Não há tensão entre os EUA e a Venezuela, há apenas agressor e vítima
Classificar as hostilidades de Washington como uma «tensão entre nações» é criar uma equivalência irreal e absurda.
Quando as principais agências de notícias internacionais e a imprensa comercial brasileira analisam o que acontece na Venezuela, é comum classificar a situação como «uma tensão entre Caracas e os Estados Unidos».
Apesar da postura defensiva da Venezuela e dos apelos à paz feitos pelo governo de Nicolás Maduro, a falsa equivalência persiste nos artigos jornalísticos e nas análises.
Quase parece que os próprios venezuelanos teriam levado o maior porta-aviões do mundo para as costas da Flórida e estariam realizando exercícios militares a poucos quilómetros do território norte-americano.
Ou talvez seja o ministro da Defesa de Maduro que viaja frequentemente a países do Caribe para solicitar apoio dos governos locais para sua campanha de pressão máxima contra Donald Trump.
E que cidadãos americanos estão sendo executados em ataques contra embarcações não identificadas, alvos da inteligência venezuelana em um suposto esforço para combater o narcotráfico.
Todas estas situações estão a acontecer neste momento, enquanto escrevo estas linhas. Mas, na realidade, é os Estados Unidos que bombardeiam e assassinam venezuelanos em embarcações, foi Trump quem ordenou o envio de tropas para o Mar das Caraíbas, e é o seu secretário que coordena com governos aliados de direita na América Latina para pressionar pela derrubada de Maduro.
Ontem (11), Trump deu mais um passo: ordenou a apreensão de um navio que transportava toneladas de barris de petróleo venezuelano, alegando uma violação das sanções aplicadas pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos.
«Roubo e pirataria flagrantes», reagiu Caracas. De facto, o roubo e a pilhagem de ativos venezuelanos tornaram-se recorrentes desde a chegada de Trump à Casa Branca. Desde 2016, a Venezuela tem activos congelados em bancos internacionais, reservas de ouro apreendidas no Banco da Inglaterra, uma rede de refinarias liquidadas à revelia por tribunais norte-americanos e, desde 2019, tem sido praticamente impedida de vender o seu principal produto, o petróleo, sem ter de negociar com operadores de outros países, assumindo riscos elevados e pagando comissões elevadas.
A situação é obviamente tensa para a Venezuela e para a região. Uma acção militar dos EUA teria consequências desastrosas para todos os países latino-americanos e arrastaria o povo americano para mais uma das inúmeras guerras predatórias que a Casa Branca costuma criar.
No entanto, classificar as hostilidades de Washington como uma «tensão entre nações» cria uma equivalência de posições e poder de fogo que, na prática, é irrealista e beira o absurdo.
O Brasil de Fato é o único meio de comunicação do país que mantém uma correspondência permanente na Venezuela há mais de 10 anos. O nosso objetivo é informar os leitores e telespectadores com objetividade, qualidade e rigor jornalístico, destacando todos os riscos que a situação apresenta. Sem falsas simetrias ou comparações, mas com uma perspectiva popular e anti-imperialista.
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