Equador: Noboa sufoca ONGs com lei de controlo financeiro
De acordo com o texto, as organizações, que somam mais de 60.000, supostamente carecem de informações claras sobre o seu estatuto e funcionamento.
O presidente da República do Equador, Daniel Noboa, enviou nesta terça-feira à Assembleia Nacional o projeto de «Lei Orgânica para o controlo de fluxos irregulares de capitais», um documento de 28 páginas que impõe regulamentações rigorosas às mais de 60.000 organizações da sociedade civil do país sul-americano.
Com caráter econômico urgente, a norma visa controlar fundos, especialmente estrangeiros, sob o pretexto de prevenir a lavagem de dinheiro.
O projeto, intitulado «Lei Orgânica para o controlo de fluxos irregulares de capitais», estabelece um quadro para supervisionar fundações, ONGs, entidades comunitárias e sem fins lucrativos, tanto nacionais como estrangeiras.
Asamblea Nacional tramitará el proyecto urgente para combatir los flujos irregulares de capitales #AsambleaEc2025 pic.twitter.com/1vNd5fFiT5
— Asamblea Nacional (@AsambleaEcuador) July 29, 2025
De acordo com o texto, essas organizações, que somam mais de 60.000, carecem de informações claras sobre o seu estatuto e funcionamento. A Secretaria de Comunicação da Presidência afirmou que «a norma visa devolver a razão de ser das organizações sociais sem fins lucrativos: as causas justas».
A Superintendência de Economia Popular e Solidária assumirá a vigilância, auditoria, intervenção e controlo dessas entidades, alinhando-se com a Lei das Sociedades, a Lei do Mercado de Valores, a Lei Geral de Seguros e a nova regulamentação.
As organizações deverão apresentar relatórios anuais públicos detalhando receitas, despesas, projetos, beneficiários, avaliações de impacto, conformidade ética e gestão de riscos de corrupção.
O projeto obriga as organizações sem fins lucrativos a reportar a origem e o destino dos seus fundos, especialmente se provenientes do estrangeiro, e a registar-se no Sistema Unificado de Organizações da Sociedade Civil (SUIOS) em 90 dias. Também deverão inscrever-se na Unidade de Análise Financeira e Económica se receberem recursos externos e adotar sistemas de integridade em seis meses.
O incumprimento implicará multas, suspensão ou dissolução, e possíveis denúncias ao Ministério Público se forem detetados indícios de crime. No âmbito tributário, o artigo 39.2 da Lei do Regime Tributário Interno é alterado, impondo um imposto de 12% sobre os dividendos de sociedades residentes e de 10% para ONGs não residentes, exceto em casos de propriedade em paraísos fiscais.
Noboa, em entrevista à imprensa, justificou a lei dizendo que supostamente «são utilizadas fundações ou organizações sem fins lucrativos, ONGs internacionais, para introduzir dinheiro e desestabilizar o país, sem qualquer tipo de controlo».
As declarações do presidente de extrema direita sugerem uma narrativa que poderia estigmatizar as organizações civis, muitas das quais defendem os direitos humanos e causas sociais.
Este é o quarto projeto econômico urgente do Executivo, que a Assembleia Nacional deverá analisar em 30 dias. As três leis anteriores (Integridade Pública, Solidariedade Nacional e Inteligência) enfrentam ações de inconstitucionalidade.
Trabajadores de la salud avanzan hacia la Corte Constitucional, en Quito, donde presentarán una demanda de inconstitucionalidad de la Ley de Integridad Pública propuesta por Daniel Noboa y aprobada por la Asamblea Nacional, sostienen que pone en riesgo el sistema de salud, los… pic.twitter.com/jhgMB6c6jN
— Elena Rodríguez Yánez (@ElenaDeQuito) July 16, 2025
O governo insiste que a lei não afeta organizações honestas, mas sim aquelas que «maquiram o uso de recursos ilícitos». No entanto, o controlo exaustivo sobre fundos estrangeiros e a ameaça de sanções severas podem limitar o trabalho das ONGs que atuam em comunidades vulneráveis.
A lei também exige transparência na estrutura organizacional, financiamento e resultados das organizações, mas o tom do projeto e as declarações do Executivo geram preocupação sobre possíveis restrições à liberdade de associação e ao ativismo social no Equador.
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