece isso no seu segundo parágrafo:
"A presença de um país na lista acima não é necessariamente um reflexo dos esforços de combate ao narcotráfico do seu governo ou do nível de cooperação com os Estados Unidos. [A razão pela qual os países são incluídos é a combinação de factores geográficos, comerciais e económicos que permitem o trânsito ou a produção de drogas ou de precursores químicos, mesmo que um governo tenha adoptado medidas sólidas e diligentes de controlo dos estupefacientes.
Por outras palavras, pela sua própria definição, o facto de constar da lista não implica que o governo do país em causa seja negligente, corrupto ou cúmplice do tráfico de droga. Significa simplesmente que, devido à sua localização geográfica ou volume de comércio, existe um risco teórico de que drogas ilícitas possam transitar pelo seu território.
No entanto, no caso da Venezuela, o documento vai muito mais longe. Não se limita a mencionar a Venezuela como um potencial país de trânsito. Acusa-o explicitamente de ser governado por um “regime criminoso” liderado por um “acusado de tráfico de droga”, Nicolás Maduro, e de operar “uma das maiores redes de tráfico de cocaína do mundo”.
Esta acusação não é técnica: é política, jurídica e moral, com um toque de Marco Rubio. Por isso, exige provas concretas, verificáveis e públicas. Provas que, até à data, não foram apresentadas.
Dados da ONU e da UE: Venezuela, ausente dos mapas mundiais do tráfico de droga
O Relatório Mundial sobre Drogas 2025 do UNODC – a maior autoridade mundial em matéria de política e estatísticas sobre drogas – não menciona a Venezuela como país productor, nem como rota principal, nem como centro de recolha ou processamento de cocaína.
De acordo com o relatório, 67% do cultivo mundial de folha de coca está concentrado na Colômbia. O Peru e a Bolívia completam o triângulo andino de produtores.
A Venezuela, por outro lado, conseguiu – segundo o próprio UNODC – consolidar-se nos últimos 15 anos como um território “livre de cultivos de folha de coca, maconha e processamento de cocaína”.
Em termos de rotas de tráfico, o relatório é ainda mais conclusivo:
87% da cocaína que sai da Colômbia é transportada pelo Pacífico, principalmente a partir de portos equatorianos e colombianos.
8% é transportada pela península de La Guajira, no Caribe colombiano.
Apenas 5% tenta atravessar o território venezuelano.
E desses 5%, de acordo com os dados apresentados pela vice-presidente Delcy Rodríguez num discurso de abertura – apoiados por relatórios operacionais do UNODC e números oficiais de apreensões nacionais – as forças de segurança venezuelanas conseguem interceptar e destruir 70%. Por outras palavras, neutralizam mais de três quartos da droga que tenta entrar pela sua fronteira.
Não se trata de uma afirmação propagandística: é um facto estatístico que pode ser verificado nos relatórios anuais do UNODC de 1999 a 2025. Em nenhum destes 27 anos a Venezuela apareceu como um actor relevante na cadeia global de produção ou tráfico de drogas.
E desses 5%, de acordo com dados apresentados pela vice-presidente Delcy Rodríguez numa palestra magistral — apoiados por relatórios operacionais da UNODC e números oficiais de apreensões nacionais —, as forças de segurança venezuelanas conseguem interceptar e destruir 70%. Ou seja, neutralizam mais de três quartos das drogas que tentam entrar pela sua fronteira.
Não se trata de uma afirmação propagandística: é um dado estatístico que pode ser verificado nos relatórios anuais da UNODC de 1999 a 2025. Em nenhum desses 27 anos, a Venezuela aparece como um ator relevante na cadeia global de produção ou tráfico de estupefacientes.
A União Europeia, no seu Relatório Europeu sobre Drogas 2025, corrobora essa ausência. Embora indique que a cocaína é a segunda droga mais consumida na Europa e que as apreensões atingiram níveis recordes, não menciona a Venezuela nem uma única vez como país de origem, trânsito ou logística.
Em contrapartida, destaca a Colômbia como principal produtora e o Equador como ponto crítico de exportação.
De facto, a UE financiou um estudo específico intitulado “Segurança nos portos de Guayaquil”, que revelou que 57% dos contentores de banana que saem desse porto equatoriano — destinados principalmente a Antuérpia, na Bélgica — transportam cocaína escondida.
A maior apreensão registada na Europa em 2024 — 13 toneladas — provinha precisamente de um carregamento de bananas equatorianas.
Paradoxo da DEA: a Venezuela não aparece nos seus próprios mapas
Um dos argumentos mais contundentes apresentados pela ministra de Hidrocarbonetos na sua conferência do passado dia 12 de junho é que nem mesmo a DEA — a agência antidrogas dos Estados Unidos — inclui a Venezuela nos seus mapas operacionais de rotas de cocaína.
De acordo com os relatórios da DEA correspondentes a 2024 e 2025, as principais rotas de entrada de cocaína nos Estados Unidos são:
Na América Central: Guatemala, Honduras e El Salvador.
No Caribe: Porto Rico e República Dominicana.
E pela costa oeste dos Estados Unidos (Califórnia), o que confirma que a rota do Pacífico é a dominante.
A Venezuela não aparece em nenhuma dessas rotas principais. Nem como ponto de origem, nem como centro logístico, nem como plataforma de reembalagem ou redistribuição.
A vice-presidente Rodríguez resume com uma frase lapidária: “Calibrem e ajustem o GPS. Não é a Venezuela, é o Pacífico”.
Este dado é devastador para a narrativa norte-americana. Se a própria agência encarregada de combater o narcotráfico em nome dos EUA não considera a Venezuela uma ameaça operacional em seu território, por que então o Departamento de Estado a acusa de abrigar “uma das maiores redes de tráfico de cocaína do mundo”?
A única explicação possível é que a acusação não responde a critérios técnicos, mas (oh, surpresa!) a uma agenda política.
O mito do “Cartel de los Soles”: uma ficção sem base empírica
Um dos pilares da acusação contra a Venezuela é a existência do chamado “Cartel dos Sóis”, uma suposta rede de altos funcionários militares e civis dedicados ao tráfico de drogas, supostamente liderada pelo próprio Nicolás Maduro.
No entanto, nem a UNODC, nem a DEA, nem a União Europeia, nem a Interpol, nem qualquer organismo internacional sério apresentou provas concretas da existência desta organização. Não há relatórios de inteligência desclassificados, não há intercepções telefónicas verificadas, não há testemunhas protegidas que tenham deposto sob juramento em tribunais internacionais, não há laboratórios descobertos, não há rotas logísticas identificadas, não há contas bancárias vinculadas.
Nada.
Como observou a alta funcionária venezuelana: “Como pode existir o Cartel dos Sóis se aqui não há drogas, se aqui não há organização, se aqui não há armazenamento? É uma operação de propaganda para criminalizar o governo legítimo da Venezuela”.
Além disso, as próprias organizações criminosas transnacionais — os verdadeiros cartéis mexicanos, colombianos, albaneses — nunca mencionaram o “Cartel dos Soles” como aliado, concorrente ou intermediário.
No mundo real do narcotráfico, onde as alianças e traições são medidas em toneladas e dólares, a ausência de menção é, por si só, uma prova de inexistência.
O verdadeiro epicentro: os Estados Unidos como centro financeiro do tráfico de droga
Ao acusar a Venezuela de ser um “narcoestado”, o documento do Departamento de Estado omite deliberadamente um dado crucial: segundo a UNODC, 85% dos lucros globais do tráfico de cocaína acabam por ser lavados no sistema financeiro norte-americano.
Não na Venezuela. Nem na Colômbia. Nem mesmo no México. Nos Estados Unidos.
Bancos como o HSBC, o Wachovia e o Deutsche Bank foram multados — não processados criminalmente — por lavar centenas de milhares de milhões de dólares provenientes do narcotráfico. Essas multas, tratadas como infrações administrativas, equivalem a uma licença para continuar operando.
De acordo com números da ONU citados pela ministra Rodríguez:
A criminalidade organizada gera anualmente entre 1,6 e 2,2 biliões de dólares a nível mundial.
O tráfico de droga representa entre 426 mil milhões e 652 mil milhões de dólares por ano, o que equivale a 0,8% do PIB dos EUA.
O dinheiro lavado em actividades criminosas nos EUA equivale a 2,7% do PIB dos EUA.
Enquanto isso, mais de 110 mil americanos morreram por overdose em 2024. A crise dos opiáceos — especialmente o fentanil — é a principal causa de morte entre pessoas de 18 a 44 anos naquele país.
Por que, então, em vez de enviar navios de guerra à Venezuela, não se persegue com a mesma intensidade os “narcosajones” — a elite financeira e política americana — que se beneficia desse negócio? Por que não se investiga a fundo o papel das empresas farmacêuticas, dos laboratórios clandestinos em território norte-americano ou a cumplicidade das autoridades locais em estados como Ohio, Kentucky ou Virgínia Ocidental, epicentros da crise dos opiáceos?
A resposta é simples: porque o narcotráfico não é, para Washington, um problema de saúde pública ou segurança cidadã. É um instrumento de política externa.
Equador: mais um “narco-Estado” silenciado
Enquanto a Venezuela é publicamente destacada, o Equador – cuja crise de segurança e de tráfico de droga é documentada até pelo seu próprio presidente – aparece na lista do Departamento de Estado sem qualquer outra qualificação.
Daniel Noboa, o atctual presidente do Equador, admitiu publicamente que 70% da cocaína exportada para o mundo transita pelo seu país. É também sócio da Noboa Trading, um dos maiores exportadores de bananas do país, uma empresa ligada a múltiplas apreensões de cocaína escondida em contentores de fruta.

A UNODC, a OMA (Organização Mundial das Alfândegas) e a UE concordam: o Equador é hoje o principal ponto de exportação de cocaína para a Europa e os Estados Unidos. As máfias colombianas, mexicanas e albanesas operam com total impunidade nos seus portos, especialmente em Guayaquil.
Mas, curiosamente, nem o presidente Noboa, nem os seus parceiros, nem os cartéis que operam no seu território foram acusados pelos EUA de liderar um “regime criminoso” ou uma “rede de narcoterrorismo”.
A diferença com a Venezuela não é técnica. É geopolítica.
A expulsão da DEA: um obstáculo ou uma vantagem?
Em 2005, o governo de Hugo Chávez expulsou a DEA da Venezuela, acusando-a de espionagem política e infiltração nas forças de segurança. Desde então, a Venezuela desenvolveu a sua própria estratégia antidrogas, em cooperação com outras agências internacionais, mas sem a participação direta dos Estados Unidos.
De acordo com dados oficiais apresentados pelo governo venezuelano — e corroborados em parte pela UNODC —, as apreensões de drogas aumentaram significativamente desde 2005. Até agora, em 2025, foram apreendidas e destruídas 56 toneladas de drogas. Mais de 400 aviões de narcotraficantes foram abatidos. Qualquer laboratório descoberto é imediatamente destruído.
"Sabemos como fazê-lo melhor, os números dizem-nos isso. Apreendemos mais, temos um trabalho mais coordenado", resumiu o vice-presidente executivo.
Isso desmonta outro mito: que sem a DEA, a Venezuela se tornou um paraíso para o narcotráfico. A realidade é exactamente o oposto. A ausência da agência norte-americana não gerou caos, mas sim uma maior eficácia operacional, livre das suspeitas de jogo duplo que historicamente cercaram a DEA em outros países da região.
A farsa do “narco-Estado
A determinação presidencial dos EUA não é um documento técnico: é um acto político. O seu objectivo é criminalizar o Governo Bolivariano para justificar o seu isolamento internacional, a manutenção de sanções ilegais e, em última instância, uma mudança de regime. Nunca para combater o narcotráfico.
Os dados comprovam isso:
A Venezuela não aparece nos mapas da ONU, da UE ou da DEA como um actor relevante no tráfico mundial de droga.
As verdadeiras rotas passam pelo Pacífico, não pelas Caraíbas venezuelanas.
Oitenta e cinco por cento dos lucros da droga são lavados nos EUA, não na Venezuela.
O Equador – com números oficiais que admitem o trânsito de 70% da cocaína mundial – não é apontado com a mesma intensidade.
O “Cartel dos Sóis” não tem qualquer base empírica nos relatórios dos serviços secretos ou na estrutura real do tráfico internacional de droga.
A verdadeira «ameaça invulgar e extraordinária» vem de um sistema que instrumentaliza a luta contra as drogas para impor a sua hegemonia, proteger os seus interesses económicos e eliminar aqueles que se lhe opõem.
A Venezuela é um Estado sitiado, não um narcoestado. E a melhor defesa contra esta campanha não é a retórica, mas os dados. Dados que, ironicamente, provêm das mesmas instituições que os EUA dizem defender.
A história julgará esta determinação da administração Trump pelas suas evidências, que até agora estão do lado da Venezuela.
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