As Instituições Internacionais podem ser reformadas?
A questão principal trata, na verdade, de algo que foi mencionado por poucos: o papel de Rafael Grossi e da Agência Internacional de Energia Atômica.
Aparentemente, Israel e Irão adiaram a Terceira Guerra Mundial e parecem aderir, por enquanto, ao cessar-fogo negociado por Donald Trump (provavelmente com a ajuda de outros países). Mas se a “Guerra dos 12 Dias” já parou e os mísseis pararam de voar de um lado para o outro, permanecem as dúvidas sobre o destino do programa nuclear iraniano.
O governo dos EUA insiste que o programa nuclear iraniano deixou de existir e o Irão insiste que o seu programa nuclear ainda está de pé. Tudo indica que os iranianos estão com a razão e que os EUA estão, uma vez mais, a construir uma realidade paralela puramente simulada para fins de projeção da narrativa de poder.
Mas a questão principal não é essa e trata, na verdade, de algo que foi mencionado por poucos, como recentemente por Sergey Lavrov: o papel de Rafael Grossi e da Agência Internacional de Energia Atômica.
A Agência Internacional de Energia Atômica foi fundada em 1957 como uma agência “autônoma” – mas ligada à ONU – com o objectivo de fiscalizar os usos da energia nuclear pelas nações para promover seu uso pacífico e coibir a construção de armas nucleares. Nesse sentido, as equipes da AIEA visitam centrais nucleares, centros de pesquisa e outros tipos de instalações ligadas aos programas nucleares das várias nações para fazer verificações de segurança e supervisionar níveis de enriquecimento.
É importante apontar, porém, que apesar das pretensões de “autonomia”, a sua criação deu-se por insistência dos EUA – logo após o abandono da ideia “utópica” aventada no pós Segunda Guerra de manter as armas nucleares sob controle exclusivo da ONU – e a instituição sempre foi mais próxima dos interesses do Bloco Ocidental do que dos interesses fossem do Bloco Oriental ou do Movimento dos Não Alinhados.
Ainda assim, no passado, a AIEA chegou a desafiar as alegações estadunidenses de armas de destruição massiva no Iraque, durante a direção de Hans Blix e de Mohamed ElBaradei.
Mas no próprio mandato de ElBaradei já se podia perceber que havia uma tendência empurrando a AIEA na direcção do Ocidente. ElBaradei em textos produzidos neste período defendia uma retomada da visão utopista e globalista de uma energia nuclear monopolizada por uma agência “multinacional”, tal como as várias agências ocidentais controladas ou influenciadas pelos EUA. O próprio ElBaradei tornou-se um colaboracionista dos EUA após o término de seu mandato, participando na revolução colorida orquestrada no Egipto contra Hosni Mubarak.
Mas só no período de Yukiya Amano essa colaboração entre a AIEA e os EUA havia se tornado evidente graças às revelações do Wikileaks. Segundo o projecto conduzido por Julian Assange, em uma reunião entre Amano e diplomatas estadunidenses, Amano deixou claro, de forma explícita, que estava alinhado com os EUA no que concerne preenchimento de cargos e a postura a ser assumida perante o programa nuclear iraniano. Isso significa, evidentemente, que Amano encheu a AIEA de colaboradores dos EUA. Ele foi posteriormente acusado pelos próprios funcionários da AIEA de ter um viés pró-ocidental.
A partir disso podemos já deduzir um contexto para o comportamento de Rafael Grossi, sucessor de Amano.
Avançando para o mês de junho, Grossi preparou um relatório em que acusava o Irão de não cumprir com as suas obrigações perante a AIEA e marcou uma reunião de direcção da agência para a mesma data do término do ultimato de 60 dias de Trump no que concerne as negociações com o Irão. Segundo a CNN, os EUA entraram em contacto com vários dos directores para convencê-los a votar pela resolução de Grossi. A finalidade disso tudo era dar um verniz de legitimidade institucional para os ataques empreendidos por Israel contra o Irão.
O próprio relatório escrito por Grossi baseou-se integralmente em informações passadas a ele pela Mossad, que relatavam instalações nucleares desconhecidas nas quais haveria traços de urânio enriquecido.
Tudo indica, portanto, que Grossi sabia do ataque iminente e colaborou para criar um pretexto para justificar o ataque de Israel. Isso é ainda comprovado pelo facto de que, em momento algum, Grossi jamais dirigiu seus olhos para o programa nuclear israelense, até hoje conduzido às escuras, longe de qualquer inspeção internacional.
À luz dessa revelação, é terrível que, como comentou para o Financial Times este ano, Grossi tenha a intenção de concorrer para o cargo de Secretário-Geral da ONU. Considerando o histórico, é plausível que ele tenha apoio dos EUA no pleito, o que o ajudará bastante.
Casos como este, porém, não são isolados. Vimos como o Tribunal Penal Internacional actuou para acusar Vladimir Putin e a Rússia de sequestrar crianças ucranianas. A OMS, por sua vez, tentou sobrepor-se às soberanias nacionais durante o período pandémico. O FMI constantemente é usado para desindustrializar países do Terceiro Mundo.
Poderíamos ir além com vários outros casos.
O ponto principal, porém, é o seguinte: considerando que este é o estado das instituições internacionais, será que elas podem ser reformadas?
Ou precisaremos abandoná-las – como fez o Irão com a AIEA – para construir novas a partir do zero?
Fonte:
Autor:
Raphael Machado
Raphael Machado, Editor, analista geopolítico e político, escritor especializado em assuntos latino-americanos.

